Análise: O Mundial dos verdadeiros treinadores

Num olhar agora distante é possível ver a influência decisivamente positiva ou nefasta que alguns treinadores tiveram sobre as suas selecções.

 

Desta feita a abordagem emocional preconizada por Felipão pecou por excesso (foto: AGIF/Shutterstock)
Desta feita a abordagem emocional preconizada por Felipão pecou por excesso (foto: AGIF/Shutterstock)

Costuma dizer-se que um bom ataque ganha jogos mas uma boa defesa vence campeonatos. Esta máxima foi bem interpretada neste Mundial 2014, em que houve jogos emocionantes, mas em que as equipas com melhor estrutura defensiva sobressaíram. E aqui percebeu-se que os treinadores optaram por gastar mais tempo nos poucos dias de preparação a trabalhar os mecanismos do seu último reduto do que no resto.

Claro está que aqueles que conseguiram juntar à organização do sistema defensivo um plano, discutível ou não, para atacar a baliza contrária chegaram mais longe e ultrapassaram as expectativas traçadas inicialmente. Estão neste lote Jorge Luis Pinto (Costa Rica), Vahid Halihodzic (Argélia) e Jorge Sampaoli (Chile). Depois há aqueles com melhores intérpretes, como Van Gaal (Holanda) e Joachim Löw (Alemanha), que montaram uma estratégia logo no início do Mundial, mostrando-se fiéis às suas ideias. E ainda há aquele que soube dar o braço a torcer como Alejandro Sabella, que ao intervalo do primeiro jogo abandonou, em boa hora, o sistema de três centrais para jogar com uma defesa a quatro até ao fim do torneio. Um bom treinador também é aquele que sabe quando deve deixar a teimosia de lado. E não continuar a apostar em ideias vulneráveis só porque sim.

Ideias foi o que faltou ao Brasil de Scolari, a Portugal de Paulo Bento e à Rússia de Fabio Capello. Tendo em conta o binómio expectativas/resultados foram os que mais desiludiram, assumindo-se como as grandes decepções do Mundial. Talvez Cesare Prandelli e a sua Itália não tenham cumprido os objectivos mínimos, mas foram protagonistas do primeiro grande jogo do Mundial, na vitória sobre a Inglaterra, e depois foram eliminados, é certo, mas no “grupo da morte que ainda foi “prejudicado” pela aparição da sensacional Costa Rica.

Poderíamos destacar também os percursos positivos de José Pékerman, de Alejandro Sabella, ou as profundas desilusões de Vicente Del Bosque, Cesare Prandelli ou Roy Hodgson. Porém, olhamos para os que consideramos os mais marcantes, pela carreira das suas equipas, pela proximidade, expectativas e responsabilidades.

Os melhores

 

1. Joachim Löw, agradecido a Guardiola

 

Joachim Low, de adjunto a timoneiro rumo à glória (foto: Shutterstock/katatonia82)
Joachim Low, de adjunto a timoneiro rumo à glória (foto: Shutterstock/katatonia82)

Jogos: 7
Golos: 18
Posse de bola: 59%
Passes bem-sucedidos: 86%
Remates à baliza (m p/jg): 7,2
Ordenado anual: 2,14 milhões de euros

Não podemos deixar de registar a influência que o Bayern de Pep Guardiola teve nesta selecção alemã. A começar pelo guarda-redes líbero e a terminar na introdução do falso 9. Quem não se lembra da surpresa gerada por Löw ter chamado apenas um ponta-de-lança, Klose, e com a jovial idade de 36 anos? A paciência na abordagem à baliza contrária, condimentada com uma extrema qualidade de passe, são reflexos do campeão alemão e da filosofia de Guardiola. Löw, claro está, tem mérito. Muito mérito e o seu dedo viu-se na maneira como projectou a defesa, com um mínimo de três centrais para as quatro posições – com Portugal até foram quatro. Solidez defensiva para proteger o meio-campo e o ataque.