C ristiano Ronaldo é hoje uma “máquina” de marcar de golos. Sobre isso não haverá a mínima dúvida e os números (esses disponíveis para toda a gente) comprovam-no categoricamente: mais de 30 tentos por época desde que chegou ao Real Madrid, e valores semelhantes às últimas três épocas enquanto “red devil”.

Mas se acerca da sua capacidade goleadora não restam dúvidas, muitos defendem que a capacidade de desequilibro individual que evidenciou no Sporting e no Manchester United se tem vindo a perder. Um mito alimentado pelas nossas memórias dos jogos mais emblemáticos em Alvalade e no “Teatro dos Sonhos”, mas sabemos o quanto elas por vezes podem ser enganadoras.

A altura chegou de testar a veracidade do mito. Será que Ronaldo tem vindo mesmo a perder a fantasia com o passar das épocas? Como é possível que se mantenha no auge tanto tempo “deixando cair” uma das principais qualidades que o lançou? Fomos olhar os seus dados das últimas dez épocas para tentar provar (ou não) o mito de uma vez por todas.

O que perdeu

Ao iniciar a análise fomos desde logo surpreendidos por um dado arrebatador. Nas últimas dez épocas completas (de 2006/07 a 2015/16) e considerando os seis principais campeonatos da Europa, assim como provas europeias, Cristiano Ronaldo foi o jogador com o maior tempo de utilização em toda a amostra. Uns impressionantes 38.182 minutos jogados, seguido de cinco guarda-redes (Lloris, Neuer, Mandanda, Reina e Casillas), e com 2833 minutos (cerca de 31 jogos) de vantagem sobre o jogador de campo seguinte (Dani Alves). Mas não foi isso que nos trouxe aqui…

Portanto, vamos centrar-nos nos dribles e na capacidade desequilibradora do português. Infelizmente a base de análise começa já na sua quarta época em Manchester, mas mesmo assim os números são significativos.

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Dribles e faltas sofridas de Ronaldo nas últimas dez épocas

O gráfico é elucidativo. Ronaldo faz hoje em dia metade das tentativas de drible que fazia há dez anos e isso nota-se significativamente na capacidade para arrancar faltas, algo que perdeu particularmente nas últimas três épocas.

O que ganhou

Mas se Cristiano tem vindo a perder uma das suas principais qualidades, como é que consegue manter-se ao mais alto nível e, provavelmente, tornando-se num jogador ainda melhor? A resposta está nos golos e na acção do jogo que a eles leva: o remate. Não que Ronaldo rematasse pouco nos tempos de Manchester (média de 4,2 por jogo), mas desde que chegou ao Real Madrid o português percebeu que o seu sucesso estava mais nas tentativas de remate que faz do que propriamente no drible, pelo que subiu a média para cerca de 5,6 remates a cada partida de “blanco”. Mais: nas sete épocas de Real Madrid, CR7 foi sempre o mais rematador da Europa, enquanto nas três de Manchester que analisámos houve em todas elas alguém a rematar mais do que ele.

Com uma média global de 5,2 remates por jogo, Cristiano é, de longe, o mais rematador em toda a Europa nos últimos dez anos e deixa o segundo melhor (Daniel Sturridge) a um disparo por jogo de distância. O grande segredo do nosso craque está no facto de, mesmo tendo vindo a perder fantasia, combinar as duas coisas como mais ninguém faz. Vejamos os cinco mais rematadores da Europa na última década e os únicos a somar uma média superior a quatro remates por jogo.

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Os cinco mais rematadores da década

Diz a lógica que é difícil combinar as duas qualidades, mas Ronaldo prova o contrário. Mesmo em 2015/16, época na qual só fez 2,9 tentativas de drible por jogo, Cristiano esteve, ao nível do desequilibro individual, muito perto dos outros rematadores de topo, com a tal diferença de, ainda assim, rematar bem mais que eles.

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Hernâni Ribeiro
Formado em estatística e Data Scientist profissional. A paixão pelo futebol conjugada com a análise de dados vive-a também como administrador do portal foradejogo.net, após ter sido co-responsável do processo de pesquisa oficial portuguesa para o jogo Football Manager.