A solução (incompleta) do fim dos “fundos”

O Diário de Notícias publicou recentemente um trabalho interessante sobre uma das temáticas que, nos últimos anos, maior discussão gera no futebol português: os “fundos”, enquanto entidades mais ou menos anónimas cuja participação nos direitos económicos dos jogadores se torna evidente em três momentos fundamentais da vida de um clube; na aquisição do jogador, na venda ou compra, total ou parcial, dos seus direitos económicos enquanto alinha pelo referido emblema (veja-se o exemplo de Yacine Brahimi, que um dia após a sua contratação viu 80% dos seus direitos económicos serem vendidos pelo FCP) e no momento de ser transferido para outro destino.

A reacção mais popular ao tema, mas nem sempre a mais bem informada, aponta invariavelmente para o lado obscuro, imoral (ou mesmo ilegal) deste tipo de operações, como um exemplo do lado negativo do “futebol negócio” dos dias de hoje. Em boa parte esta sabedoria popular não anda longe da verdade, pelo simples facto de que os fundos, tal como tantas outras coisas intra e extra futebol, tanto podem servir o bem como o mal.

Comecemos pelo mal, para de imediato exorcizar os demónios. Os fundos permitem, de facto, manobras pouco transparentes e, em alguns contextos ilícitas, no mundo do futebol, sendo o mais evidente o facto de permitirem aos intervenientes que decidem um dado negócio (ou um conjunto deles) beneficiarem economicamente do mesmo, através da sua participação (ou de elementos ou sociedades próximas) nos referidos fundos. É uma situação de fiscalização muito difícil mas possível. Haja vontade e concertação de esforços de modo a contemplar o carácter global de qualquer negócio nos dias que correm e certamente estaremos mais próximos de erradicar este (e outros) exemplo de utilização errada desta ferramenta.

Mas os fundos também servem o bem. Neste caso a competitividade e o dinamismo do futebol. O caso português é especialmente paradigmático desta situação. Como o levantamento referido no início deste artigo ilustra (e ilustraria de igual forma caso tivesse sido feito há um, três ou cinco anos atrás) os fundos permitiram aos clubes portugueses usufruir da presença (e valorização) de jogadores sem os quais não poderiam contar. Desse usufruto resultaram diversas vantagens para o futebol português: uma maior competitividade internacional (fundamental para a economia do futebol nacional, através sobretudo das participações regulares e em número na Liga dos Campeões) e uma elevada rentabilidade económica (segundo análise que efectuei há alguns meses e à qual regressarei no GoalPoint, Portugal era há bem pouco tempo, proporcionalmente, o mercado mais rentável do Mundo na compra e venda de jogadores, acima já do brasileiro), factores que acabaram por beneficiar todos os intervenientes no fenómeno.

Como sucede em qualquer elemento que tem aspectos positivos e negativos, a discussão devia centrar-se não no “fim dos fundos”, como surge na agenda da UEFA, mas sim na sua regulamentação e fiscalização efectiva, aproveitando o que de bom trazem ao futebol europeu e procurando expurgar o que de mau permitem realizar. Isto porque uma coisa é clara: com o fim dos fundos, quem estiver por mal no futebol, encontrará, como sempre encontrou, outros caminhos para contornar a lei (o futebol alemão não permite o recurso aos “fundos” e nem por isso Uli Hoeness escapou a uma condenção por evasão fiscal). Já o que de bom permitem os fundos no futebol europeu será muito difícil de reproduzir. Os pobres ficarão mais pobres, sem capacidade de competir com os clubes cuja realidade económica (e passividade recente da UEFA face à forma como são financiados) lhes permite nem sequer necessitarem desta ferramenta de modo a construírem plantéis de capacidade inalcançável e custos obscenos.

Determinar assim o fim dos “fundos” poderá resolver uma parte dos problemas, mas acentuará outro com o qual o futebol europeu se debate desde o fim da lei Bosman: o da competitividade num contexto desportivo que, ao contrário de outros (ex. NBA) não promove um contexto de equilíbrio competitivo. Talvez faça mais sentido pensar toda a estrutura, antes de lhe retirar uma “roldana” que, apesar de fissurada, ainda lhe permite o necessário “movimento giratório” competitivo.