Pode parecer estranho ou enigmático, mas um dos triunfos da equipa de futebol profissional do Benfica reside numa das maiores lacunas do seu treinador. Rui Vitória tem dificuldades perante a comunicação social, por isso defende-se, não se alonga sobre quase nada, preferindo dar respostas “brancas”, que tanto complicam a via a quem tem de trabalhar sobre as suas palavras.

Se perguntarmos a um adepto de futebol – benfiquista ou não benfiquista – sobre uma expressão marcante de Rui Vitória, desde que chegou à Luz, lembrar-se-á eventualmente da “cebolada” após a eliminação da Taça de Portugal em Alvalade e da tentativa falhada de fazer um “mind game” antes da derrota em casa diante do Sporting (0-3) – “vamos defrontar 11 jogadores do Sporting, não sei se vamos defrontar uma equipa“.

Rui Vitória foi inteligente. Percebeu que por esse caminho seria um perdedor. E então aceitou as suas limitações, preferindo responder o trivial. E esta é uma bela maneira de (não) abordar assuntos “quentes” como a catadupa de lesões, a rotação na baliza, o sai-não-sai de Luisão, a reunião com Taarabt em que terá colocado o presidente entre a “espada e a parede”, as discutíveis opções de Nápoles, etc.

Estamos perante uma estratégia que tem servido na perfeição os interesses do Benfica, porque os jogadores percebem que não há tumultos e que os problemas passam ao lado do balneário.

Tenho dificuldades em encontrar líderes de campeonatos ou campeões injustos. Este Benfica, pela onda de lesões que se abateu sobre o plantel (sejam quais forem as razões; má preparação física, azares sucessivos ou uma mistura das duas coisas), merece ser líder. Teve sorte? Teve. Já teve direito a dois autogolos, outros tantos de “carambola”, mas fez por merecer as vitórias e acreditou sempre, mantendo sempre níveis altos de concentração.

Com sete jornadas decorridas já todos percebemos que o Benfica, com as equipas da classe média e média baixa da Liga, dificilmente vai perder pontos. No futebol a bola é redonda, mas tirando os outros dois grandes, o Sp. Braga – que já foi goleado na Luz – e o V. Guimarães, não vejo uma equipa “roubar” pontos ao Benfica, tal é a regularidade do tricampeão. Parabéns a Rui Vitória que percebeu qual seria o caminho a trilhar para dar paz e sossego aos jogadores de maneira a que eles possam exprimir, com tranquilidade, tudo o que sabem nas quatro linhas.

Já Jorge Jesus tem um problema grave. É um excelente comunicador mas sem qualquer travão. Vai tudo a eito. Com ele no banco o Real Madrid não tinha ganho, mas em Guimarães ele estava lá e a sua equipa foi humilhada em 15 minutos para a história. Com uma grande tendência para a máxima “eu ganho, nós empatamos, vocês perdem“, Jesus ainda não percebeu o essencial; com o talento que tem para cativar nas salas de imprensa, e isto não é ironia, podia ser um enorme “plus” para o Sporting, mas aquilo é mais forte do que ele. E é bom que Jesus se capacite de uma coisa; esta é uma época em que está proibido de falhar, pois em sete anos a treinar grandes venceu três campeonatos e, depois de ter perdido duas Ligas consecutivas para Vítor Pereira, a sua “aura” corre o sério risco de perder brilho se repetir a “façanha”.

O Sporting tem um estilo atractivo e é justo dizer que, esta época, o melhor Sporting mostrou-se superior ao melhor Benfica – com todo o respeito, o FC Porto não é deste campeonato “estético”. Mas, como diz Fernando Santos, jogar à bola é uma coisa e jogar futebol é outra. O Sporting tem uma enorme regularidade no jogo da bola, mas quando falamos de jogar futebol a constância pertence ao tricampeão nacional.

A forma como o Sporting perdeu uma vantagem de três golos em Guimarães num reduzido espaço temporal leva-me a dizer que tenho dificuldades em acreditar num campeão que sofra tamanha debacle – seja qual for o adversário.

Se tivesse jogado futebol, e não exclusivamente à bola, quando sofreu o primeiro golo, num penálti infantil de William, a primeira coisa que o Sporting tinha de fazer era parar o jogo, assentar ideias e não entrar naquilo que o V. Guimarães pretendia – um encontro sem pausas, com o filme da recuperação a passar em todo o estádio mas absolutamente ignorado pelos 11 “leões” em campo mais o banco do Sporting; só eles não viram o que estava à frente de todos.

Não tivesse o estatuto que tem e Jesus teria muito para explicar. Por exemplo, o que estão a fazer em Alvalade Petrovic, Melli ou Castaignos, jogadores que o técnico quis ou, pelo menos, deu o seu aval?

A finalizar, o FC Porto. Confesso, tenho dificuldades em olhar para os “azuis-e-brancos” e reconhecer naquela equipa (?) um candidato ao título… E isto não abona em favor do FC Porto, pois tem os mesmos pontos que os “leões”, já jogou em Alvalade e recebeu o V. Guimarães. O problema do FC Porto é que está excessivamente dependente de André Silva. Quando o jovem internacional não render, porque não irá render sempre como não rendeu em Tondela, quem vai assumir a responsabilidade de desequilibrar no último terço? É que não aparecem Jotas em todos os jogos.

Espero enganar-me, porque será sempre um campeonato mais interessante com três candidatos do que com dois, mas este FC Porto só conseguirá alimentar a chama do título se muitos jogadores crescerem de forma sustentada e a um ritmo acima da média. De outra forma…

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Bruno Pires
Jornalista desde 1997, passou pelos jornais O Jogo, A Bola e Expresso entre outros. É actualmente editor adjunto de Desporto no Diário de Notícias.