Se nas questões de estilo ou gosto, as opiniões e as formas de trabalhar diferem, há uma coisa que une as equipas de sucesso da última década: a adaptação dos seus comportamentos aos dados recolhidos de análises cada vez mais profundas. O sucesso dos segundos anos de José Mourinho nas equipas onde tem trabalhado vive desse mecanismo.

Conjugando as análises da própria equipa e dos adversários, afinando situações internas do colectivo e dos jogadores que o compõem, propondo estratégias mais consentâneas com os dados retirados da Liga, as equipas de Mourinho transformam-se em máquinas de rendimento. O Manchester United não é excepção.

“Todos vêem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é”

[Todas as citações deste texto remetem para o pensamento de Nicolau Maquiavel]

Na Premier League, o Manchester United já defrontou quatro dos seis primeiros classificados, preparando-se para defrontar o Manchester City no próximo domingo. Até ao momento somou vitórias frente a Arsenal e Tottenham, empatou com o Liverpool e perdeu com o Chelsea. Em todos esses encontros, os “red devils” cederam a iniciativa ao adversário, ficando sempre abaixo dos 45% de posse de bola, também permitindo sempre mais remates aos seus adversários. Perdeu, frente a estes adversários, tantos pontos quantos os que cedeu nos restantes 11 jogos.

Médias por jogo (#Rank na PL)
% Posse de bola52,2 (#7)
Golos2,3 (#2)
Ocasiões flagrantes2,6 (#3)
Remates14,1 (#6)
Remates enquadrados5,1 (#6)
Passes para desmarcação2,1 (#3)
Tentativas de drible21,9 (#1)
Remates permitidos (área)7,1 (#6)
Remates permitidos (fora da área)5,0 (#11)

Fonte: GoalPoint / Opta

Olhando para os rankings da Premier League, o Manchester United é apenas a sétima equipa em média de posse de bola, sendo a sexta com mais remates e com mais remates enquadrados, para além de ser o conjunto que mais disparos permite de entre os primeiros seis classificados da Premier League. O modelo de José Mourinho não implica ter mais bola, nem rematar mais do que os seus adversários. Mas a sua forma de jogar torna este Manchester United na terceira formação que mais oportunidades flagrantes tem e que mais passes para desmarcação faz, para além de ser o conjunto que mais dribles tenta. É em princípios que buscam estas iniciativas que se baseiam as estratégias que lhe permitem ser o segundo ataque mais realizador da Premier League.

“Toda a acção é designada em termos do fim que procura atingir”

Em termos de caracterização dos elementos que compõem a equipa do Manchester United, destacam-se dois blocos jogadores nas missões ofensivas e defensivas.

Romelu Lukaku é o elemento mais rematador, com mais disparos enquadrados e mais golos nos “red devils”, compartilhando com Paul Pogba o número de oportunidades flagrantes, ainda que com um aproveitamento que quase duplica o do francês. Pogba destaca-se nas assistências e nos passes para desmarcação, ainda que, dos quatro jogadores referidos, seja o que menos oportunidades flagrantes cria. Marcus Rashford destaca-se nas tentativas de drible, sendo um dos elementos em que José Mourinho aposta para desequilibrar as partidas, enquanto Henrikh Mkhitaryan se cota como um elemento bastante equilibrado nos pontos de análise escolhidos.

LukakuRashfordMkhitaryanPogba
Minutos1350887790678
Ocasiões flagrantes0,90,30,10,9
% Ocasiões flagrantes convertidas57%33%100%29%
Remates3,43,01,53,2
Remates enquadrados1,61,00,50,9
Assistências0,30,40,60,7
Ocasiões flagrantes criadas0,20,50,60,1
Passes para desmarcação0,30,60,81,1
Tentativas de drible1,66,23,84,5
Perdas de posse13,017,019,518,0

Médias por 90 minutos jogodos na Premier League 17/18
Fonte: GoalPoint / Opta

Em termos defensivos, Nemanja Matic lidera nos desarmes, enquanto Ashley Young é o elemento do plantel com mais intercepções. Antonio Valencia destaca-se nos bloqueios de passes, tópico onde, curiosamente, Marcus Rashford aparece no “top 3” da equipa, enquanto Phil Jones e Chris Smalling são os “reis” dos alívios. A acrescentar a este grupo de jogadores a acção de David de Gea na baliza tem sido fundamental.

ValenciaMaticYoungJonesSmalling
Minutos jogados13501313970892829
Desarmes p/90m1,71,91,71,01,0
Intercepções p/90m1,01,82,12,01,6
Bloqueios de passe p/90m1,51,20,60,40,1
Alívios p/90m2,52,03,06,25,8

Médias por 90 minutos jogodos na Premier League 17/18
Fonte: GoalPoint / Opta

A equipa procura os seus pontos de união através dos laterais ofensivos, situação que o próprio Mourinho já sublinhou durante um dos seus contactos com a comunicação social. Mas será a ausência de elementos de ligação entre estes blocos o que causará piores sensações estéticas na observação do encontro.

“Tornamo-nos odiados tanto fazendo o bem como fazendo o mal”

Em 15 encontros disputados na Premier League, Paul Pogba esteve presente em menos de metade dos mesmos. A sua ausência provoca profundas mudanças nos números da equipa, que marca menos golos, tem menos ocasiões flagrantes (apesar de converter mais), remata menos, faz menos passes para finalização e desmarcação, e tenta com menor frequência (perdendo eficácia) os dribles.

GoalPoint-Paulo-Pogba-Jose-Mourinho-Manchester-United
Pogba é peça fulcral de José Mourinho

Um número interessante nesta análise prende-se com os remates permitidos. A equipa do Manchester United permite 56% menos remates fora da área quando Pogba não joga, denunciando o pouco envolvimento defensivo do francês no jogo da equipa. Aliás, em todos os elementos de cariz defensivo, as diferenças são dignas de registo.

Com PogbaSem Pogba
Jogos87
Golos2,91,6
Ocasiões flagrantes3,31,9
% Ocasiões flagrantes convertidas50%69%
Remates16,511,3
Remates enquadrados6,33,9
Remates fora área (bola corrida)5,63,3
% Duelos aéreos ofensivos ganhos50%56%
Ocasiões flagrantes criadas2,61,6
Passes para finalização12,57,0
Passes para desmarcação3,01,1
Passes no meio-campo contrário334293
Tentativas de drible24,119,4
% Dribles eficazes59%44%
Desarmes12,814,7
Intercepções10,912,7
Remates permitidos (área)7,15,3
Remates permitidos (fora da área)7,14,6

Médias por jogo na Premier League 17/18
Fonte: GoalPoint / Opta

Sem Paul Pogba, agora devido a castigo, na partida frente ao Manchester City, o United perderá um elemento que potencia bastante a capacidade ofensiva da equipa. Defensivamente, não será de prever uma mudança de comportamento assumido perante os outros conjuntos de topo na Premier League, mas na organização da transição perderá o seu elemento mais valioso. Não há no plantel do United outro jogador que consiga substituir na totalidade aquilo que o francês dá à equipa.