O estatuto de Gelson Martins como uma das grandes figuras leoninas da época 2016/17 é um facto incontornável e mensurável. Sendo certo que somos suspeitos, pois escolhemos o extremo como aposta para 2016/17 ainda em Agosto de 2016. Sobre ele escrevemos que estava mais do que preparado, assim fosse aposta de Jorge Jesus… E foi. E estava.

Com seis golos e nove assistências (líder da Liga, nos passes para golo), Gelson mostrou-se definitivamente à altura das exigências da Liga NOS e, até na Liga dos Campeões, o “miúdo” deu-se a conhecer ao mundo, ao ponto de ter ganho um justo lugar nas convocatórias de Fernando Santos.

Talvez os maiores pontos fortes de Gelson Martins tenham sido a sua imprevisibilidade e fantasia. O português foi, na época passada, presença regular no topo dos rankings de dribles eficazes, em qualquer das competições abordadas. No entanto, esta época, as coisas estão diferentes…

Tentativas de dribleDribles eficazes% Dribles eficazes
Liga NOS 16/175,6 (#7)2,4 (#6)43%
Liga NOS 17/184,5 (#10)1,9 (#12)41%
Champions 16/176,1 (#11)2,9 (#19)47%
Champions 17/184,7 (#30)1,9 (#57)41%

Se, na Liga Portuguesa, Gelson deixou de constar entre o “Top 10” dos jogadores que mais driblam, na Liga dos Campeões o “camisola 77” passou de um lugar no “Top 20” à 57ª posição do ranking. Não só a quantidade de tentativas tem baixado, também a eficácia das mesmas está pior. É provável que Gelson tenha deixado de contar com o factor-surpresa, mas não é de excluir que haja alguma quebra motivacional por detrás da queda de rendimento. O próximo gráfico deixa pistas para isso.

GoalPoint-Gelson-grafico-dribles3Para além de ser mais fácil visualizar o declive nos números, não deixa de ser curioso verificar que os dois picos do gráfico, tanto nos dribles tentados como nos eficazes, estejam nos jogos fora contra os campeões de cada uma das competições. O recorde de dribles eficazes de Gelson (oito) aconteceu no Santiago Bernabéu, enquanto o recorde de tentativas (11) deu-se no Estádio da Luz, jogos teoricamente mais complicados que todos os outros. Até mesmo nesta época foi contra o Barcelona, em casa, que Gelson mais tentou dar nas vistas (sete tentativas). Gelson é um jogador com “lata”, que gosta dos grandes jogos e de muitos olhares, para mim isso sempre foi óbvio, e os números só o comprovam.

É claro que também existe um lado táctico. O luso-cabo-verdiano é o tipo de jogador que necessita de espaço para brilhar e, ao contrário, por exemplo, de Yacine Brahimi, que o inventa mesmo onde ele “não existe” (o argelino tem mais dribles eficazes no último terço, 3,1/90m, do que Gelson em todo o campo), o português sofre um pouco mais quando enfrenta defesas compactas.

Uma evolução horizontal

A verdade estará provavelmente nessa mistura de factores, tácticos e motivacionais, mas é notório que Gelson Martins se está a transformar num jogador diferente. Talvez o português tenha percebido, tal como Cristiano Ronaldo a certa altura, que é nos golos que está o seu passaporte para o “próximo nível”. Nesse particular, Gelson já soma cinco esta época, apenas menos um que em toda a temporada passada. No entanto, é impossível não deixar de ter saudades daquele Gelson que ia para o campo “de varinha mágica na mão”. Essa magia parece estar-se a esfumar, talvez demasiado cedo tendo em conta os seus 22 anos, mas se for algo consciente, e se a contrapartida for a de termos um jogador melhor, mais completo, e mais próximo do topo, temos que o desculpar dessa “heresia”.

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Hernâni Ribeiro
Formado em estatística e Data Scientist profissional. A paixão pelo futebol conjugada com a análise de dados vive-a também como administrador do portal foradejogo.net, após ter sido co-responsável do processo de pesquisa oficial portuguesa para o jogo Football Manager.