O futebol português está recheado de exemplos de adaptações posicionais. Os mais “antigos” ainda se lembrarão do dia em que Fernando Chalana resolveu transformar Miguel, um extremo que jogava habitualmente pelo lado esquerdo, num dos grandes laterais-direitos da Europa do seu tempo.

Mas há outros casos mais recentes. Jorge Jesus “sacou da cartola” Fábio Coentrão como lateral-esquerdo e Enzo Pérez como médio-centro, jogadores que melhoraram bastante o seu rendimento nas “novas” posições, mas também Danilo Pereira foi adaptado várias vezes a defesa-central sem que se notasse qualquer diferença no seu elevado rendimento.

Acontece que para cada Coentrão há, normalmente, um Melgarejo, e nem todas as adaptações são bem-sucedidas. No fundo, o segredo está em identificar em cada jogador as características necessárias às especificidades de cada função em campo, e nisso os dados estatísticos podem dar uma grande ajuda.

Foi com essa premissa que partimos para mais este desafio, no sentido de encontrar, na Liga NOS, alguns exemplos de adaptações que podem, se postas em prática, vir a dar resultados interessantes.

Barnes Osei (Paços de Ferreira)
Extremo ▶ Ponta-de-lança

A história de Barnes Osei em Portugal começa no início de 2013, quando chegou do Gana para alinhar nos júniores do Paços de Ferreira. Numa equipa que também tinha Diogo Jota, o ganês não demorou a brilhar, e ainda júnior, no final da época seguinte, foi chamado por Jorge Costa a fazer três jogos pela equipa principal.

Paulo Fonseca considerou-o ainda “tenrinho” e resolveu emprestá-lo ao União da Madeira da Segunda Liga, mas Barnes voltaria na época seguinte para fazer 11 jogos a titular com Jorge Simão. Esta época, já com 21 anos, Barnes tem sido mais regular que nunca, alinhando sempre pelos flancos, mas deixando indicadores estatísticos de que poderia ser melhor aproveitado numa zona mais central do ataque.

Golos marcou apenas um (o do vídeo), mas logo aí demonstra algumas das qualidades que o podem tornar num ponta-de-lança interessante: velocidade no ataque à bola e colocação de remate. Essa segunda característica é corroborada pela elevada percentagem de remates enquadrados com a baliza (47%), que aumenta para 63% se considerarmos apenas remates dentro da área. Só Rui Fonte consegue números melhores entre os pontas-de-lança (67%), sendo que nomes fortes como André Silva (53%), Mitroglou (48%) ou Bas Dost (36%) ficam bem atrás do ganês nesse particular.

Para além da boa capacidade de finalização, Barnes revela-se ainda forte nos duelos aéreos ofensivos (46% ganhos) e tem particular apetência para arrancar faltas no último terço, só superado por António Xavier do Marítimo.

Francisco Geraldes (Moreirense, cedido pelo Sporting)
Médio-centro ▶ Extremo

francisco-geraldes-moreirenseNão é segredo a grande época que tem feito Francisco Geraldes. O jovem que era uma das figuras da equipa B do Sporting na época passada deu o “salto” para a Primeira Liga ao serviço do Moreirense, e tem mostrado, também a este nível, todas as suas qualidades.

Destro de origem, Francisco Geraldes tem grande facilidade a jogar também com o pé esquerdo, e não raras vezes o podemos ver a rematar de fora da área com qualquer um dos pés. Foi assim que marcou o seu único golo esta época, ao qual já somou também duas assistências, ambas através de pontapés de canto.

É precisamente na colocação de bolas na área que fica evidenciada uma das suas principais qualidades estatísticas, a eficácia de cruzamento, e 54% das tentativas de Chico Geraldes encontraram um companheiro, algo que nenhum outro jogador consegue igualar na Liga NOS. Jogando habitualmente pelo centro do terreno, o “leãozinho” não teve oportunidade de explorar muitas vezes esse recurso (apenas 13), mas juntando-lhes os dois cantos que já deram golo, fica a sensação que essa qualidade está a ser mal aproveitada.

Para além disso, Francisco Geraldes é dos médios com pior eficácia de passe no campeonato (72%), algo que advém dos riscos que toma e que se tornam mais perigosos em zonas nevrálgicas do terreno. Por ambos os motivos, não nos surpreenderia que num eventual regresso a Alvalade, Jorge Jesus fizesse com Francisco Geraldes o que fez com João Mário, com o sucesso que se sabe.

Na próxima página, um jogador dos “grandes”