Messi vs. Robben: quem foi o melhor?

O anúncio da Bola de Ouro FIFA surpreendeu muita gente e gerou controvérsia, com boa parte da crítica a referir Arjen Robben como o justo vencedor. Comparamos desempenhos.

O apito soou na final do Campeonato do Mundo concluindo, sem surpresa, a selecção alemã como a nova campeã. A surpresa estaria, para alguns, reservada para o momento da atribuição da Bola de Ouro da FIFA, que distingue o melhor jogador do torneio. O prémio foi para Lionel Messi, aparentemente pouco entusiasmado com o reconhecimento, e desde logo se iniciou a discussão sobre a atribuição do prémio, com a maioria da crítica especializada a identificar como injusto ou mesmo totalmente infundado o reconhecimento do “10” argentino como figura maior do torneio, sobretudo por comparação com o holandês Arjen Robben – para muitos mais evidente, influente e espectacular ao longo do torneio. Na ausência de explicação detalhada da FIFA sobre os critérios que presidem à atribuição, procuremos então avaliar a justiça da atribuição, à luz do desempenho do “vencedor FIFA” e do “vencedor popular”.

Ambos determinantes e diferentes

Da análise do desempenho de ambos os jogadores ressalta logo uma evidência: estiveram ambos a um nível elevado (ainda que de Messi se espere sempre mais à luz do que já evidenciou no passado ao serviço do FC Barcelona): ambos determinantes e produtivos naquilo que deles mais se espera, a criação de desequilíbrios e oportunidades de golo e, sempre que possível, a concretização. Messi rematou mais (3,3 remates por jogo) mas o holandês rematou com muito maior acerto (47,4% dos seus remates foram à baliza, contra apenas 34,8% do argentino). Messi foi o mais concretizador (quatro golos contra três) e teve assim maior aproveitamento, ainda que marginal, do que Robben (17,4% contra 15,8%).

Clique na imagem para ler em detalhe (fotos: K. Vitaly, C. Pupo, AGIF / Shutterstock Infografia: GoalPoint)
Clique na imagem para ler em detalhe (fotos: K. Vitaly, C. Pupo, AGIF / Shutterstock Infografia: GoalPoint)

Também ao nível do passe e da condução de bola se notam diferenças entre os jogadores. Messi fez mais passes por jogo (41), mas foi o holandês o mais eficaz a distribuir jogo pelos colegas (86,7%, superioridade que se mantém se analisarmos a eficácia de passe no último terço adversário). Foi, no entanto, Messi o jogador que mais ocasiões de golo criou para os colegas por jogo (3,3) e também o que menos vezes perdeu o controlo da bola para um adversário (1,4 contra 3,4 perdas de bola por jogo pelo holandês), apesar de ter sofrido mais desarmes que o extremo “laranja” (3,7), que também sofreu mais faltas (quatro por partida).

Argentino mais influente

Se o critério da FIFA assentou sobretudo na influência que cada um dos jogadores teve nos resultados e percursos que as suas equipas obtiveram neste Mundial, então a escolha pelo argentino não choca: foi mais influente que Robben em todas as variáveis exceptuando no que toca ao número das ocasiões de golo criadas (neste domínio o holandês criou 28,8% das ocasiões de golo da sua selecção, contra 26% do argentino). A preponderância de Messi ganha ainda maior peso naquele que será talvez a variável mais determinante em jogadores com responsabilidades acrescidas em tudo o que sucede no último terço e decide jogos: os golos e a forma como são obtidos. Nesse capítulo o peso de Messi na produção da sua equipa foi de 62,5%, contra 33,3% de Arjen Robben.

Conclusão: Vá o Blatter e escolha

A opção pelo melhor jogador deste Mundial é difícil, dependendo dos critérios que cada um decidir valorizar. Se aplicássemos um critério, ainda mais subjectivo, de espectacularidade talvez nenhum dos dois jogadores discutisse o título, face a um James Rodríguez que, como já vimos, também contribuiu decisivamente para o desempenho da sua equipa, protagonizando alguns momentos “mágicos” que ficam na memória do adepto. O futebol é emoção e paixão, logo a discussão de prémios cujos fundamentos não são devidamente explicados não poderia gerar outra coisa que não o debate, mas se olharmos objectivamente os números a muitas vezes errada FIFA estaria certa, fosse qual fosse a decisão que tomasse na atribuição do maior prémio individual num Mundial que destacou sim, a força de um inquestionável colectivo. O germânico.

 

 

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Pedro Cunha Ferreira
Desempenhou entre 2011 e 2013 os cargos de Secretário-Geral da SAD do Sporting Clube de Portugal, Director da Equipa B e da Academia Sporting. É um dos fundadores da GoalPoint Partners.