Enquanto há vida, há esperança. As frases feitas deveriam ser estudadas estatisticamente, para que se pudesse entender o elevado nível de acerto de cada uma delas. Moussa Marega não se importaria de tatuar esta na sua pele, tendo em conta que, vindo da terceira divisão francesa e explodindo para o futebol português na Madeira, tem sido a prova de que até os ingredientes menos ambiciosos podem dar origem a excelentes receitas. Sérgio Conceição deve ter feito um dos módulos do seu curso de treinador com Filipa Vacondeus, já explicamos melhor porquê.

Aquele inverno naquele inferno

Janeiro de 2016. O Futebol Clube do Porto ainda chorava a saída de Jackson Martínez no verão anterior, tornada ainda mais dramática perante o facto de nenhum dos avançados do plantel se confirmar como uma verdadeira alternativa. Com Pablo Osvaldo e Alberto Bueno a revelarem-se apostas falhadas, Aboubakar era quase a única opção, obrigando os portistas a procurar no mercado soluções alternativas.

Entre Setúbal e o Funchal focavam-se os olhares das equipas grandes que procuravam soluções para a sua frente de ataque. O coreano Suk destacava-se nos sadinos, enquanto Marega confirmava no Marítimo os números que já dele tinham feito uma surpresa no ano anterior. Um jogador muito potente fisicamente, autor de golos de várias formas e zonas do terreno, que revelavam uma capacidade de finalização com bom suporte estatístico, nomeadamente no que toca à elevada percentagem de remates enquadrados. Era o protótipo de sonho para qualquer equipa do meio da tabela em Portugal.

Se isso terá sido o argumento mais forte para a contratação de Marega, não o podemos clarificar. A concorrência de um outro grande, o receio de falhar a aposta e a capacidade financeira e negocial para se impor nessa janela de mercado tornaram a decisão fácil. Os dois fizeram as malas para o Estádio do Dragão, mas nem um, nem outro mostraram, à época, arte para se destacarem nas oportunidades que tiveram.

Um cantinho, um violão

O problema da posição de Moussa Marega é uma questão a que um observador de Football Manager teria dificuldade em responder. Surgindo como um jogador que tem os seus melhores índices em zonas de finalização, a frágil relação que revela com a bola dificulta-lhe a missão de ser o ponta-de-lança de uma equipa que ofereça privilégio à posse. É o típico Extremo-Avançado-Ponta-de-Lança que acabaria à partida em sub-rendimento seja qual for a opção tomada.

Mas tudo começou a mudar em Guimarães. Pedro Martins ajudou a dar resposta aos seus problemas, encontrando-lhe um cantinho no onze. Deslocando-o para uma das faixas e oferecendo-lhe espaço com Tiquinho Soares mais em terreno central, deu ao maliano o palco que este ansiava. Dez golos nas primeiras jornadas tornaram-no numa das figuras da primeira volta do campeonato.

A sua evolução era clara. Aumentava a sua eficácia no drible (não necessariamente recorrendo a grande “magia” técnica) mas, sobretudo, chegava à área com espaço para tirar partido da sua potência, de remate e não só.

Marítimo / Porto (15/16)Vitória Guimarães (16/17)Porto (17/18)
Remates (área)1,81,83,0
        % enquadrados42%55%44%
Remates (fora da área)0,30,90,9
        % enquadrados0%32%57%
% Passes certos no último 1/355%54%62%
% Dribles eficazes28%38%52%
Faltas sofridas1,82,02,1
Maus controlo de bola3,72,92,5
% Duelos aéreos ofensivos ganhos33%46%43%

Médias por cada 90 minutos jogados
Fonte: GoalPoint / Opta

Um cartão vermelho seguido de uma reacção algo intempestiva numa partida frente ao Nacional terminou-lhe o estado de graça, e o seu rendimento no resto da temporada nunca mais foi o mesmo. Mas ficara a sugestão daquilo que poderia ser feito com Marega.

O senhor dos restinhos

Sérgio Conceição completou mesmo um dos módulos do seu curso de treinador com Filipa Vacondeus, famosa pelos seus programas e livros de cozinha que deixaram na memória como fazer receitas de qualidade em tempos de crise. Não tendo o FC Porto capacidade para estar no mercado, o plantel foi completado com os jogadores que estavam sob contrato.

A época iniciou com Aboubakar e Tiquinho Soares como donos dos lugares da frente de ataque no 4-4-2 de Sérgio, e Marega estaria destinado a ser suplente. As suas fragilidades para cumprir esse papel estariam defendidas pelo facto de nenhum dos outro dois ter também muita capacidade para dar seguimento a um jogo de posse, pelo que o próprio modelo de Sérgio Conceição se baseou nas falhas que os seus jogadores tinham. A lesão de Tiquinho haveria, no entanto, de precipitar a entrada de Marega no “onze”.

A sua capacidade de trabalho permitiu-lhe manter as já boas taxas de finalização, enquanto consolidou a sua qualidade no um-para-um, sobretudo em potência, beneficiando dos espaços que lhe são oferecidos. Na versão 4-3-3, em que Marega parte da faixa direita para aparecer na área adversária, o maliano fica menos exposto no que toca às suas dificuldades de controlo de bola e vai mantendo um elevado rendimento numa equipa que é líder na Liga NOS.

Poucos aceitariam ver Marega como titular na equipa do FC Porto perante as indicações que este nos transmitiu no passado. Tal como não terão sido muitos os que acreditaram que Sérgio Conceição pudesse ser o cozinheiro gourmet das omeletes sem (novos) ovos nestes primeiros meses da temporada 2017/18. No entanto, a exploração do contexto que lhe foi apresentado e o encontrar de respostas dentro do plantel que tem, fazem do treinador o verdadeiro destaque desta equipa.

Só alguém assim poderia ter na sua equipa o melhor pior jogador da Liga NOS.