O “caneco” é nosso! Pela primeira vez na história, uma selecção sénior portuguesa venceu uma grande competição. Mas se tal é uma realidade indesmentível, também é um facto que os comandados de Fernando Santos não praticaram um tipo de futebol de apreciação unânime.

Após termos encantado em 1966, 1996 e 2004, a selecção de 2016 foi acusada por muitos de ter trocado o bom futebol pelo pragmatismo, e até um cântico entoado por jogadores e adeptos deu conta disso (“Pouco importa pouca importa, se jogamos bem ou mal…”) diziam eles, numa alusão às críticas que começaram a surgir logo na fase de grupos. Mas será que as críticas estavam certas e que Portugal é mesmo dos piores campeões europeus dos últimas décadas?

Com a ajuda de dados históricos, fomos analisar os últimos dez vencedores, da Alemanha de 1980 até ao Portugal de 2016, e perceber o que os une e os separa.

“De empate em empate, até à vitória final”

Esta foi outra das frases que muito se ouviu em tom de brincadeira, mas será que Portugal teve mesmo alergia à vitória? Se procurarmos recordar durante quanto tempo estivemos a ganhar um jogo, o exercício não é fácil, mas como fica a comparação com os outros campeões?

Mythbusters | Portugal jogou pouco para um campeão?
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Foi mesmo sofrido. De entre todos os últimos dez campeões Europeus, só a Holanda em 1988 tinha estado em vantagem durante menos do que 25% de tempo, e mesmo assim o dobro do que Portugal em 2016. Num total de 720 minutos de futebol, Portugal esteve na frente durante apenas 76 minutos, menos do que um jogo completo.

O processo ofensivo

Entre vários factores existem dois que nos ajudam ajudam a perceber a qualidade do processo ofensivo de uma equipa: ter bola e saber o que fazer com ela. Tendo isso em conta decidimos analisar a percentagem média de posse de bola e também o número de remates enquadrados a cada 90 minutos para cada um dos últimos dez campeões.

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De facto, Portugal não acabou o Euro 2016 com números memoráveis em nenhum dos aspectos, mas também não foi dos piores. A Grécia em 2004 e a Dinamarca em 1992 apresentaram um processo ofensivo bem menos generoso do que Portugal 2016.

O problema surge quando cruzamos os dois últimos gráficos. A Dinamarca, visto ter estado 46% do tempo na frente durante o Euro 92, não teria a mesma necessidade de procurar golos do que Portugal, isto não entrando em discussões subjectivas de estatuto e de qualidade de cada uma das equipas.

O processo defensivo

Mas se para o processo ofensivo português não sobram muitos elogios, já o defensivo, também ele criticado em dados momentos, é outra “história”.

Portugal acabou o Euro 2016 com apenas cinco golos sofridos, sendo que três deles surgiram no mesmo jogo, contra a Hungria. Ou seja, Portugal não sofreu golos em quatro dos seus sete jogos. Mas deveu-se isso mais a Rui Patrício ou a todo o processo defensivo? Analisámos a quantidade de remates enquadrados permitidos por todos os campeões europeus e também quantos remates cada selecção cedeu dentro da sua grande área.

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Aqui sim, Portugal tem números de campeão Europeu. Repare-se que, no que toca aos remates enquadrados que permitiu, apenas as últimas duas Espanhas e a Holanda de 88 têm um número inferior ao português. Já no que toca aos remates permitidos dentro da área, Portugal também se situa abaixo da média dos nove campeões europeus anteriores, que era de 6.1.

Percentualmente, os números são ainda melhores. Rui Patrício defendeu 87.5% dos remates enquadrados permitidos por Portugal dentro da sua área, número apenas superado por três guarda-redes ao longo da história dos Europeus: Dino Zoff em 1980 (100%), Iker Casillas em 2012 (90%) e Dmitri Kharin em 1992 (89%).

Conclusão

Portugal não foi um campeão europeu brilhante. Para além de ter feito sofrer os seus adeptos mais do que qualquer outro campeão europeu nos últimos 36 anos, não produziu um volume de jogo ofensivo que lhe permita reservar lugar na memória colectiva como uma das grandes selecções de sempre. Já houve piores? Claro. Mas existiram melhores, sobretudo no plano atacante.

Defensivamente sim, Portugal teve números ao nível das melhores da sempre, não dando grande margem aos adversários para criar perigo, algo que também se espera de um campeão.

Objectivamente o mito é confirmado, Portugal jogou pouco e fica a sensação de que quem tem o melhor do mundo podia e devia ter jogado um futebol mais positivo. Porém, o futebol não é só ataque, é também competência defensiva. E como diz a música, a taça chegou a Portugal, o resto agora… pouco importa, pouco importa.

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Hernâni Ribeiro
Formado em estatística e Data Scientist profissional. A paixão pelo futebol conjugada com a análise de dados vive-a também como administrador do portal foradejogo.net, após ter sido co-responsável do processo de pesquisa oficial portuguesa para o jogo Football Manager.