Não há época desportiva em que o mito da “estrelinha de campeão” não ressurja. A cada exibição menos conseguida ou disfarçada por um lance feliz, aquilo que normalmente é designado como sorte, passa a ter a curiosa adjectivação “estelar”, caso ocorra com o líder ou um sério candidato a um título. Existirá mesmo a dita “estrelinha” ou tudo não passará de mais um de tantos mitos futebolísticos?

A sorte no futebol existe?

Antes de percebermos se os campeões têm mais sorte que os demais convém percebermos se a sorte no futebol existe. E caso exista importa também esclarecer se é mensurável.

Mudemos por momentos de modalidade atentando no basquetebol. Já todos nós fizémos um lançamento livre e até os mas “nabos” acertaram pelo menos um. Da mesma forma que não é necessária grande habilidade para acertar uma vez, também os maiores especialistas estão sujeitos a falhas ocasionais, promovendo assim a ocorrência do mais fraco poder bater o teoricamente mais habilitado. Esse acaso (a vitória do mais fraco) é mais provável quanto menor for o número de lançamentos de cada competidor.

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(foto: Chris Green)

O quê que isto tem a ver com o futebol? O futebol é o jogo em que o evento que define o resultado (o golo), acontece menos vezes, logo o acaso (ou sorte, ou”estrelinha”) está mais sujeito a acontecer do que na maioria dos desportos colectivos. A maior probabiliade de, num duelo, o mais fraco bater o mais forte, é um dos factores que sustenta a paixão universal pelo futebol.

No entanto, tal como nos lançamento livres, também no futebol a tendência é que quantos mais duelos se disputem menor seja o peso dos acasos, e que no fim de uma competição longa os melhores acabem por vencer.

Como medir a sorte no futebol?

Medir a sorte no futebol é uma tarefa difícil mas socorrendo-nos dos dados disponíveis identificámos duas formas de o fazer.

A primeira abordagem passa por estudar a margem com que as vitórias são obtidas. Tendencialmente, quanto maior for a margem de vitória, maior será o desequilíbrio entre as equipas em confronto e mais expurgado estará o factor sorte. Na lógica inversa, é razoável admitir que são as vitórias pela margem mínima (um golo) aquelas que estão sujeitas a maior incidência do acaso circunstancial.

A segunda abordagem passa por estudarmos a forma como os golos são obtidos. Recorrendo aos dados Opta conseguimos identificar, para todas as equipas que disputam a Liga NOS, quais os golos que têm origem em erros individuais grosseiros cometidos com bola (ex. um passe que desmarca um adversário, um autogolo, um corte deficiente, etc). É precisamente por esta análise que iniciamos o “ataque” a este tema, mas sem esquecer a primeira, à qual voltaremos mais adiante.

Os resultados

A “azelhice” do adversário é um factor muito associado à tal “estrelinha de campeão” que se diz bafejar os audazes. Mas será que a frequência dos erros individuais do opositor é um mérito dos campeões? Analisámos a percentagem de golos obtidos por cada equipa nas seis principais Ligas europeias em 14/15 que se ficaram a dever a momentos infelizes do opositor. Eis os resultados:

Mythbusters - Estrelinha de Campeão - Gráfico 1
Clique no gráfico para ampliar (fonte: GoalPoint)

O gráfico mostra-nos que quanto mais alto o clube se situa na classificação, menor o peso dos golos resultantes de erros individuais do adversário no total dos golos obtidos.

A média de golos potenciados por erros do adversário situa-se nos 15%, e verificamos que das seis equipas campeãs em 14/15, apenas uma, o Benfica, ficou acima dessa fronteira, sendo que Bayern e Juventus tiveram valores a rondar os 6%. Por outro lado, apenas seis das 16 equipas que desceram de divisão (bolas pretas) conseguiram marcar uma percentagem dos seus golos por mérito próprio acima dos 85%.

Se por um lado os números parecem demonstrar que os golos obtidos na sequência de erros do adversário não é assim tão influente na conquista de competições longas, por outro deixam em aberto a possibilidade da “estrelinha” existir em Portugal. Na realidade entre os três primeiros classificados foi o campeão Benfica quem contou com mais erros dos opositores.

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