A investigação sobre a ocorrência de lesões no futebol é um tema recorrente de trabalhos académicos, e na UEFA existe um acompanhamento regular de um fenómeno com profundas implicações na prática da modalidade. No entanto, a ausência de dados públicos sobre o trabalho que cada equipa desenvolve nesta área leva-nos a ter de conviver com uma espécie de “ignorância santa” no que toca à saúde dos atletas.

Jorge Jesus fez, há poucas semanas, título com estas declarações: “São sempre os mesmos a jogar e nisto não há milagres, há um ou outro que tem de rasgar”. A ideia do futebolista como uma ferramenta datada e da lesão como uma informação estratégica que as equipas podem manipular na preparação dos seus próximos encontros, bem como a ideia da intervenção divina, são uma boa cortina de fumo para não nos preocuparmos mais com o assunto. Ora, não é para isso que por cá andamos.

Seis teses cientificamente comprovadas

O sueco Hakan Bengtsson é o responsável pelo maior estudo realizado sobre factores de risco de lesões na prática do futebol, envolvendo cerca de 113.000 jogadores profissionais e 61 médicos dos principais clubes europeus. Os resultados deste estudo apresentam seis conclusões que podem, desde logo, rebater a questão da intervenção divina.

  • O maior número de lesões surge em jogos da Liga dos Campeões, quando comparado com campeonatos nacionais ou Liga Europa.
  • São mais frequentes as lesões ocorrerem em partidas realizadas em casa.
  • Nos jogos onde se verificam lesões, a equipa afectada sai mais vezes como derrotada.
  • Não existem diferenças profundas entre equipas que tenham tido três ou quatro dias de descanso antes de um jogo.
  • Existem diferenças consistentes entre equipas que tenham tido quatro ou seis dias de descanso antes de um jogo.
  • Ao longo de 30 dias, a sucessão de curtos períodos de descanso começa a afectar o desenvolvimento da equipa.
EquipasLesionadosJogos ausentesDias ausentes
Porto41140
Benfica115
Sporting4828
Braga1737

*dados do “site” transfermarkt.pt relativos à temporada 2017/18

A UEFA publica, anualmente, um relatório sobre as lesões ocorridas em clubes de elite, designados entre os que disputam as suas principais provas. Ainda que a apresentação dos dados possa ser influenciada por ocorrências de uma determinada época, o mês de Novembro de 2016/17 foi o que registou mais lesões assinaladas durante treinos. Outro dado a considerar é o decréscimo do número de sessões de treino, em média, no período entre Setembro e Novembro, aumentando aqui o número de jogos.

Diz-me o quanto descansas, dir-te-ei quem és

Os períodos de descanso acabam por ter um impacto fundamental no rendimento de cada equipa. Mas, quando falamos de períodos de descanso, não podemos olhar apenas para aquilo que são os dias dos jogos no calendário competitivo, mas também para outros dados, como a prova a que se referem os ditos jogos, as ocorrências do jogo (com consequências na fadiga física e/ou mental dos atletas) e também o número de treinos e a sua planificação no mesmo período.

Como aponta o estudo liderado por Bengtsson, não existem diferenças profundas entre equipas que tiveram o seu último encontro realizado há três ou quatro dias, ainda que a repetição de curtos períodos de descanso tenha influência naquilo que a equipa possa render. Os quatro primeiros classificados da Liga NOS acabam por ter ligeiras diferenças de tempo médio de descanso após as jornadas europeias, sendo que o facto de disputarem diferentes provas tem também impacto no rendimento da equipa.

EquipaDias de descanso
Porto4
Benfica4,25
Sporting4,25
Braga3,25

*Média de dias de descanso de equipas portuguesas após a realização de jornada europeia

No entanto, os dados de utilização de jogadores nestes quatro conjuntos também apontam pistas muito interessantes. Sendo as equipas do Sporting e do FC Porto as mais afectadas por lesões na presente temporada, também são estas duas formações que apresentam um “onze”-tipo com superiores médias de utilização.

EquipaMinutos / JogadorNº de jogadores utilizados
Porto110621
Benfica90727
Sporting112024
Braga94323

*Média de minutos de utilização dos onze mais utilizados de cada equipa (jogos da Liga NOS e provas europeias)

A insustentável leveza do ser

Cada equipa técnica está exposta a duas inevitabilidades no início de cada temporada. O peso do calendário de jogos para as formações envolvidas nas competições europeias e a limitação quanto ao número de jogadores que podem ser utilizados nessas provas. A boa gestão na utilização dos atletas perante o calendário é algo que pode e deve ser planeado com o envolvimento de especialistas no rendimento, pois, nos nossos dias, os dados recolhidos por cada equipa permitem um conhecimento muito profundo do estado de forma de cada jogador.

A opção pelo “ter de rasgar” não entra neste lote. O entendimento das conclusões dos diferentes estudos permite, hoje em dia, uma clara definição dos jogadores que estão mais expostos ao risco e de que forma se pode lidar com essa exposição. Neste período da época, a conjugação do trabalho nos clubes com o trabalho nas selecções a que certos jogadores são expostos (com mudanças de hábitos, treinos e, em alguns casos, até rotinas de jogo) potencia ainda mais o número de lesões.

Um maior conhecimento público sobre o número de treinos, os objectivos dos mesmos e a comunicação clara das lesões de cada jogador ajudaria a fazer perceber melhor o contexto actual da lesão na definição dos plantéis e das equipas. Enquanto isso não for possível, não se culpe Deus pela ausência de milagres.