Conclusões do “furto” de Genselkirchen

(foto: J. Trindade)
(foto: J. Trindade)

Após um desempenho claramente meritório, o Sporting sente-se claramente prejudicado após o jogo da Liga dos Campeões disputado em Gelsenkirchen frente ao Schalke. Com razão. Não fosse (sobretudo) o lance da grande penalidade nos instantes finais e os “leões” poderiam reclamar uma impressionante demonstração de organização e garra colectiva que projectaria um Sporting espartano mas produtivo para outras ambições no que concerne ao apuramento.

A mira errada dos adeptos

Mas o que fazer com a indignação natural após o ocorrido? O caminho natural dos adeptos é o do lamento ou indignação inconsequente. Apesar do que já escrevi aqui o adepto de futebol, isolado, tem pouca noção do poder que pode ter para mudar o futebol. Aqui e ali já li, inclusive, previsíveis relatos de assédio à UEFA nas redes sociais. Alvo errado novamente, conforme sugerido o futebol só mudará quando os adeptos perceberem que, organizados e focados, podem de facto motivar a sua evolução desde que centrem as suas atenções não nos organismos máximos que comprovadamente defendem, enraizados, o imobilismo mas sim quem os sustenta: os patrocinadores. No dia em que os adeptos perceberem para onde apontar a sua acção estaremos mais próximos de um futebol melhor.

A cabala lusitana

Falando de patrocinadores não alinho, aliás, nas (precipitadas) teorias de conspiração tão tradicionais portuguesas, que sendo naturais nos adeptos me parecem mais gravosas em comentadores e opinadores profissionais, associando a naturalidade do árbitro ao patrocinador comum do adversário e prova disputada, a Gazprom. O exercício, pese a coincidência, incorre em diversos erros que matam à nascença a credibilidade de quem, mais do que o pensar (legítimo), decide verbalizar ou redigir o raciocínio em tom conclusivo, misturando xenofobia (a ideia de ligação entre o “ser russo” e a corrupção, o que oriundo de Portugal e tendo em conta a sua História se torna inclusive profundamente irónico) com acusação infundada (existem provas do que se acusa?). Incorrer nestas tradicionais lógicas lusitanas de explicação da realidade mata a discussão à partida e não trazem qualquer benefício. Mesmo que tenha existido má-fé ela não é verificável por decreto. Há que fazer algo mais, de preferência sem perder a credibilidade.

As tricas aldeãs

A verdade é só uma: na Europa somos, invariavelmente, pequenos. A UEFA criou aliás já um espaço natural para um futebol como o nosso: a Liga Europa. Platini concretiza, aliás, o descrédito que o órgão máximo do futebol europeu concede ao futebol português nas suas frequentes e infelizes avaliações dos méritos do futebolista luso que melhor desempenho teve nas competições por si organizadas. Contra isto, e sobretudo a favor de um futebol melhor, sobraria apenas um caminho: um futebol português unido em torno do essencial, dirigido de um extremo ao outro com noção clara de que é lá fora que se decidem as questões centrais que podem melhorar o desporto cá dentro. O que os clubes portugueses deveriam estar há muito a fazer seria, após união em torno de objectivos claros (um dos quais a introdução de tecnologia em algumas decisões do jogo jogado, como teria sucedido nos penalizadores instantes finais do jogo de ontem), captar outros clubes europeus, recorrendo às instituições facilitadoras como a ECA (European Club Association), interessados num futebol modernizado e de verdade. Digo verdade e não justiça pois neste caso são conceitos diferentes. O futebol é essencialmente injusto pois é um dos poucos desportos colectivos onde é possível vencer sem fazer tanto por isso como o adversário. Mas não tem por isso de ser mentiroso. Os seus órgãos máximos misturam os conceitos. E os clubes, nomeadamente os portugueses, entretêm-se em quezílias menores internas, não compreendendo onde e como reside a solução para todos os males, internos e externos.

A esperança é reduzida, bastando para isso olhar o discurso geral do futebol nacional. Sempre que o oiço recordo-me do dia em que escutei três CEOs de clubes líderes da discreta (mas paulatinamente emergente) MLS norte-americana, discutindo de forma positiva o futuro da Liga que disputam e partilhando o facto de regularmente pensarem o negócio em conjunto, deixando a rivalidade para os 90 minutos e para as “bocas” de imprensa, necessárias ao natural alimentar da paixão dos adeptos. Para quando um cenário semelhante em Portugal? Pela amostra necessitamos aguardar mais uma ou mesmo duas gerações, mesmo assim sem garantias.