À  entrada para a temporada 2019/2020, o mundo do futebol teve que se preparar para uma nova regra. A partir da presente época deixava de ser obrigatório que a bola saísse da grande área na marcação de um pontapé de baliza.

Não são muitas as mudanças de regulamentos nos últimos anos que tivessem tido um impacto tão grande no jogo. Se cada vez mais já se vinha assistindo a equipas com uma primeira fase de construção apoiada na tentativa de sair a jogar a partir de trás, de agora em diante isso seria possível em zonas de risco ainda maior, com a particularidade de os adversários não poderem estar dentro da área adversária no momento em que o guarda-redes (ou outro jogador qualquer) dá o primeiro toque.

Após esta mudança, talvez nenhuma outra acção do jogo diga tanto acerca da identidade de uma equipa e do seu treinador como o pontapé de baliza. Esse é o momento em que o guarda-redes deve obedecer a uma ordem muito particular, e em que o posicionamento da equipa “conta a história” sobre a forma como quer chegar até à baliza adversária. A bola está parada, os adversários estão relativamente longe e esse primeiro passe é o assumir de uma identidade clara ou de uma estratégica que pode depender do momento do jogo, do oponente ou dos próprios jogadores que estão em campo.

Mas quais são então as equipas que mais têm feito uso da nova regra? E que campeonato aderiu mais? Nesta análise fomos estudar os pontapés de baliza de todas as equipas da Liga NOS e das cinco principais Ligas europeias. Desde logo convém dizer que apenas 20,8% dos pontapés de baliza terminam dentro da grande área, mas há diferenças significativas entre os próprios campeonatos.

  • Serie A 🇮🇹: 30,3%
  • Premier League 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿: 25,1%
  • Bundesliga 🇩🇪: 24,7%
  • Ligue 1 🇫🇷: 17,7%
  • La Liga 🇪🇸: 15,6%
  • Liga NOS 🇵🇹: 11,7%

Na Liga NOS, apenas um a cada 8,6 pontapés de baliza terminam dentro da grande área, enquanto em Itália um a cada 3,3 já são batidos desta forma. Se olharmos aos clubes, são dois da Premier League que lideram a tabela, com a curiosidade de a mesma ser fechada também por emblemas ingleses.

#1 Brighton 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿: 69,3%
#2 Man. City 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿: 61,5%
#3 Juventus 🇮🇹: 61,3%
#4 Napoli 🇮🇹: 59,8%
#5 Man. Utd 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿: 51,2%
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#33 Benfica 🇵🇹: 31,7%
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#112 Boavista 🇵🇹: 1,8%
#113 Eibar 🇪🇸: 1,1%
#114 Metz 🇫🇷: 1,0%
#115 Newcastle 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿: 0,9%
#116 Sheffield Utd 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿: 0,0%

O Brighton de Graham Potter (na foto de destaque) é a equipa que mais tem feito uso da nova regra. Mais de dois terços dos seus pontapés de baliza são curtos, com Matt Ryan a jogar nos defesas centrais dentro da grande área. Uma enorme mudança em relação ao estilo de jogo do anterior treinador, Chris Hughton, demitido após o final da época passada.

Sem surpresa, o Manchester City de Guardiola aparece na segunda posição, mas há um detalhe importante. Olhando apenas os dez pontapés de baliza do City que acabaram já dentro do meio-campo adversário, o campeão inglês é, de longe, aquele que tem os pontapés de baliza longos… mais longos, com 71,1 metros de distância média. Aqui entra o muito importante pontapé de Ederson Moraes, capaz de dar à equipa uma variabilidade de soluções que não está ao alcance de todas.

Os pontapés de baliza de Ederson são os mais longos da Europa

Logo a seguir a Ederson aparece Dean Henderson, do Sheffield Utd, com 68,1 metros. Talvez por isso o Sheffield seja a única equipa na Europa que ainda não tentou um pontapé de baliza “dos novos”. Em Portugal, Ricardo Ferreira, do Portimonense, é o homem que tem o pontapé mais longo (66,9 metros).

Por ser um pouco redutor catalogar a primeira fase de construção de uma equipa apenas pela percentagem de pontapés de baliza que terminam dentro da área, iremos a partir daqui expandir essa métrica considerando todo o primeiro terço. Neste caso, são globalmente 41% os pontapés de baliza a terminar nessa zona, com Itália mais uma vez a tomar a liderança (52,4%). No entanto, Portugal (34,9%) acaba por ultrapassar a Espanha (32,0%) se expandirmos a zona de destino do primeiro passe. No que toca a equipas, a ordem fica assim:

#1 Bayern M. 🇩🇪: 91,8%
#2 Paris SG 🇫🇷: 86,4%
#3 Genoa 🇮🇹: 83,5%
#4 Juventus 🇮🇹: 81,3%
#5 Paderborn 🇩🇪: 78,4%
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#13 Benfica 🇵🇹: 70,7%
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#107 Boavista 🇵🇹: 12,4%
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#112 Valladolid 🇪🇸: 9,9%
#113 Getafe 🇪🇸: 8,0%
#114 Alavés 🇪🇸: 7,8%
#115 Eibar 🇪🇸: 6,4%
#116 Sheffield Utd 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿: 3,3%

A tentativa de jogar curto e apoiado por parte de algumas equipas tem por hábito trazer agarradas algumas vozes no sentido de criticar o excesso de risco tomado pelas mesmas. É verdade, quem corre mais riscos junto à sua baliza acaba por se expor mais ao erro e fica mais susceptível à pressão alta dos adversários. Existe uma correlação, apesar de pequena, entre a percentagem de pontapés de baliza curtos e a média de acções defensivas permitidas no primeiro terço aos adversários, a cada jogo.

