Tal como em qualquer reality show, o “Prolongamento” da TVI, que contou com a visita do presidente do Sporting CP, prendeu a atenção de adeptos de todos os clubes. Mesmo que muita gente não admita o consumo do espectáculo (tal como sucede aliás com qualquer “Big Brother”), a agenda das redes sociais primeiro, e a mediática depois, não deixam dúvidas. Goste-se ou não do estilo, Bruno de Carvalho soma assim uma vitória mediática, pelo impacto que a sua ida ao programa teve no mundo do futebol e adeptos.

No dia seguinte ao “debate” não se falou de outra coisa do que a já célebre “Caixa do Eusébio”, a suposta prenda que o Benfica oferecerá aos árbitros que visitam a Luz e que Bruno descreveu e quantificou (não deixando de ser curioso ter tido a necessidade de afirmar que não classifica a oferta de “certa ou errada”). A APAF já desafiou o presidente leonino a provar aliciamentos e o próprio Benfica parecia – segundo algumas notícias – avançar para os tribunais contra o líder “verde-e-branco”.

Mas para lá de eventuais complicações, Bruno de Carvalho soma outra vitória, útil não só a ele como a boa parte do mundo do futebol: enquanto se discutem “Caixas” e a eventual autoria e propósitos da “novela Football Leaks” ninguém atenta no conteúdo. Para lá da revelação de informação confidencial dos negócios do futebol sem a concordância dos envolvidos, tema para a Justiça resolver, sobra uma “chuva” de documentos que, noutro país, já motivariam a esta hora uma investigação séria e profunda à sua autenticidade e, a confirmar-se, aos seus protagonistas e signatários. Em tema bastante mais complexo mas também disruptivo, os EUA ainda hoje perseguem Edward Snowden, mas foram forçados a lidar com a realidade demonstrada pelos factos expostos. Noutro país, os adeptos dos clubes envolvidos estariam mais preocupados em cruzar o conteúdo que os documentos revelam com aquilo que esperam dos seus dirigentes e o que estes lhes prometem e defendem.

Em Portugal a coisa parece ser diferente. Por mais duvidosos que sejam os processos revelados e mais gritantes sejam as incoerências reveladas, os adeptos aparentemente aceitam a natural ordem das coisas, centrando a sua atenção no acessório (origem) e não no essencial (conteúdo). Este é mais um episódio que nos faz recordar uma conclusão a que já chegámos algumas vezes no GoalPoint, noutros temas: os adeptos portugueses, mais do que de futebol, gostam sobretudo dos seus clubes, de forma incondicional e, por vezes, amoral e em conflito com os princípios que defendem nos restantes planos da sua existiência. E sendo assim, os adeptos nunca poderão lamentar com propriedade o futebol que lhes dão. Com ou sem “leaks”, com ou sem “Caixas do Eusébio”.

 

PS – Durante o debate ficou patente a ideia de que apenas este ano André Carrillo estaria prestes a dar um contributo visível e influenciador ao futebol leonino, sendo sugerido que, nas últimas duas épocas teria tido um desempenho pouco impactante. Tendo em conta que André Carrillo é, há dois anos consecutivos, o jogador leonino que mais assistências oferece aos colegas na Liga, a realidade dos números por nós já analisada não parece subscrever o que por vezes a “vista desarmada” parece indicar.