Conselho de amigo: não se ponham a comparar namoradas actuais com as do passado. Por muito que os resultados dessa comparação possam ser claros, há certos momentos em que não podemos voltar atrás. A boa notícia para o Benfica é que, no futebol, as relações incluem plantéis de vinte e muitos jogadores. Quando as coisas correm mal com uma opção, vamos sempre a tempo de mudar.

Os maus resultados dos “encarnados” só começaram a chegar depois das más sensações deixadas em jogos em que a equipa estava a ganhar. Ou seja, a célebre máxima do “onde há fumo, há fogo”, mas neste caso com pontos perdidos, adeptos nervosos e justificações a serem pedidas à equipa técnica. Rui Vitória, que recorreu a alguns números para justificar que as coisas, apesar de parecerem mal, estavam bem, talvez precise de olhar para os mesmos de outra forma. Por isso, vou dar-lhe uma ajuda, olhando para Filipe Augusto, Fejsa, o Pizzi “a oito” da temporada passada e o Pizzi desta temporada (é mais simples do que parece).

Amostras pequenas, grandes informações

Pizzi 16/17 (J 7-34)Pizzi 17/18 (J 3-6)
Acções com bola106,596,5
Remates2,41,0
Passes p/ finalização (bola corrida)1,21,3
% Passes no último 1/335%37%
% Passes para a frente33%35%
Tentativas de drible1,12,8

Médias por cada 90 minutos jogados
Fonte: GoalPoint / Opta

Nunca se deixem intimidar por quem vos apontar a pequenez da vossa amostra. Filipe Augusto tem estado no centro do furacão, primeiro porque o homem não joga “assim tão mal” e, segundo, porque o homem não é Fejsa. A qualidade do jogador brasileiro não está em causa, tal como não estavam as qualidades daquela namorada a quem tivemos de dizer “o problema não és tu, sou eu”.

No fundo, os problemas de relação no meio-campo do Benfica acabam por afectar toda a dinâmica da equipa, com Pizzi a ser, nesta fotografia, o mais afectado pela mudança de companhia. Se compararmos o comportamento do português com cada uma “das namoradas”, notamos que, com Filipe em campo, Pizzi tem, em média, menos dez acções com bola a cada jogo, quase exactamente as acções que Filipe Augusto apresenta a mais do que Fejsa (88,9 contra 77,9). Podemos arriscar que o brasileiro, até por ser um “oito” de origem, “obriga” Pizzi a uma divisão de tarefas mais democrática, enquanto com Fejsa as coisas estavam melhor resolvidas, cada um em su sitio.

O decréscimo das acções de Pizzi sente-se particularmente no número de remates realizados por jogo. O português aparece menos em zonas de finalização e o seu número de disparos cai para menos de metade do que na época passada. No que toca à criação de ocasiões de bola corrida, os números não se ressentiram, o que se nota é que o português sente necessidade de transportar mais jogo. As tentativas de drible (algo em que, por exemplo, Renato Sanches era muito forte) subiram quase para o dobro, e também a percentagem de passes verticais de Pizzi aumentou com Filipe Augusto em campo (de 33% para 35%).

Com Pizzi menos rematador, mas a criar em quantidades semelhantes, pedia-se que a dupla de avançados mostrasse a eficácia do passado, ou até melhor, mas isso não tem acontecido. Mitroglou (a “namorada” de quem ainda temos o número de telefone, mas sobre qual a opção de voltar não nos pertence) era mais cínico no momento de aproveitar o que lhe caia no colo, concretizando 50% das ocasiões flagrantes, contra as 40% de Seferovic. Naqueles momentos de aperto que o Benfica já passou, em que até o chamado “pinheiro” pode ser muito útil, a diferença nota-se ainda mais. Se o grego vencia 50% dos duelos aéreos ofensivos que disputava, o suíço fá-lo, apenas, 15% das vezes. Mais uma vez, não é uma questão de tamanho, porque Jonas até disputa quase o dobro dos duelos aéreos do suíço, e sai vencedor 46% das vezes. Essa (Jonas) é a “namorada” com quem, se pudéssemos, queríamos festejar as bodas de ouro.

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