Os comentadores de futebol pareciam querer complicar o desporto mais universal do mundo, há uns tempos. A moda parece ter acalmado mas, em certos contextos, ainda é possível encontrar sinais de linguagem futebolística que parecem fazer do futebol uma ciência mais complexa, ao mesmo tempo que o distanciam do adepto. Anglicismos, complicómetros mas no final… tudo é muito simples.

Como qualquer bom adepto da redondinha todos gostamos de ser o melhor treinador de bancada do prédio, do trabalho e até da família. E nada como usar termos “puxados” para brilhar. Avanço por isso para algumas explicações úteis, abrindo-lho o caminho dos “termos da bola”, que me chegaram fruto de muita leitura bem como alguma atenção a palestras de homens da bola que, a qualquer momento, prometiam lançar o primeiro foguetão em direcção a Marte.

As fases do jogo

O futebol divide-se em duas grandes fases, o ataque e a defesa, estas já todos conhecemos. Comecemos pelo ataque: aqui a equipa pode usar três métodos, sendo eles o ataque posicional, ataque rápido ou ainda o contra-ataque.

primeiro é necessariamente mais demorado, pois assenta basicamente na posse de bola e no ataque à baliza do adversário com a maior segurança possível – basicamente num nível de um agorafóbico a sair de casa no meio de um motim -, havendo portanto uma ocupação racional e bem pensada no espaço de jogo. No segundo procura-se jogar mais em velocidade, através da preparação do ataque enquanto a equipa adversária já se encontra organizada defensivamente. Já o terceiro é semelhante ao ataque rápido, mas difere na medida em que se procura explorar o facto de o adversário não se encontrar ainda organizado defensivamente – na gíria o mesmo que “apanhado com as calças na mão”.

A construção do ataque é dividida em quatro etapas:

A construção baixa

Nesta etapa a incluem-se parâmetros como: a saída de bola (a forma como o guarda-redes passa a bola, se de forma curta para os defesas ou se bate longo para os jogadores no meio-campo ofensivo); a circulação de bola (consiste na definição de como os jogadores utilizam a bola, se de forma rápida, se reduzida – em posse, com os jogadores em proximidade); transição de etapa (a transição da 1ª/2ª etapa pode ser feita pelo corredor central ou lateral); e como é feito o desenvolvimento da jogada (pode ser feita em largura, em profundidade ou em ambas, dependendo de como o “mister” preparou a equipa).

1-construcaobaixaA construção alta

Nesta segunda etapa os princípios são similares aos da anterior, porém entra também em jogo a variação do centro do jogo (por exemplo o extremo-esquerdo Caué Sénior fazer um passe longo para o extremo do lado contrário, Diogo Kapa) e o espaço entre linhas.

2-construcaoaltaA etapa de criação

A etapa de criação é a preferida do vosso amigo, aquele que tem a mania que é o Ronaldo, vem connosco à bola, e acha sempre uma linha de passe melhor que o Messi. Foca-se num espaço do jogo onde há um maior número de jogadores, sobretudo organizados defensivamente, e visa ainda a concretização do principal objectivo, que é marcar golo (binómio jogo interior/exterior, dependendo se esta etapa é feita pelos corredores laterais ou central).

3-etapacriacaoA etapa de finalização

Nesta etapa a pressão dos adversários é enorme, assim como a velocidade de tomada de decisão, que tem de ser muito rápida, pode ser analisada pelos ângulos, distâncias, etc.

4-etapafinalizacaoOs momentos de jogo

Durante um jogo de futebol temos três momentos, a transição ataque/defesa (momento que se dá quando a equipa perde a bola para o adversário) e a transição defesa/ataque (momento em que a equipa recupera a bola ao adversário) e as bolas paradas.

Na primeira o importante é a reacção à perda de bola, podendo esta ser executada e planeada de diversas maneiras – por exemplo o médio-centro pode recuar fazendo pressão sobre o portador da bola ou fazendo contenção; a segunda verifica-se após a recuperação da bola; e no terceiro momento incluem-se todos os esquemas tácticos.

A defesa

Na retaguarda existem vários métodos defensivos: o método individual (em que o central acompanha o avançado para todo o lado), e onde há uma maior contenção e responsabilidade individual; há o método zona pressionante (muito usado por Guardiola), que visa a recuperação da bola o mais rapidamente possível, pressionando o portador da bola com muitos jogadores; o método à zona (há uma maior organização e recurso ao colectivo na hora de defender, maior entreajuda e solidariedade); e o método misto (que junta o método individual e à zona).

Ao nível de etapas temos: o equilíbrio defensivo, onde durante o ataque se implementam medidas de modo a preparar a fase defensiva, com o “trinco” sempre atrás sem integrar o ataque ou tendo sempre um dos laterais junto aos dois centrais, por exemplo; a reacção à perda da bola; a recuperação defensiva e o bloco defensivo (bloco que a equipa forma ao posicionar-se defensivamente, sendo alto, baixo, etc…)

E ficamos por aqui sendo que repare que nem sequer falei em basculação, overlapping ou periodização. Ou seja… a “ciência de foguetões” da bola é um mundo interminável mas no final tudo se resume a dois princípios muito simples: meter mais bolas lá dentro que o adversário.

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Miguel Pontes
Engenheiro civil de formação, actualmente na Deloitte, tem dado sequência à sua paixão pela vertente técnica e táctica do futebol, com passagens pelo CF Benfica (Scouting), SG Sacavenense (como técnico adjunto nos sub19 e posteriormente na área de scouting) e colaborações com a Belenenses SAD e diversos agentes.