“A Selecção falhou cinco ocasiões flagrantes de golo, mais do que qualquer outra equipa. Se lhe disser que o conceito de ocasião flagrante define uma situação de um para um ou mesmo um para zero entre um jogador e a baliza, com a bola controlada, o problema fica mais claro. Portugal tem esbanjado ocasiões, mesmo que não crie tantas mais como o número de remates dá a entender.”

Passados dois jogos de Portugal neste Euro 2016 tudo soa familiar. A acessibilidade do grupo, as críticas ao alargamento do torneio prevendo um suposto desnível competitivo e até o excesso de entusiasmo individualizado com este ou aquele jogador deram lugar à estupefação e à dúvida.

Estamos com azar Manel…

Perante este cenário surge uma palavra tão utilizada pelos portugueses, não apenas no futebol: azar. Estamos com azar. Até porque rematamos mais. Hoje em dia toda a gente sabe quantos remates já fez Portugal até aqui (49) e nós gostamos de ver essa evolução na forma de discutir o futebol mas… esse número diz-nos alguma coisa per si? Dizer diz, mas pouco.

…mas será mesmo só azar Joaquim?

Já sabemos que rematamos mais. E naturalmente temos até mais remates enquadrados (15). Mas olhando para quem nos segue neste capítulo (Suíça, 13) percebemos que também não será por aqui que se explica a nossa situação. Avancemos então.

Ao analisarmos o total de passes para ocasião de golo percebemos que também aqui lideramos mas a coisa já se esbate. Portugal soma 35 “passes-chave” mas logo a seguir surgem Espanha (33), Bélgica (31), França (30) e Alemanha (29), todas elas com mais pontos do que os “nossos”. Que raio… será que estamos mesmo com azar?

Chegamos às ocasiões flagrantes desperdiçadas e, tal como sucedeu na Liga NOS 15/16, começamos finalmente a perceber que aquilo que a uns parece azar a outros soará a… culpa própria.

A Selecção falhou cinco ocasiões flagrantes de golo, mais do que qualquer outra equipa. Se lhe disser que o conceito de ocasião flagrante define uma situação de um para um ou mesmo um para zero entre um jogador e a baliza, com a bola controlada, o problema fica mais claro. Portugal tem esbanjado ocasiões de golo (quase) certo (cinco, três por Ronaldo, duas por Nani), mesmo que não crie tantas mais como o número de remates dá a entender.

GoalPoint / SIC Notícias | Portugal cruza muito mas acerta pouco
Facto do dia GoalPoint / SIC Notícias

Diz me como (e porque só) cruzas

Fernando Santos adoptou um 4-4-2 “móvel”, segundo os especialistas. Mas passados dois jogos os números mostram uma espécie de 4-3-3 sem ideias, muito longe da complexidade (e eficácia) dos exemplos mais próximos que acompanhámos ao longo da época: Benfica e Sporting, para não irmos mais longe.

Portugal cruza mais do que qualquer outra selecção. Foram 54 cruzamentos, uma larga vantagem para Croácia (47) e França (45). Quantos eficazes? Dez, repito… dez. Até a República da Irlanda soma onze cruzamentos eficazes em 33 tentativas.

A frequência com que Portugal cruza denuncia um problema de soluções de jogo que não se coaduna com o 4-4-2 “móvel” que nos foi prometido. A opção incessante por este recurso torna-se ainda mais estranha quando apenas Cristiano oferece razões que justifiquem o caminho escolhido e, mesmo ele, nem é o cabeceador mais eficaz do seu Real Madrid.

GoalPoint / SIC Notícias | Quem mais cruza na Selecção
GoalPoint / SIC Notícias | Quem mais cruza na Selecção

Onde param as incursões interiores que tanto Quaresma como Nani são capazes de fazer? Porque não utilizamos um 4-2-2 com a diversidade com que Benfica ou Sporting nos ofereceram esta época? Porque nos condenamos a cruzar bolas para a área esperando que uma lá chegue, quando temos jogadores para bem mais do que isso? A falta de tempo para trabalhar automatismos numa selecção pode explicar parte do problema, mas não tudo.

Por fim uma última dúvida: João Moutinho é um fantástico jogador mas, tal como qualquer outro, está sujeito a fases de maior ou menor disponibilidade/felicidade, sendo natural que viva a segunda, após uma época fisicamente atribulada. Porque jogou João Moutinho 161 minutos em dois jogos, numa posição fundamental à criação das dinâmicas pelas quais aguardamos, criando apenas duas ocasiões de golo, menos cinco (!) que André Gomes, menos duas que João Mário e apenas mais uma do que até… William Carvalho e Renato Sanches?

As dúvidas parecem-me legítimas mas se calhar… a estatística não serve mesmo para nada.

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Pedro Cunha Ferreira
Desempenhou entre 2011 e 2013 os cargos de Secretário-Geral da SAD do Sporting Clube de Portugal, Director da Equipa B e da Academia Sporting. É um dos fundadores da GoalPoint Partners.