Louis van Gaal explica por que falhou Paulo Bento

Numa interessante palestra, Van Gaal explica o processo implementado entre 2013 e 2014 na selecção holandesa permitindo-nos perceber algumas diferenças estruturais face ao que observámos na selecção portuguesa.

O treinador holandês voltou a mostrar o porquê de ser uma lenda viva dos bancos (foto: AGIF/Shutterstock)
O treinador holandês voltou a mostrar o porquê de ser uma lenda viva dos bancos (foto: AGIF/Shutterstock)

Luis van Gaal é um “mestre” do futebol, com uma carreira que fala por si. Mas se a sua carreira fala por si já o próprio Van Gaal fala para nós com a simplicidade, objectividade e carisma apenas ao alcance dos melhores. Partilhamos consigo um interessante registo vídeo de uma palestra que o ex-seleccionador holandês, e agora treinador do Manchester United de Inglaterra, concedeu a gestores holandeses e no qual explica as suas convicções, visão, prioridades e algumas decisões fundamentais que foi obrigado a tomar e que estarão na base do sucesso atingindo no Brasil 2014.

Este vídeo permite estabelecer, aliás, diversos paralelismos com o contexto da selecção nacional portuguesa e com as opções do seu seleccionador, Paulo Bento, e embora não expliquem certamente tudo, permitem concluir em parte o porquê de termos ficado tão aquém das expectativas criadas.

Vale a pena o leitor investir (porque é disso que se trata) 15 minutos no visionamento desta palestra (legendada em inglês), mas seja qual for a sua opção fazemos o resumo do essencial do pensamento de Van Gaal, identificando alguns exemplos de como a sua “receita” se distancia da que foi empregue por Paulo Bento neste Campeonato do Mundo.

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Visão e Estrutura: o “credo” de Louis

Van Gaal acredita sobretudo na identificação, transmissão e aplicação de uma “visão” e na criação da “estrutura” ideal para a implementar, estrutura essa que inclui não só os jogadores como todo o (vasto) staff que considera essencial ao sucesso.

Preparação, Treino, Análise e Avaliação

Para o treinador holandês estas são as quatro frases de um processo de gestão (management) conducente ao sucesso, no futebol e fora dele.

A Estrutura: 37 elementos, 12 dedicados à análise de desempenho

“Apesar de a minha imagem transmitir a ideia de que sei tudo, isso não é verdade”, afirma Van Gaal, antes de revelar que o staff por si escolhido no projecto da selecção holandesa rumo ao Mundial 2014 incluiu 37 elementos escolhidos por ele, 12 dos quais dedicados em exclusivo à análise de jogo e de desempenho dos atletas e equipas (um detalhe que nos fez sorrir). Afirma o holandês que a escolha do seu staff foi precisamente a primeira coisa que fez, antes mesmo de escolher jogadores, como todos esperavam.

A Visão: um “Barcelona” à van Gaal

Louis explica que a “visão” não se limita ao que se passa durante 90 minutos dentro das quatro linhas, mas sim a tudo o que envolve a interacção do treinador com todos os intervenientes (jogadores, staff, media, etc.). O ex-seleccionador afirma que o que poderia unir o grupo é precisamente o jogo e como o jogar, revelando que, nesse contexto, os jogadores sabiam desde o primeiro dia, com “clareza e transparência”, o que ele esperava deles e para o que os iria preparar: uma variação da ideia de jogo do FC Barcelona, sem abdicar de um ponta-de-lança fixo, por oposição ao modelo “blaugrana”, assente na presença de Lionel Messi como “falso nove”.

Aprendeu em 2001 a evitar o que Paulo Bento emprega até hoje

Van Gaal assume a necessidade de, por vezes, “agitar as águas” num grupo acomodado, recolocando as pessoas no seu lugar e, se necessário, procedendo a substituições de elementos inadaptados à “visão”. Relembra o treinador que já havia comandado a selecção “laranja” em 2001 e que havia falhado. Diz o holandês que o seu erro fundamental em 2001 residiu no critério de convocatória que aplicou, assente em critérios de “confiança” e “pertença” de um grupo de jogadores. Louis refere com clareza que na campanha rumo ao Mundial 2014 o critério que escolheu centrou-se no “talento” e “forma” dos jogadores com uma excepção: Van Piersie, o único homem de confiança que escolheu e que não se enquadrava em ambos os critérios (nomeadamente a forma física). O agora treinador do Manchester United assumiu neste contexto as razões para a dimensão da sua equipa de análise, ao revelar que fruto desta opção seguiu semanalmente o desempenho de um grupo de 50 jogadores espalhados pela Europa.

Este ponto permite um paralelismo com a opção assumida por Paulo Bento por uma convocatória lusa assente nos seus homens de confiança, que sempre empregou e que voltou a reiterar e defender após o campeonato do Mundo. O treinador português emprega até hoje o que o “mestre” holandês parece ter concluído errado há mais de uma década.

Preparação: Portugal partiu para os EUA, van Gaal escolheu… Portugal

O holandês reitera a importância de convocar e preparar os atletas para a melhor forma física possível na véspera da partida para o Brasil, justificando a sua convicção com o efeito específico da humidade em conjunção com a temperatura e o vento (Wet Bulb Globe Temperature), ao qual atribuiu uma influência (negativa) de cerca de 20% sobre o rendimento dos atletas. Louis assume que o efeito afectaria todos os participantes e que por isso a procura da melhor condição física era fulcral neste Mundial. Nesse sentido, e apesar das diferenças climatéricas (a ausência do já referido factor WBGT), o treinador holandês considerou Portugal (Lagos) o local mais indicado a uma adaptação eficaz a um dos elementos que iriam encontrar, o calor.

Mais uma vez as explicações de Van Gaal permitem estabelecer paralelismos totalmente dissonantes com as opções da FPF e do seu seleccionador na preparação para este mundial. A juntar a um critério de convocatória que se situa no extremo oposto do defendido pelo ex-seleccionador holandês (Paulo Bento não só escolheu um grupo da sua confiança sem olhar à forma dos atletas como, de acordo com o médico da FPF optou por levar diversos jogadores cujo “índice de suspeição lesional” já havia sido identificado), Portugal optou por adaptar-se nos Estados Unidos quando, pelos vistos, as condições locais eram as ideais para a agora terceira melhor selecção do Mundo, precisamente o lugar do ranking FIFA que Portugal ocupava previamente ao Mundial 2014.

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  • Pedro Bernardo

    Aguardamos a palestra sobre os 4-0 impostos pelo….mkdons…???