Sepp Blatter demitiu-se duas horas antes de iniciar a redacção deste artigo, lançando o mundo do futebol numa euforia optimista compreensível. Vários jornais (obviamente não portugueses) lançaram de imediato um acompanhamento contínuo do acontecimento e suas consequências, como foi o caso do The Guardian. Várias figuras do futebol vão dando a sua opinião, inclusive jogadores, como por exemplo o belga Vincent Kompany, capitão do Manchester City, que com capacidade de análise nem sempre esperada em atletas em actividade referiu a necessidade de identificar outros responsáveis antes de implementar as necessárias reformas e devolver (entregar pela primeira vez?) a ética ao futebol mundial. Surgiram também as palermices, como o anúncio da intenção de se voltar a (pseudo) candidatar por parte de David Ginola, como já o havia feito em 2014 num golpe publicitário de uma casa de apostas.

Centro-me na opinião de Vincent Kompany, que subscrevo na totalidade. Apenas por compreensível mas óbvia ingenuidade momentânea poderá alguém acreditar que a demissão de Blatter abre uma porta escancarada ao futebol com que todos sonhamos. O polémico dirigente contou, até na hora da despedida, com rápidas demonstrações de solidariedade vindas do continente africano.

Blatter, para lá de potencialmente corrupto, terá sido um generoso patrono de nações e continentes futebolísticos que, para lá da transacção de alegados subornos pessoais, desenvolveram as infra-estruturas futebolísticas nacionais à custa da distribuição natalícia de critério dúbio implementada pelo suíço. Os 133 votos que recebeu na última sexta-feira falam por si, e se muitos deles poderão ter sido motivados pelo medo, não haja dúvidas que boa parte, senão a maioria, foram-lhe entregues por fidelidade e agradecimento, até por dirigentes do futebol mundial que não estarão necessariamente ligados a casos de corrupção. Nós portugueses temos obrigação de compreender perfeitamente esta lógica, pois estamos habituados há décadas à inclusão da ideia de “rouba mas deixa obra” no nosso processo de decisão de voto local, nacional e até desportivo. Entre meros solidários e corruptos comprometidos a renovação terá de ser grande e profunda. A reforma (de pessoas, entenda-se, sem rodeios) não poderá terminar apenas em Zurique pois apenas os ingénuos duvidam que Federações e organismos diversos que lidam com a FIFA foram também eles corrompidos pela “forma de fazer” que caracteriza o futebol nas últimas décadas. Para isso basta relembrar (e questionar) o até hoje inexplicável apoio de Michel Platini ao cada vez mais questionável Mundial 2022 no Qatar.

Não faltarão candidatos a candidatos, pelo menos numa fase inicial de um processo que se deseja rápido. Dos homens que ouvi, ainda que superficialmente nos últimos meses, gostaria que Ali bin al-Hussein se recandidatasse e vencesse as eleições, sem prejuízo de surgir melhor candidato cujo perfil desconheço. Gostei do seu discurso, da sua postura e, sobretudo, agrada-me a ideia de entregar a reforma e reconstrução a alguém independente (financeira e politicamente) e distante dos dois continentes (Europa e América do Sul) que, apesar do seu peso futebolístico, não souberam (ou não quiseram) colocar um fim aos desmandos que apenas por sorte e intervenção de terceiros não destruíram em definitivo o futebol que tanto apreciamos.