Neste momento, será difícil encontrar alguém que se atreva a discordar desta afirmação: o Benfica está em crise. Apenas uma vitória nos últimos seis jogos, uma goleada histórica sofrida na Liga dos Campeões e cinco pontos de atraso para o FC Porto são factos objectivos aos quais se junta um ligeiramente mais subjectivo: o mau futebol praticado.

GoalPoint-Basel-Benfica-Champions-League-201718-90m
Clique para ampliar

Subjectivo porque, por “defeito” de formação, tentamos não cair em tais chavões se não existirem dados factuais que os suportem. Mas eles existem. No jogo com o Basileia, por exemplo, o problema não esteve só nos tão falados erros defensivos individuais. Apesar de ter terminado o jogo com 58% de posse de bola, o Benfica tornou-se na única equipa esta época a terminar um jogo da Champions sem um único remate enquadrado. Falamos de um jogo em que as “águias” começaram praticamente a perder, tendo a obrigação de “ir atrás” do resultado, o que numa situação normal resultaria em várias tentativas de criar problemas ao adversário… mas não foi isso que aconteceu. Na realidade, os jogadores do Benfica apenas criaram três ocasiões de bola corrida durante todo o jogo, sendo que duas delas foram obra de Cervi que… saiu ao intervalo.

GoalPoint-Maritimo-Benfica-LIGA-NOS-201718-90m
Clique para ampliar

O jogo com o Marítimo, é certo, não era o ideal para recuperar a confiança, mas pode dizer-se que no fim das contas ela saiu ainda mais abalada. Muito bem, o Benfica desta vez rematou, até criou algumas ocasiões, mas há algo que salta à vista olhando os números atentamente: a baixa eficácia de passe. Desde que há dados Opta para a Liga Portuguesa (2014/2015), os “encarnados” nunca tinham registado eficácia de passe tão baixa (69,08%) se excluirmos os “clássicos”, e o total de 124 passes falhados só tinha sido superado por uma vez, no Dragão, num já longínquo Dezembro de 2014. 

ÉpocaAdversárioPasses falhadosEficáciaTreinador
14/15Porto (F)12852%Jorge Jesus
17/18Marítimo (F)12469%Rui Vitória
14/15Porto (C)12262%Jorge Jesus
16/17Tondela (F)12275%Rui Vitória
16/17Sporting (F)11770%Rui Vitória

Fonte: GoalPoint / Opta

O facto de ter sido o pior registo interno da era Rui Vitória é elucidativo. O Benfica é uma equipa que hoje joga sob brasas. A qualidade técnica dos seus jogadores não está em causa, mas até os mais clarividentes (à excepção de Jonas) estão a atravessar um período crítico de falta de confiança. Isso nota-se nos números e, acima de tudo, na qualidade de jogo da equipa. Pizzi, por exemplo, teve nos Barreiros o seu segundo pior registo de sempre no que à eficácia de passe diz respeito (66%), e o pior de sempre (50%) se considerarmos apenas os passes que terminaram no meio-campo contrário. A prestação do melhor jogador da época passada foi tão pobre que Rui Vitória se viu na “obrigação” de o retirar.

GoalPoint-Melhores-da-Europa-5-Percentagem-Passes-certos-201617-9-infog
Clique para ampliar

Foi então que entrou aquela que poderá ser a solução: Filip Krovinovic. O croata é conhecido (também) pela sua clarividência no passe, e mostrou isso mesmo nos Barreiros. Terminou o jogo com 83% de passes certos (o melhor registo do Benfica) e confirmou o dado estatístico que o fez terminar a época passada como melhor da Liga NOS (e 27º a nível europeu) no capítulo do passe em zonas adiantadas, mesmo actuando no Rio Ave.

É certo que tirar Pizzi do “onze” titular é uma decisão difícil mas… será que tem que ser? O FC Porto deu-se bem ao mudar o seu esquema táctico, e começou a percebê-lo num jogo de Liga dos Campeões. Se calhar está na hora de testar o “mito” de que Jonas não pode actuar como número 9. Afinal de contas o brasileiro, mesmo jogando mais recuado, é o melhor marcador do campeonato, aquele que mais remata (tanto como Seferovic e Jiménez juntos), e também o mais eficaz. A lógica diria que tê-lo mais perto da baliza só poderia trazer coisas boas, e se essa for a maneira de encaixar Pizzi e Krovinovic no “onze”… porque não?

Tem a palavra Rui Vitória, mas agora que já se vai percebendo que também com Seferovic, a “estatística” não se enganou assim tanto, talvez esteja na hora de olhar mais para ela, e de encaixar os melhores jogadores. Afinal de contas, é sempre neles que está o melhor futebol.

PARTILHAR
Hernâni Ribeiro
Formado em estatística e Data Scientist profissional. A paixão pelo futebol conjugada com a análise de dados vive-a também como administrador do portal foradejogo.net, após ter sido co-responsável do processo de pesquisa oficial portuguesa para o jogo Football Manager.