A Liga NOS 16/17 tem-nos mostrado neste primeiro terço um Benfica, Sporting e Porto com dinâmicas muito próprias na fase ofensiva do jogo. Como se expressam essas diferenças ao nível do remate, a acção mais ofensiva que podemos aferir? Decidi analisar os números.

Os cruzamentos

Mas começemos pelos cruzamentos: Sporting e Porto são naturalmente os emblemas da Liga que mais priveligiam os corredores laterais: O Porto é à nona jornada a equipa que mais cruza (190), seguida de perto pelo Sporting (187). O Benfica surge mais atrás, com 140 lançamentos para a área, a partir das alas.

No entanto, os números revelam que o FC Porto acaba por dar sequência de remate já dentro da área adversária com maior regularidade que os “leões”: olhando os remates enquadrados, os mais perigosos, os “dragões” somam 42 contra apenas 35 dos “verde-e-brancos”. Acima de todos eles surge o Benfica, com 47. Se olharmos os remates totais realizados dentro da área “inimiga”, sem filtros de qualidade (enquadrados) as diferenças explicam em parte os números anteriores: 104 para o Benfica, 99 para Porto e 78 para o Sporting.

A eficácia de cruzamento ajudará a explicar em parte as diferenças pois quantidade não significa qualidade: o Benfica cruza menos mas aproxima-se dos 30% de cruzamentos eficazes de bola corrida (os que chegam a um colega de equipa), com o Porto a surgir perto, com cerca de 28%. Já o Sporting queda-se com 25%.

Como jogam

Estes números podem ser facilmente compreendidos atendendo à forma como os treinadores preconizam a etapa de criação dos seus jogadores.

Os dragões, sempre com os laterais bem abertos, utiliza duas principais dinâmicas, uma tendo jogadores como Oliver e Herrera, que explora bem os corredores criando situações de superioridade numérica, outra usando a dupla Diogo Jota/Brahimi, caso joguem com extremos abertos nos corredores. Em ambos os casos André Silva é explorado ao máximo na sua excelente capacidade de movimentação dentro do “covil” dos defesas contrários, quer no cabeceamento, quer no remate, este jovem “craque” tem sido um dos impulsionadores do FC Porto esta temporada. Nuno Espírito Santo é pregador de um futebol apoiado e de posse que procura um rendilhado de soluções mais equilibrada e estável para a equipa entre transições, arriscando no remate mais apenas dentro de área e não tanto fora da mesma.

O Sporting CP joga normalmente com Dost a jogador-alvo, um segundo-avançado (posição essa que ainda não estabilizada a nível de onze inicial), que pode ser Ruiz, dois médios-centro (William e Adrien) e dois extremos, o já incontornável Gelson e mais um outro, dependendo do adversário. Ora, William é um trinco com uma razoável capacidade de aproximação à área adversária, sobretudo jogando em duplo pivot, a questão é que esse papel será mais o de Adrien (ou e quem o tem substituído), que jogando como médio “box-to-box” tem a obrigação de aparecer um número de vezes muito superior em condições de rematar à entrada da área. Bruno César ao jogar nessa posição parece compreender de forma muito razóavel os movimentos tácticos a efectuar no momento ofensivo e defensivo, e garante ainda um poder de fogo que poderia dar aos “leões” mais remates de meia distância. O Sporting tem apenas 18 remates enquadrados efectuados fora da área adversária, contra os 23 do Benfica.

Os “encarnados” são uma equipa que apesar de ter dois laterais muito potentes e rápidos, usam muito as diagonais e movimentos interiores, ao invés de procurarem sempre a linha final para cruzar. Pizzi assume-se como o grande cérebro, explorando muito bem o centro do terreno e distribuindo uma panóplia de passes para ocasião vezes sem conta. Os encarnados rematam mais, de fora (70) e dentro da área (104), aproveitando os passes de rotura que são gerados, mas nunca olvidando oso tiro de longa distância. A “armada” de Rui Vitória arrisca no remate e têm bons executantes neste parâmetro, saindo assim beneficiados em termos gerais do momento ofensivo do jogo.

Existe realmente uma dinâmica de jogo distinta nos três candidatos, cada um mais ou menos adaptado aos jogadores que possuem no plantel, sendo o Benfica a equipa que parece mais versátil e fluida na dinâmica ofensiva que procura imprimir ao jogo, atacando a baliza adversária das mais variadas maneiras. Veremos o que nos reservam os próximos dois terços de campeonato, no que toca à confirmação destes “DNA”.

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Miguel Pontes
Engenheiro civil de formação, actualmente na Deloitte, tem dado sequência à sua paixão pela vertente técnica e táctica do futebol, com passagens pelo CF Benfica (Scouting), SG Sacavenense (como técnico adjunto nos sub19 e posteriormente na área de scouting) e colaborações com a Belenenses SAD e diversos agentes.