“Sinto-me lisonjeado por liderar a Liga mais competitiva da Europa”

O sentimento foi verbalizado por Pedro Proença a semana passada, já após a Liga de Clubes, à qual preside, ter divulgado a conclusão que supostamente o sustenta. Já o comentámos. Agora vamos analisá-lo.

O que à primeira vista podia ser motivo de orgulho, torna-se num ápice em motivo de estranheza, afinal de contas contraria a ideia que a maioria dos adeptos tem da nossa Liga, e quando pensamos melhor no método torna-se motivo para um GoalPoint Mythbusters.

Mythbusters | A Liga NOS "é a Liga mais competitiva da Europa"?
A Liga aproveitou a jornada que antecedeu o dérbi para difundir a sua conclusão fonte: LPFP

Para chegar a esta (talvez pouco desinteressada) conclusão, ficámos a saber que o que contava era olhar à diferença pontual entre os primeiros três classificados. Foram três, porque facilmente percebemos que se fossem quatro a conclusão já seria outra, mas se dar mau nome à estatística com engenhosos métodos para chegar à conclusão pretendida já era discutível, fazê-lo à custa de ignorar que o campeonato tem mais 15 clubes é especialmente preocupante, vindo do próprio organismo a que esses clubes (também) pertencem.

Que a nossa liga está cada vez mais previsível já o tinhamos provado a época passada, mais ou menos por esta altura, mas vamos então recorrer à estatística para perceber se a conclusão sobre a competitividade é tão fiável como o método com que a ela se chegou.

O que dizem os “pontos por jogo”…

O que é afinal uma liga competitiva? Competitividade é equilibrio, e no futebol o equilibrio expressa-se em empates. Imaginemos por absurdo que todos os jogos da Liga tinham terminado empatados, cada equipa teria uma média de um ponto por jogo, e essa seria a Liga mais equilibrada do mundo! O que fizemos foi calcular a média de pontos por jogo do top-1, top-2, top-3, etc, dos seis principais campeonatos da Europa. Quanto mais perto a média estiver de um, mais competitiva é a Liga. Vamos aos resultados:

Mythbusters | A Liga NOS "é a Liga mais competitiva da Europa"?
A média pontual por jogo das principais Ligas europeias

Atipicamente, Portugal até tem esta época um líder com muitos pontos perdidos tendo em conta o que vinha acontecendo no passado recente, mas mesmo assim fica clara a diferença para campeonatos como o Inglês e o Italiano. O problema é quando começamos a descer uns degraus, e aí só os vizinhos espanhóis competem connosco em falta de competitividade o que, não surpreendendo nem quem se equipe apenas do “kit de senso comum”, choca frontalmente com as conclusões apresentadas pela Liga. O mesmo top-3 escolhido pela Liga para sustentar a sua conclusão soma em média 2.33 pontos por jogo, muito longe dos (esses sim) competitivos 1.92 do trio que segue na frente da Premier League.

…e o “goal average” (para alguns “golo à Brás”)

As goleadas são sinónimo de desequilibrio, e desequilíbrio é antónimo de competitividade. Esquecendo o gozo que até possa dar a alguns ver algumas das “doses” aplicadas regularmente por Barcelona, Real Madrid e Bayern nas respectivas Ligas, dificilmente lhes associamos uma noção de competitividade. Decidimos então analisar os chamados goal average de todas as equipas nos campeonato em análise. Quanto maior for a média das diferenças entre golos marcados e sofridos, maior o desequilíbrio da respectiva Liga. Cá estão os resultados:

Mythbusters | A Liga NOS "é a Liga mais competitiva da Europa"?
O goal average médio das seis Ligas europeias em análise

Mais uma vez Espanha e Portugal surgem à frente de todos os outros. Mas se tivermos em conta que em Espanha existe uma maior predisposição para as equipas ditas mais pequenas jogarem “de igual para igual”, contribuindo para ao espectáculo, mesmo que não para o equilíbrio, o retrato luso sai ainda mais cinzento.

Liga competitiva vs. título disputado, conceitos diferentes

Se entendermos a Liga NOS como uma competição eternamente votada a ser disputada entre os de sempre, e em que os restantes clubes fazem semalmente de “saco de pancada”, mais ou menos suave, então sim, temos a Liga que queremos. É a chamada competitividade em blocos, de tal maneira que somos obrigados a ouvir grande parte dos intervenientes com observações do género: “este jogo não é do nosso campeonato”, que chocam qualquer potencial sponsor.

Lembramos que uma das bandeiras de Proença na sua campanha foi a centralização das negociações dos direitos televisivos na Liga, algo que contribuiria isso sim para um campeonato mais competitivo. Proença não só falhou esse objectivo (se é que ele existiu mesmo), como agora promove ideias que sustentam precisamente o contrário.

O equilibrio consegue-se com uma maior igualdade entre todos os clubes, não cavando e promovendo fossos já tão enraizados na nossa sociedade que não precisavam da ajuda do homem que comanda a competição para se tornarem ainda maiores. The myth, se é que alguém acreditou nele, is busted.