A época oficial ainda não começou e já há um reforço do Benfica a dividir opiniões e a despertar paixões. Falamos do suíço Haris Seferovic, claro. Ponta-de-lança de 25 anos, com carreira feita na Europa e mais de 40 internacionalizações pelo seu país: o adepto comum questionava como era possível o Benfica contratar um “goleador” que apresenta no currículo menos golos do que… cartões amarelos. A resposta do suíço, no entanto, não se fez esperar. Ao fim de quatro jogos de pré-época, Seferovic é o melhor marcador da equipa com três golos e já começou a mostrar algum do futebol que, provavelmente, terá levado à sua aquisição. Mas qual será então o “verdadeiro” Seferovic?

GoalPoint-Seferovic-BenficaUma carreira sem grandes registos

Filho de país bósnios que emigraram para a Suíça, Seferovic fez carreira nas selecções jovens do país helvético e acabaria por ser lançado na Primeira Liga do seu país ao serviço do Grasshopper, com apenas 17 anos. Apesar de não ter marcado nos três jogos que fez pela equipa principal, depressa seria “pescado” pela Fiorentina, mas acabou por passar a maior parte do tempo na “equipa Primavera”, onde foi colega do agora “leão” Cristiano Piccini.

Na Série A italiana, Seferovic fez 13 jogos, divididos entre Fiorentina e Lecce, sem nunca abanar as redes, até que, após um bem-sucedido empréstimo ao Novara, da segunda divisão, a Real Sociedad decidiu investir três milhões de euros na sua contratação. O périplo pela Liga espanhola foi difícil e, ofuscado por Griezmann e Carlos Vela, Seferovic acabaria por sair no final da época para o Eintracht Frankfurt pelo mesmo preço, e com dois golos na bagagem.

A primeira época na Bundesliga prometeu. Finalmente com oportunidade de ser titular indiscutível, Seferovic fez em 2014/15 a sua melhor temporada de sempre, com dez golos em 32 jogos que ajudaram ao nono lugar da sua equipa, mas nas duas épocas seguintes o suíço ficou aquém das expectativas. Foram seis golos em mais de 3000 minutos de utilização acumulados, e se o número por si só não diz tudo, interessa perceber os porquês do mesmo. Fomos por isso analisar ao detalhe as duas últimas épocas de Seferovic, em comparação com o que três principais avançados do Benfica fizeram na Liga NOS, no mesmo período.

GoalPoint-Seferovic-FrankfurtUma atípica alergia à baliza

Até aparecer Pedro Pauleta, e sobretudo Cristiano Ronaldo, costumava dizer-se da selecção portuguesa que jogava “o melhor futebol da Europa sem balizas”. A forma de actuar e os números de Haris Seferovic relembram esta célebre frase.

Analisando a estatística do suíço, desde logo salta à vista o grande envolvimento com o jogo da equipa, que fica bem reflectido na sua média de acções com bola. São 47 a cada 90 minutos, número semelhante aos de Raúl Jiménez (48) e Jonas (55), muito acima dos de Mitroglou (27), e que ganha ainda mais significado pelo facto do Eintracht Frankfurt ter muito menos posse de bola média que o Benfica. Isto indica desde logo que Seferovic está longe de ser um puro ponta-de-lança de área, e será mais parecido com Jonas na qualidade de movimentação e na sua boa relação com a bola, algo que também fica claro na frequência e eficácia com que dribla adversários. Das suas 2,3 tentativas de drible médias, Seferovic tem sucesso em 38%, número bastante bom para alguém que joga em zonas tão adiantadas. É também raro vê-lo dominar mal a bola (1,7 a cada 90 minutos, contra 2,0 e 2,4 de Mitroglou e Jiménez, respectivamente), e dificilmente se verá o suíço a ser desarmado com frequência (1,4 a cada 90 minutos, contra 2,5 de Jiménez, por exemplo).

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Mas se até aqui Seferovic apresenta números muito interessantes, as coisas pioram quando se analisa a sua relação com o golo. Desde logo há um número que diz quase tudo: das 13 ocasiões flagrantes para marcar de que dispôs nas últimas duas épocas de Bundesliga, Seferovic converteu apenas… duas. Uma taxa de sucesso de 15%, que baixaria para 12% se considerássemos as quatro que falhou no EURO 2016 ao serviço da sua selecção. Basta comparar com qualquer um dos outros três pontas-de-lança “encarnados” para se perceber a dimensão da diferença. A percentagem de acerto na baliza em remates dentro da área confirma a “alergia” do Suíço. Na última época, apenas 22% dos disparos que executou dentro da grande área foram à baliza, o pior registo entre todos os pontas-de-lança do campeonato alemão, e se juntarmos 2015/16, onde jogou quase o dobro do tempo, a média sobe apenas para 30%.

Mas há mais. Poderíamos ser levados a pensar que o desacerto tinha que ver com algum perfeccionismo na hora do disparo, ao tentar colocar demasiado a bola… mas não. Na verdade, 19% do total de remates de Seferovic nas últimas duas épocas caíram na categoria a que chamamos de “muito desenquadrados”. Mais uma vez, e comparando com Jonas (4%), Mitroglou (3%) e Jiménez (5%), o número ganha um peso preocupante.

Se quanto à qualidade de finalização estamos conversados, há ainda outro dado com alguma carga dramática para os benfiquistas. Mais de metade (51%) das tentativas de passe de Seferovic no último terço acabam por resultar em passes falhados. É certo que este número terá tendência a melhorar visto que, como já percebemos, Seferovic está longe de ser limitado tecnicamente e no Benfica terá mais opções de passe no ataque, mas haverá no suíço uma tendência para complicar em demasia, e que terá que ser trabalhada por Rui Vitória, de maneira a não deixar os benfiquistas à beira de um ataque de nervos.

Conclusão

Pelo seu perfil, Haris Seferovic tem tudo para vir a ser um jogador que divide as bancadas da Luz. Quem aprecia um estilo de jogador móvel, inteligente e tecnicamente evoluído, um pouco à semelhança de Jonas nesses aspectos, tem tudo para se tornar um fã do suíço. Quem achar que um avançado tem que ser ao mesmo tempo um “matador”, o melhor é ter cuidado com as expectativas iniciais que criou na pré-época, porque Seferovic está longe de o ser.

Resta agora saber o que procura Rui Vitória. Seferovic traz coisas ao jogo do Benfica de que nem Jiménez nem Mitroglou são capazes. Tê-lo em campo significará provavelmente uma maior capacidade do Benfica chegar à baliza pelo centro do terreno, sem depender tanto dos desequilíbrios individuais criados pelos homens das faixas, mas sabe-se quão decisiva é a frieza de homens como Mitroglou na hora atirar à baliza, e Seferovic não nasceu abençoado com ela.

O caso é estranho porque o helvético é, de facto, um bom jogador. Se foi isso que o Benfica contratou, nada a apontar, se a ideia era trazer um goleador, os números estão longe de o recomendar. Um caso muito interessante, para continuar a acompanhar por essa época fora.