Ao contrário do que acontece com grande parte da população portuguesa, vem de tenra idade a minha paixão pelos números. Muito provavelmente influenciado pelo meu avô, que registava tudo, desde os números do Totoloto à quantidade de cigarros que fumava por dia, comecei eu próprio desde muito cedo a compilar cuidados dossiers com grandes quantidades de informação. A maioria desaguava, também por influência dele, no futebol.

Por muito triste que isto possa parecer, guardo uma memória mais nítida da minha primeira folha de Excel do que do meu primeiro beijo, e isso diz muito sobre o caminho que a minha vida seguiu. Depois de vários anos de ensino, em que a matemática foi sendo a disciplina que me subia as médias, formei-me em estatística e especializei-me profissionalmente em criar modelos de previsão, fórmulas matemáticas em que muito basicamente se usam dados do passado para prever futuro. O futuro, no meu caso, eram clientes a desligar serviços, aderir a canais, alterar métodos de pagamento ou, mais tarde, os mais prováveis condutores a ter um acidente de viação.

Em paralelo com tudo isto, mantinha-se a paixão pelo desporto-rei e a grande vontade de juntar os dois mundos. Sabia da importância que o uso da estatística estava a ganhar no futebol, sobretudo por outras paragens, e quis fazer parte dessa “revolução”. As dúvidas sobre se seria possível transformar algo tão complexo como um jogo de futebol num conjunto de métricas que me ajudassem a percebê-lo melhor, também as tinha, mas isso só tornava o desafio maior.

A GoalPoint permitiu-me concretizar esse desafio. Agora, passados dois anos, muito trabalho, estudo e experiência adquirida, posso dizer que prevejo com tanta facilidade o comportamento futuro de um jogador de futebol como fazia com outras coisas menos excitantes, em áreas de negócio onde trabalhei. Não se trata de deitar as cartas ou lançar os búzios, mas apenas a capacidade de interpretar os números de maneira a perceber o potencial de um reforço ou a sua capacidade de adaptação ao modelo de jogo de uma equipa.

Não raras vezes tem acontecido neste percurso o aborrecido fenómeno de ter razão antes do tempo, e o caso de Rafa é apenas o mais recente. Numa altura em que sobre ele a opinião era quase unânime, ao ponto do “leilão” entre os três maiores clubes portugueses ter chegado aos valores que chegou, nós corremos o (baixo) risco de aconselhar alguma cautela, e expor as fragilidades do ex-bracarense encaixado num clube de grande dimensão. Por acaso foi o Benfica, mas se tivesse sido o FC Porto estaríamos hoje a falar de €15M gastos para um lugar onde havia Yacine Brahimi.

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Quando no final da época passada o argelino apareceu no “onze” ideal da época à frente de Bryan Ruiz, não foram poucas as críticas que tivemos que ler. Hoje, poucos arriscarão a dizer que Brahimi não é o jogador mais desequilibrador da Liga, algo que, com base nos números, sempre foi para lá de evidente. Com Rafa, arrisco-me a dizer que dificilmente o Porto ainda estaria a lutar pelo título. Com Brahimi desde a primeira jornada, dificilmente não o teria já no bolso.

Mas há mais. Entre os reforços, André, Meli, Hermes e Danilo Barbosa teriam sido flops perfeitamente evitáveis, enquanto Alan Ruiz, uma das contratações com os números mais empolgantes, esteve quase dispensado com aprovação unânime, e agora começa a mostrar o erro que teria sido.

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Guardei um parágrafo especial para Victor Lindelöf, o sueco que passou de virtual desconhecido a um dos melhores centrais da Liga em apenas 15 jogos. Só eu sei o que ouvi quando, ainda no Verão, aconselhei cautela e disse que estava longe de o ser. Lindelöf tinha passado, na época transacta, entre os pingos da chuva, muito por culpa do privilégio que era ter Jardel (esse sim, o melhor central da Liga) ao lado, mas os seus números já não me deixavam dúvidas quanto ao facto de o jogador estar longe da qualidade que lhe era apregoada. Hoje, os mesmos que o endeusaram precipitadamente, recorrem às mais variadas desculpas para as suas paupérrimas exibições, que vão desde o interesse dos gigantes europeus aos centímetros dos seus folículos capilares. Eu, com o privilégio de quem tem os números e os sabe interpretar, digo que está exactamente igual, talvez até um pouco melhor, mas que isso é pouco mais que mediano.

Nos dias de hoje já não devia ser necessário explicar a importância dos números em qualquer área da sociedade. O futebol foi resistindo, mas são exemplos como estes que deviam ajudar a quebrar alguma resistência e cepticismo, sobretudo em Portugal. Eu, pessoalmente, só posso agradecer a quem me instalou o Office naquele Natal de 1997 e ao meu avô Zeca. A minha única pena é já não lhe poder dizer com números que o Amaral era o Kanté dos anos 90.

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Hernâni Ribeiro
Formado em estatística e Data Scientist profissional. A paixão pelo futebol conjugada com a análise de dados vive-a também como administrador do portal foradejogo.net, após ter sido co-responsável do processo de pesquisa oficial portuguesa para o jogo Football Manager.