A Liga dos caprichos

Estádio Vazio 700

Anos após acaloradas discussões, estudos, evidências de que a dimensão de Portugal, do mercado em torno do futebol e das capacidades financeiras das nossas equipas não permitiam que a Liga portuguesa fosse extensa, eis que, num passe de mágica, o campeonato cá do burgo passou de 16 para 18 equipas.

Fruto das promessas do antigo presidente da Liga, Mário Figueiredo – que já tinha seduzido os clubes com a questão dos direitos televisivos -, 2014/15 começou com mais duas equipas, após uma conveniente ordem para reintegrar o Boavista no principal escalão do futebol luso. Anos e anos de luta dos “axadrezados” deram frutos para o clube e tudo foi de arrasto. Os emblemas mais pequenos aproveitaram o embalo e conseguiram o tão desejado alargamento, que apenas a desmedida ambição e megalomania de alguns dirigentes consegue justificar, perante os euros que chegam de patrocínios, televisões, etc. – muito mais do que qualquer segunda Liga consegue atrair.

Tudo muito bonito e em paz. Até já há uma nova Direcção da Liga, com o beneplácito dos grandes (pelo menos de dois), empenhada em resolver os problemas financeiros do organismo. Mas o que resta de tudo? Que futebol temos? Melhorou alguma coisa?

Nada. Rigorosamente nada. Continuamos a ter guerrilhas entre dirigentes, acusações, erros de arbitragem, estádios (quase) vazios, blackouts, nenhuma visão a longo prazo, jogadores de qualidade pouco atraídos por estas paragens e os que cá estão com ideias de “dar o salto”. Da época passada para esta o número médio de assistências por partida manteve-se sensivelmente idêntico – cerca de 9982 espectadores por jogo há um ano, à 14ª jornada, para os cerca de 10.347 agora, segundo os números da Liga de Clubes. O modelo organizativo e competitivo da nossa Liga não sofreu mudanças estruturais profundas, que atraiam os adeptos aos estádios, patrocinadores, dinheiro… Olhamos para a maior parte dos jogos da prova e, a acompanhar bancadas despidas, continuamos a assistir a espectáculos pobres, equipas de nível muito baixo, jogadores de qualidade duvidosa, mentalidade competitiva digna dos anos 80, desmotivação até dos que pisam os relvados.

Neste momento há 18 equipas a fazer pela vida. Mais duas que na época passada, e esse aumento apenas trouxe mais jogos pobres, desinteressantes, menor qualidade competitiva. No fundo, alguns dirigentes ficaram felizes, os seus desejos satisfeitos, e mais nada. E no fundo, o que tem sido o futebol português nas últimas décadas senão uma arena de satisfação de caprichos do dirigismo?