O primeiro “clássico” da época na Liga NOS, no Estádio da Luz, só deu FC Porto. Os “dragões” foram vencer a casa do seu grande rival por 2-0, numa exibição de grande qualidade táctica que não deixou dúvidas quando à justeza do desfecho. Os números finais do encontro mostram isso mesmo. Com excepção para a posse de bola e a quantidade de passe, os portistas foram superiores em praticamente todos os principais momentos de jogo, manietando os campeões nacionais e impedindo-os de criar perigo.

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A estratégia portista para este jogo era “simples”. Marcações e pressão intensa no meio-campo, onde o Benfica pensa e constrói o seu futebol de ataque, para anular dois elementos fundamentais: Pizzi e Rafa Silva. Os dois jogadores raramente receberam a bola em condições, pois no momento de a controlar tinham sempre um adversário em cima, a dificultar o gesto e a impedir que se virassem para iniciar as habituais combinações.

Esta estratégia retirou a bola ao Benfica no meio-campo, obrigando a equipa da casa a optar pelo futebol mais directo, em busca da profundidade de Rafa ou da cabeça de Seferovic. Se nas primeiras duas jornadas os lisboetas recorreram apenas 11% das vezes (54,5 por 90 minutos) ao passe longo, neste “clássico” esse número subiu para 16% (64,6). Mas o Porto sente-se como “peixe na água” a anular este tipo de futebol, pelo que as “águias” não criaram qualquer tipo de perigo no primeiro tempo. Era essa a ideia dos “azuis-e-brancos”, e foi totalmente conseguida.

A entrada de Taarabt serviu precisamente para tentar que o Benfica recuperasse um pouco do controlo da bola no “miolo”. O marroquino conseguiu, em parte, esse objectivo, com os da casa a distribuírem melhor a bola para os flancos, na tentativa de fugir à zona central. Assim, não espanta que os comandados de Bruno Lage tenham terminado com 23 cruzamentos de bola corrida, contra apenas seis dos “dragões”. Só que o Porto anulou bem esses lances, aproveitando para realizar rápidas transições e criar perigo, “matando” o jogo num desses lances.

No final, até deu para “esconder” a bola do Benfica, com 29 passes ininterruptos em pouco mais de um minuto, uma sequência de entregas que não se via no “dragão” há muito, desde Novembro do ano passado.

“Águias” em sub-rendimento

As duas grandes figuras do Benfica neste arranque de campeonato estiveram vários furos abaixo do habitual, eles que foram alvo de marcação e pressão especial ao longo de todo o jogo. Pizzi conseguiu, ainda assim, ser o melhor benfiquista, mas em tarefas um pouco diferentes do habitual. Sem liberdade para construir jogo, o médio encostou à linha, somou apenas um passe para finalização e centrou a sua tendência para servir jogo nos cruzamentos, com sete, dois deles eficazes. Também esteve bem no passe longo (oito certos em dez), mas sem integrar-se no ataque, acabou por ter peso nos momentos defensivos, com nove recuperações e seis desarmes.

E foi o que aconteceu também com Rafa Silva que, aos 12 minutos, já fora obrigado a realizar seis desarmes e terminou com oito, o máximo do jogo – aliás, Rafa, Pizzi, Nuno Tavares (6), Samaris e Grimaldo (ambos com 5) foram os jogadores que mais desarmes realizaram. O extremo fez só um passe para finalização e um remate, teve sucesso nos dois cruzamentos que fez, mas só conseguiu completar uma de duas tentativas de drible, um dos aspectos em que é mais forte.

Porto coeso e implacável

Quatro golos em dois jogos na Liga NOS. Zé Luís foi o melhor em campo na Luz, graças a mais uma exibição de capacidade física e técnica e uma frieza absoluta no momento de finalizar. O cabo-verdiano fez o 1-0, enquadrou os dois remates que fez e ainda realizou dois passes para finalização e completou seis de dez tentativas de drible. O ponta-de-lança foi uma espécie de conclusão final (e de sucesso) de toda a estratégia do Porto para o embate na Luz, concretizando na frente o que o colectivo possibilitava mais atrás. E nesse aspecto, há um jogador que merece destaque especial.

Mateus Uribe não se viu muito, mas foi fundamental na ideia de jogo de Sérgio Conceição. Um dos responsáveis pelo desaparecimento de Rafa Silva, o colombiano concluiu 91% dos passes que fez, realizou quatro intercepções e foi o jogador com mais recuperações de posse, nada menos que 14, mais uma que o segundo, o benfiquista Álex Grimaldo. A sua capacidade para pressionar o adversário no momento da recepção de bola e ocupar os espaços de forma a anular as transições benfiquistas foi fundamental para o desfecho do jogo. Uribe foi, em campo, o espelho das ideias do “dragão”.