Portugal está de volta a um Mundial de futebol, confirmando, desta forma, uma série que teve início no EURO 2000 e que fez com que os portugueses nunca mais tivessem de assistir a uma grande competição internacional de selecções sem a sua equipa em campo.

Não desfazendo do facto de ter sido necessário uma vitória à última jornada para o apuramento, a qualificação de Portugal nunca terá estado em risco. A Suíça não revelou a mesma capacidade concretizadora dos portugueses ao longo da qualificação, tendo beneficiado da vantagem de ter iniciado a prova em sua casa e marcado dois golos na primeira meia-hora, frente a um Portugal que, nesses primeiros 45 minutos, não teve em campo três dos seus quatro jogadores mais utilizados (Cristiano Ronaldo, André Silva e João Mário).

Se houver lição a aprender desta fase de qualificação, essa prender-se-á com a capacidade de negociar de forma diferente a organização do calendário, mesmo ficando com a derradeira palavra ao jogar em casa com a Suíça no fecho da prova. Contudo, Portugal acabou por confirmar que “não é como começa, é como acaba” que conta.

Monopólios e privilégios

Comparando os dados da fase de qualificação para o EURO 2016 – onde Fernando Santos assumiu o cargo de seleccionador à segunda jornada, após uma estreia nefasta ainda tendo Paulo Bento como timoneiro – com os da fase terminada esta semana, assiste-se à recuperação da expressão “grupo de selecção”, que tem sido querida aos sucessivos seleccionadores, mesmo que nem sempre comprovada nos números.

Para o “onze” tipo, oito jogadores foram utilizados em mais de 80% das partidas, enquanto na qualificação anterior, tal aconteceu apenas com quatro atletas. Fernando Santos reabriu as portas da selecção quando chegou, em 2014, a alguns “proscritos”, mas o processo de construção de equipa foi mais doloroso do que esperaria. A idade (Ricardo Carvalho e Tiago) e as lesões (Danny e Fábio Coentrão) levaram-no procurar soluções numa geração mais jovem que, nos dias de hoje, comanda o modelo de jogo da selecção.

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Os onze-tipo de Portugal nas últimas duas campanhas de Qualificação

É também por isso que a equipa se transformou em termos da percentagem de posse, tendo sido a terceira com mais bola atrás da Alemanha e da Espanha na qualificação europeia, liderando no número de remates e terminando como a quarta equipa mais concretizadora – apenas atrás das duas selecções já referenciadas e da Bélgica (que marcou 15 dos seus 43 golos frente a Gibraltar).

Qualif. Euro’16Qualif. Mundial’18
Posse de Bola52,5% (#23)67,9% (#3)
Golos1,4 (#25)3,2 (#4)
Remates14,6 (#15)22,8 (#1)
Ocasiões Flagrantes1,9 (#24)3,4 (#4)

Médias por jogo
Fonte: GoalPoint / Opta

A presença no “onze” mais utilizado de jogadores como William Carvalho, Bernardo Silva e João Mário, em posições antes ocupadas por Tiago, Fábio Coentrão e Danny, salientam as diferenças que se expõem, em continuidade, no panorama táctico da equipa, hoje em dia mais constante e consistente. De certa forma, após conquistar o EURO 2016, Portugal aprendeu a comportar-se como gente crescida, assumindo um ideário de adaptabilidade de Fernando Santos, mas contando com matéria-prima de superior qualidade.

Se eu não puder marcar, não é a minha revolução

A dependência de Cristiano Ronaldo, sendo hoje mais clara do que nunca, é também muito melhor enquadrada. O facto de o avançado do Real Madrid ter consolidado neste período a modificação das suas características principais é um dado absolutamente valioso para entender as contas desta selecção.

O capitão é, agora, um jogador que, em termos globais, tem diminuído as tentativas de drible e aumentado o número de disputas de bola pelo ar, mantendo um elevado número de remates, melhor enquadrados e, sobretudo, fruto de decisões mais colectivas. Deixámos de ter o Cristiano que salvava a selecção, para termos o Cristiano que faz parte de uma selecção que vence. A diferença não é pouca.

Apenas com Cristiano Ronaldo em campo Portugal marca, é um facto. Ficar em branco na Suíça e na primeira parte em Andorra acaba, no entanto, por ser mais um exemplo dos desafios que se colocam a Fernando Santos do que uma consequência imediata da ausência do capitão.

Porque da mesma forma que, olhando para o seu percurso na selecção, Fernando Santos tem revelado a sabedoria para modificar os comportamentos colectivos consoante o contexto da sua equipa e do jogo, as dificuldades para lidar com a ausência de Cristiano Ronaldo são enormes. E se parece claro que o seleccionador, perante a ausência de um modelo de jogo da Federação, vai a jogo com aquilo que tem (reconhecendo a falta de tempo e de soluções para se transformar numa equipa com identidade mais definida), mais claro se torna que o plano a médio prazo de Portugal é fazer Cristiano Ronaldo durar.

E enquanto Cristiano Ronaldo “dançar”, esta será, sem dúvida, a sua selecção.