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Há também, no entanto, vários casos de equipas que combinam essa mesma construção apoiada com poucas acções defensivas permitidas aos adversários em zonas recuadas. Mais do que dizermos que o sucesso vem agarrado a essa identidade de “posse”, pode dizer-se que o sucesso está na capacidade para conciliar essa identidade vincada com rotinas e processos bem trabalhados, que não exponham tanto a equipa ao erro.

Clubes como o Sporting de Braga em Portugal, ou Mónaco, Liverpool, Bayern e Manchester City nas outras Ligas, são equipas com percentagem de pontapés de baliza curtos acima da média, mas que ainda assim raramente são apanhadas em contra-pé na primeira fase de construção.

No pólo oposto podemos ver equipas como Tottenham, Bordeaux, Norwich, Bétis e Arsenal, que tentam sair a jogar com muita frequência mas que se expõem muito ao erro. Em todas elas identificamos facilmente, num passado recente, erros comprometedores que resultaram em golos sofridos.

Danny Ings desarma Lloris e marca

O caso do golo acima é paradigmático por ter acontecido contra uma das equipas que melhor pressionam na Europa. O Southampton de Ralph Hasenhüttl é a segunda formação da Premier League com mais acções defensivas no último terço (6,6 / jogo) e é um excelente exemplo de como, porventura, a primeira fase de construção também deve ter em conta as características do adversário.

Para perceber quais as equipas que melhor ajustam a sua saída à pressão alta dos adversário tivemos primeiro que identificar, para cada campeonato, quais os conjuntos que melhor pressionam no meio-campo contrário. Para isso utilizámos três métricas:

  • Acções defensivas no último terço
  • Perdas de posse no primeiro terço provocadas ao adversário
  • Eficácia de passe no meio-campo defensivo permitida ao adversário

Partindo daqui, as equipas foram divididas entre pressão alta muito intensa, média ou pouco intensa, para cada campeonato.

Pressão alta muito intensa:

  • Inglaterra 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿: Liverpool, Southampton, Man. City, Leicester, Everton e Man. Utd
  • Espanha 🇪🇸: Getafe, Eibar, Osasuna, Barcelona e Sevilla
  • Alemanha 🇩🇪: Leverkusen, E. Frankfurt, Wolfsburg, Bayern, Schalke e Mainz
  • Itália 🇮🇹: Juventus, Napoli, Torino, Sampdoria, Fiorentina, Atalanta, Inter
  • França 🇫🇷: Paris SG, Lille e Marseille
  • Portugal 🇵🇹: Porto, Sporting e Benfica

Pressão alta pouco intensa:

  • Inglaterra 🏴󠁧󠁢󠁥󠁮󠁧󠁿: Wolves, Newcastle, West Ham, Norwich, Bournemouth, Tottenham, Aston Villa e Crystal Palace
  • Espanha 🇪🇸: Betis, Valencia, Levante, Celta, Mallorca e Valladolid
  • Alemanha 🇩🇪: Hoffenheim, Augsburg, W. Bremen, Union Berlin, Hertha, Freiburg e Paderborn
  • Itália 🇮🇹: Lecce, SPAL, Parma, Udinese, Cagliari, Milan, Lazio
  • França 🇫🇷: Rennes, Angers, Nice, Dijon e Toulouse
  • Portugal 🇵🇹: Moreirense, Rio Ave, Tondela, Portimonense e Marítimo

É muito curioso verificar os resultados. O Reims da Ligue 1 é a equipa que mais adapta o seu modelo de acordo com o adversário, neste parâmetro. Em média a equipa treinada por David Guion bate 45,7% de pontapés de baliza curtos, mas esse número baixa para 13,8% contra as equipas de pressão muito intensa e sobe para 62,9% contra as equipas de pressão pouco intensa. Curiosamente, o Reims já defrontou as três formações do seu campeonato que cabem no primeiro grupo (PSG, Lille e Marseille) tendo vencido os três jogos por 2-0, dois deles fora de casa.

Em Portugal há dois casos interessantes em extremos opostos nesta tabela de variabilidade. O Gil Vicente de Vítor Oliveira tem 37,9% de pontapés de baliza curtos, mas contra Porto e Benfica bateu apenas 6,3% desta forma, subindo para 48,1% contra as equipas de pressão pouco intensa. Já o Famalicão faz precisamente o contrário, e apostou muito mais na saída curta (68%) nos jogos que fez no Dragão e em Alvalade. Contra adversários de pressão pouco intensa acabou por bater apenas 25% dos pontapés de baliza para dentro do primeiro terço.

Apesar do cálculo deste grau de adaptabilidade ficar mais consistente com o avançar da época – o Sporting por exemplo ainda não defrontou equipas de pressão alta muito intensa na Liga NOS -, já se podem constatar algumas tendências. As equipas com maior grau de adaptabilidade na primeira fase de construção tendem a sofrer menos golos de bola corrida a cada jogo.

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Há excepções, claro, pois a segurança defensiva está longe de depender apenas do que se faz na primeira fase de construção, mas até por isso é interessante a relação entre as duas variáveis.

Onde não ficam dúvidas é no pressuposto inicial. A nova regra relativa aos pontapés de baliza veio não só tornar este momento num dos mais importantes do jogo, como numa excelente forma de, com o acumular de alguns jogos, perceber como pensam e o que querem cada um dos treinadores para as suas equipas.

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