As capitais ibéricas ficaram ligadas, no último sábado, por pontos futebolisticamente comuns. Lisboa e Madrid assistiram, ainda que com dimensões diferentes, à queda de Benfica e Real Madrid, vergados por resultados com muito maior expressão que o seu valor “facial” e que parecem traduzir algo mais profundo do que apenas um mau momento de “forma”.

Foco-me no Benfica, um caso porventura bem mais surpreendente do que o de um Real que vai habituando os seus adeptos a muita “parra” (leia-se investimento) e pouca “uva” (títulos). Há menos de seis meses os “encarnados” eram analisados, de forma transversal, à luz da quebra da hegemonia “azul-e-branca”. O Benfica atingia o bicampeonato e, para a crítica (e provavelmente maioria dos adeptos), abria-se a perspectiva de as “águias” reassumirem um domínio do futebol “luso” há muito perdido, sobretudo quando pareciam ter ultrapassado com nota máxima e “louvor” as dificuldades geradas pela queda do BES, no defeso que lançou a época 2014/15. Passado menos de um ano o ponto-de-vista com que o Benfica é discutido é bastante diferente e mais sombrio: apesar de uma primeira fase (atipicamente) positiva na Europa, o Benfica interno encontra-se já fora de prova na Taça e perigosamente longe da liderança de um campeonato que se esperava muito disputado a três. O que falhou?

Ainda é cedo para acentuados dramatismos no reino da “águia”, que não aqueles que decorrem dos três duelos com um adversário cuja rivalidade foi consideravelmente acentuada esta época com o “folhetim” Jesus. Mas sendo cedo para classificar a época “encarnada” de falhada, já não será precipitado apontar pelo menos três factores (os quais classificaremos de “falhanços) que vão contribuindo para que essa ideia se possa concretizar.

O FALHANÇO DE GABINETE

Luis Filipe Vieira
Luis Filipe Vieira (foto: J. Trindade)

O primeiro “falhanço”, já aqui previsto, prende-se com a forma como Luís Filipe Vieira geriu a saída e substituição de Jorge Jesus. O que não (ou mal) calculou. O que não previu. E basicamente tudo o que daí tem advindo. Não vale a pena aprofundar ainda mais um tema cujo diagnóstico está há muito feito mas cujas consequências se vão somando.

Outra dimensão que aparentemente constitui um falhanço é a forma como o Benfica não tem reagido a um ataque cerrado por parte do Sporting. Se por um lado poderia saudar-se o não alimentar de um clima de “guerrilha” que parece remeter para a realidade que o futebol português viveu há cerca de três décadas, a verdade é que a opção assumida pelo líder “encarnado”, a de “responder nos locais próprios”, tarda em ganhar qualquer expressão. Se o “local próprio” que Vieira perspectivou era o relvado, a resposta não existiu. Se, por outro lado, o Benfica espera responder em tribunal, provavelmente o eventual “ajuste de contas” chegará tão tardiamente (como é hábito em Portugal) que dificilmente ainda surtirá qualquer efeito junto de jogadores, técnicos e adeptos. Numa época que previmos “acesa” fora das quatro linhas, dada a enorme urgência que Benfica, Porto e Sporting sentiriam em ganhar, os “encarnados” parecem os mais amorfos, por oposição a um Sporting que, concorde-se ou não com o estilo, não parece querer deixar passar um dia sem disparar uma nova “salva” em direcção ao rival.

> NA PRÓXIMA PÁGINA: O MERCADO,O BANCO E OS NÚMEROS DE 300 MINUTOS DE DERBY