A tradição ainda parece ser o que era. Inglaterra é o berço do futebol, foi lá que as regras que mais se aproximam da perfeição entre as principais modalidades desportivas (as do futebol) foram pensadas e definidas, e também foi lá que essas mesmas regras foram aperfeiçoadas ao ponto de muitos as tentarem mudar, antes de chegarem à conclusão que, se uma falhar, todas as outras ruem.

Inglaterra é um país de costumes, avesso a mudanças. Mas não no futebol. Aqui são revolucionários, a começar pela própria organização da modalidade, na forma como a olham com potencial de futuro, como a moldam tendo em conta o interesse do adeptos. Mas também como a salvaguardam da erosão e a tiram de situações difíceis. Foi assim que a Liga inglesa saiu dos escombros pós-Heysel, sustentadamente, e de forma sólida, antes de se converter em Premier League (EPL) e ser, neste momento, a mais abastada e mediática Liga de futebol do Mundo.

Este Verão, porém, mais um desafio se lhe deparou. E a Premier League reagiu, quase de imediato, enquanto outros ainda sussurram, a medo, aquilo que quase toda a gente pensa: há que acabar com a loucura dos mercados de transferência. Ou então colocá-la, pelo menos, num colete de forças.

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Esta quinta-feira os clubes que compõem (e detêm) a Premier League decidiram, por maioria, pela antecipação do fecho do mercado de Verão. Assim, em cada ano, esse mesmo mercado encerrará às 17h00 da quinta-feira imediatamente antes do arranque da temporada da EPL – a começar em 2018, no caso às 17h00 de quinta-feira, 9 de Agosto. O comunicado da Liga inglesa não especifica as intenções de tal decisão, e refere mesmo que o tema já havia sido abordado em Shareholders’ Meetings (Reuniões de Accionistas, ou seja, os clubes da EPL) realizadas em Fevereiro e Junho deste mês. Acredito, no entanto, que a loucura do último mercado de transferências terá precipitado o inevitável.

Para termos uma ideia do cenário que desaguou no “deadline day”, os clubes da Premier League gastaram, segundo dados do Transfermarkt, qualquer coisa como, 1,58 mil milhões de euros, com saldo negativo de 743 milhões, quase do dobro do que foi gasto pela emergente Serie A (827,8 milhões) – cerca de 24 vezes mais (!) do despendido pelos clubes da Liga NOS. E esta é uma tendência mundial (vide o caso do Paris Saint-Germain). A diferença está mesmo a capacidade financeira dos emblemas ingleses.

Assim, os clubes da EPL deram o passo certo no rumo que devia ser assumido por todos os principais campeonatos europeus. Se resolve o problema? Talvez não, em especial se for caso único, mas certamente evita alguns episódios a que temos assistido, como a pressão dos jogadores sobre os clubes, através dos seus empresários e das mais variadas manigâncias, para negócios de última hora, que os beneficiam, mas prejudicam o planeamento desportivo dos clubes, bem como as suas finanças.

Protecção aos atletas

Evitam-se loucuras de última hora e a escalada de valores praticados, ajuda a priorizar-se contratações e dispensas, limita-se o drama que vivem alguns atletas (e treinadores também), como o caso de Adrien Silva, sob o risco de estar até Janeiro sem competir, pois terá ultrapassado o prazo delineado pela FIFA (através do Transfer Matching System – TMS) em segundos. Quando começar a próxima Premier League, já a maioria dos atletas terá a cabeça limpa de cifrões e transferências mediáticas e com isso ganha o futebol e a sua qualidade.

A saída para outras Ligas, porém, continua a ser possível, pelo que esta auto-regulamentação da EPL terá o maior impacto quando a mesma lógica começar a ser adoptada por outras Ligas. É fácil prever (espero enganar-me redondamente) que a Liga portuguesa seja das mais resistentes à mudança. Cá (como noutras paragens), age-se perante necessidades imediatas – o caso do vídeo-árbitro é disso paradigmático, porque cá a necessidade é mesmo apagar os “fogos” das conversas de café sobre o penalti não assinalado -, e o futebol português tem vivido muito da especulação dos mercados. A Liga NOS foi a que mais lucrou em todo o Mundo, mais de 234 milhões de euros, pelo que muitas serão as vozes cá no burgo a reclamarem da medida inglesa.