Ponto prévio: se há coisa que os dados estatísticos individuais nos ensinam, à medida que se vai trabalhando com eles, é que cada jogador tem as suas características inatas e que, apesar de poder haver pequenas flutuações, elas tendem a não mudar muito, sobretudo de uma época para a outra.

Recentemente analisámos o caso da perda de fantasia de Cristiano Ronaldo, jogador que sofreu uma pequena metamorfose na sua maneira de jogar. No entanto, como se percebe no gráfico, essa metamorfose foi gradual e relativamente constante.

mythbusters-ronaldo-dribles
Dribles e faltas sofridas de Ronaldo nas últimas 10 épocas

O que procurámos neste artigo foram as excepções. Jogadores que, entre a última época e a actual, tenham mudado radicalmente alguns dos seus números, ao ponto de tentarmos procurar os motivos que levaram a isso. Há casos curiosos, alguns deles de nomes bem conhecidos do futebol português.

Ander Herrera
Manchester United

Cinco-metamorfoses-1617-Ander-HerreraAssim, começamos com um dos motivos de metamorfose mais típicos: a mudança de posição. Ander Herrera fez toda a sua carreira em Espanha como médio-ofensivo, e foram as boas prestações nessa zona do terreno que fizeram o Manchester United pagar por ele uma quantia a rondar os €36M. Com Louis Van Gaal também foi aí que o basco foi mais vezes utilizado, mas duas épocas intermitentes fizeram com que Herrera entrasse para a 2016/17 como um dos possíveis vendáveis do plantel.

Até que José Mourinho viu nele algo que outros nunca tinham visto. Um box-to-box de mão cheia, com uma leitura de jogo irrepreensível, que vai muito para além da criatividade ofensiva. Mais recuado no terreno, muitas vezes como autêntico médio-defensivo, vieram ao de cima características que Herrera já possuía, mas das quais não tirava partido anteriormente. Tal fica particularmente evidente no número de passes que intercepta a cada jogo. Em 15/16, Herrera registava uma média de 1,4 intercepções por 90 minutos, número que subiu para 3,3 esta temporada, um aumento de 235%! O espanhol subiu ainda a sua média de recuperações de posse de 6,9 para 7,8 e acabou por não perder nada ofensivamente, estando envolvido directamente em 2,9 jogadas de finalização a cada jogo, contra as 2,6 da época passada.

Esta época, na Premier League, só o defesa-central Curtis Davies (Hull City) e o médio-defensivo Yohan Cabaye (Crystal Palace) têm médias de intercepções superiores à de Herrera. Nada mau para alguém que era visto como um médio-criativo.

Bryan Ruiz
Sporting CP

Cinco-metamorfoses-1617-Bryan-RuizNisto das metamorfoses, nem todas podem ser boas. A de Bryan Ruiz não se deve a nenhuma troca posicional, visto que o costa-riquenho continua actuar na maioria das vezes a partir do flanco esquerdo, apesar de não ser essa a sua posição natural. Mas se na época passada os seus números davam razão à opção de Jorge Jesus, na presente temporada isso não tem acontecido.

Com 17 ocasiões flagrantes criadas, Bryan Ruiz foi de longe o melhor jogador da Liga NOS nesse particular em 15/16, e muito se devia à qualidade dos seus cruzamentos. Entre os 20 jogadores com mais cruzamentos do campeonato, Bryan Ruiz era aquele que apresentava maior eficácia (36%), dizimando jogadores conhecidos por serem excelentes nesse particular como Jefferson (22%) ou Miguel Layún (18%). No entanto, em 16/17 tudo mudou.

Na presente época, Bryan Ruiz criou apenas três ocasiões flagrantes, e a sua eficácia de cruzamento desceu para menos de metade (17%). É tão difícil explicar tamanho declínio que a tendência seria culpar os homens da área, mas só até nos lembrarmos que para substituir Islam Slimani chegou Bas Dost, que pode ser chamado de tudo, menos de problema. Mais, qualquer um dos seus colegas extremos apresentam eficácia superior. Gelson (22%), Bruno César (20%), Schelotto (24%) provam que o problema está mesmo em Bryan Ruiz.

> NA PRÓXIMA PÁGINA: DOIS PONTAS-DE-LANÇA BEM CONHECIDOS