Enquanto por cá dirigentes e directores de comunicação “aquecem os motores” para mais uma época de (deprimente) “Love on top” futebolístico, lá fora discutem-se e decidem-se novidades que realmente definem o destino do futebol português de clubes.

A UEFA prepara-se para aprovar um conjunto de alterações à Liga dos Campeões que em nada beneficiam o futuro desportivo dos emblemas “lusos” na prova e, consequentemente, põem em risco o seu destino financeiro geral.

Que mudança se aproxima? Anuncia-se o apuramento directo para a fase de grupos de quatro equipas oriundas das quatro principais ligas europeias: Espanha, Inglaterra, Alemanha e Itália. Ou seja, caso esta regra já estivesse em funcionamento clubes como Manchester City, Roma (adversário do FC Porto), Borussia Monchegladbach e Villarreal já estariam na fase de grupos. O que representaria também menos quatro vagas acessíveis via play-off.

A ser aprovada a alteração – que será decidida pelo Comité de Competições da UEFA, liderado por Fernando Gomes –, esta só terá efeito a partir da época 2018/19, e deverá estender-se até 2021.

Por que razão toma a UEFA esta decisão? Porque é forçada a isso mesmo, pela pressão dos clubes das grandes ligas e pelas constantes ameaças de ruptura e criação de uma Superliga Europeia.

E as exigências dos “gigantes” eram bem mais aberrantes (ou adequadas, consoante o ponto de vista), como por exemplo o pedido de “wild cards” baseados no “mérito histórico” de alguns clubes ou a realização de encontros da Champions ao fim-de-semana, o que ameaçaria ainda mais a integridade das ligas nacionais. Discutiu-se até a criação de uma empresa para gerir especificamente a prova, detida em partes iguais pela UEFA e pelos clubes. Mas não todos, só os clubes “grandes” envolvidos na negociação, entenda-se.

Se somarmos estas exigências ao poder que alguns clubes detêm neste momento e recordarmos ainda a situação de fragilidade que caracteriza a UEFA pós-escândalo Platini é razoável concordar com a opinião de Gabriele Marconi: do mal o menos, pois ao aceitar estas alterações a UEFA fez uma gestão de danos, mesmo que acabe por ficar com a maior fatia das críticas feitas pelos restantes clubes e pelos adeptos.

Por cá nada disto é convenientemente discutido. Não é a primeira vez que uma ameaça séria ao futebol português de clubes é “olimpicamente” ignorada por quem o dirige. Provavelmente porque muitos preferem investir o seu tempo a ler o Facebook uns dos outros ao invés de acompanhar as notícias que lhes traçam o destino.

Leia mais sobre o tema neste artigo de Gabriele Marconi para a ESPN

Actualização: Já em Setembro de 2016 a EPFL, Associação de Ligas Europeias de Futebol Profissional criticou o processo e decisões entretanto anunciadas pela UEFA afirmando que as mesmas prejudicam gravemente o equilíbrio do futebol europeu aumentando o “fosso” económico entre os clubes das principais quatro Ligas e os restantes. A EPFL ameaçou também romper o memorando de entendimento segundo o qual as Ligas nacionais aceitavam até agora não agendar jogos oficiais nos mesmos dias e horários das provas da UEFA. A acompanhar.

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Pedro Cunha Ferreira
Desempenhou entre 2011 e 2013 os cargos de Secretário-Geral da SAD do Sporting Clube de Portugal, Director da Equipa B e da Academia Sporting. É um dos fundadores da GoalPoint Partners.