O FC Porto arrancou a Liga NOS 2019/20 com uma surpreendente derrota, frente a um Gil Vicente que, na época passada, militava no Campeonato de Portugal, equivalente à terceira divisão. Uma “falsa partida” que poucos estariam à espera, em especial os responsáveis e adeptos portistas. Porém uma análise mais a frio ao jogo permite-nos identificar protagonistas e dados que, já na análise ao encontro, mereceram o nosso destaque.

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O Porto foi superior em praticamente todos os principais momentos de jogo, menos num: o remate, em particular o certeiro (enquadrado). O “dragão” teve mais posse de bola, passe e eficácia nas entregas, mas mostrou uma clara incapacidade para impedir que o Gil Vicente atacasse, pelo que os minhotos terminaram com quase tantos disparos, cantos e cruzamentos que os “dragões”. E nos momentos decisivos, foram mais eficazes.

Olhando para estes dados em correlação com a estratégia das duas equipas, o desfecho acaba por não surpreender assim tanto. O Gil apresentou-se, como esperado, na expectativa, dando a iniciativa ao Porto e apostando nas transições rápidas. Nos primeiros minutos estas não saíram com regularidade, mas aos poucos, perante o nulo e a subida portista, os minhotos passaram a surgir com muito espaço, em especial no flanco direito, onde a figura da partida, Lourency, aproveitou com mestria as subidas de Alex Telles.

Lourency a despertar o interesse desde cedo

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Lourency Rodrigues foi o “carrasco” do Porto neste jogo, aproveitando os tais espaços concedidos pela equipa de Sérgio Conceição. Para além do golo inaugural, o brasileiro – que escapou por pouco à tragédia da Chapecoense – começou a mostrar serviço logo nos primeiros minutos e na segunda metade abriu o livro.

O extremo esteve na origem do segundo golo, da autoria de Bozhidar Kraev, e terminou o jogo como o mais rematador, com seis disparos, três enquadrados, 88% de eficácia de passe e ainda sete recuperações de posse. Números que fazem erguer sobrolhos de responsáveis de equipas com outras ambições. Resta saber se o jogador de 23 anos irá mostrar consistência ao longo da época. Se mantiver o nível, será, certamente, um caso sério.

Um búlgaro e um “todo-o-terreno”

Se o balanceamento ofensivo do Porto foi bem aproveitado por Lourency, dois outros jogadores do emblema de Barcelos foram fundamentais. O brasileiro Arthur Henrique, um lateral-esquerdo de origem, actuou a extremo-esquerdo, mostrando capacidades nos momentos defensivo e ofensivo da sua equipa. Para além de cinco recuperações de posse, registou quatro desarmes, ajudando a fechar um corredor que tinha Jesús Corona e Manafá do lado portista. A verdade é que os dois “dragões” pouco ou nada produziram, em parte pela ajuda dada por Arthur a Edwin Banguera. Depois, lá na frente, o ala fez ainda três passes para finalização. O Gil conseguiu, assim, manter em sentido os dois laterais portistas.

O segundo golo dos da casa foi apontado por Bozhidar Kraev, um internacional búlgaro que, apesar de apenas ter aparecido a espaços, fez valer a sua qualidade técnica e capacidade para jogar entre linhas (que o diga Bruno Costa) para, no momento certo, surgir na área para finalizar como mandam as regras. E ainda teve a clarividência para recuar no terreno e ajudar nos lances aéreos defensivos, ganhando os dois em que participou.

“Dragões” sem fogo

Problemas físicos atiraram Danilo Pereira para a bancada e, para o seu lugar, Conceição apostou em Bruno Costa, jovem médio-defensivo de 22 anos. O portista sentiu muitas dificuldades para filtrar o jogo minhoto na zona central, onde caíam Kraev e, por vezes, Lourency, pelo que os números da sua exibição exprimem isso mesmo. A eficácia de passe de 71% (16 entregas falhadas em 56 tentativas) não abona a favor de um jogador da sua posição.

Estes números pioram se olharmos ao detalhe para o tipo de entregas. Apenas nos passes no próprio meio-campo Bruno Costa esteve bem (86% certos), sendo que terminou o jogo com preocupantes 46% de passes curtos falhados – isto levando ainda em linha de conta que dos seus 56 passes, 37 foram realizados para os lados. A dupla com Sérgio Oliveira acabou por não ter os resultados esperados e salvaram-se os quatro desarmes que somou.

Na frente, Tiquinho Soares foi o rosto da desinspiração “azul-e-branca”. O Porto construiu lances de ataque e de perigo, mas quando a bola chegava ao brasileiro acabava por não ter o destino desejado. Soares fez dois remates e, em ambos, desperdiçou ocasiões flagrantes. Muito pouco para aquele que foi o melhor marcador da equipa em todas as competições na última época.

Manafá num “beco sem saída”

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Como referimos acima, Wilson Manafá teve tudo menos uma partida bem conseguida, isto apesar de ter sido o terceiro jogador com mais acções com bola no encontro, nada menos que 80. Contudo, apesar de se ter mostrado competente no passe (92% de eficácia), essa aparente qualidade esteve vazia de “conteúdo”, pois produziu muito pouco em termos ofensivos, pelo que há que contextualizar esta percentagem tendo em conta a sua real utilidade.

O lateral não tentou qualquer remate e, das 51 entregas que realizou, nenhuma foi para disparo de um colega, o que não favorece os números de um lateral, em especial com características tão ofensivas. Para além disso, os dois cruzamentos que realizou não tiveram eficácia, pelo que a sua contribuição se resumiu ao passe sem risco.

As conclusões a retirar dos dados deste jogo podem variar, mas torna-se óbvio que, ao Porto, faltou eficácia na frente para dar corpo ao domínio que conseguiu em Barcelos e, no meio-campo e laterais, a capacidade para travar os movimentos ofensivos gilistas, que tanto perigo causaram. Os homens da casa agradeceram.