A carreira de João Cancelo tem sido de verdadeira ascensão, firme e consistente ao longo das últimas épocas. Um jogador nem sempre consensual, pelo seu estilo muito ofensivo, para muitos em excesso, para a posição que ocupa, a verdade é que o percurso do jogador de 24 anos tem calado muitos dos seus críticos e reforçado a previsão de muitos que o apontavam como futuro lateral-direito da Selecção Nacional.

O último amigável contra a Croácia e o jogo da Liga das Nações frente à Itália podem não ser ainda indicativos de que Cancelo agarrou o lugar no lado direito da defesa dos campeões da Europa, mesmo sendo um jogador que claramente agrada a Fernando Santos. Porém, as suas prestações não deixaram de impressionar, em especial contra Itália – quando foi o melhor português –, país onde tem desenvolvido ultimamente o seu futebol. Neste desafio em particular, Cancelo mostrou algo que nem sempre lhe é apontado como sendo o seu forte, a capacidade defensiva.

Ante a Itália, Cancelo registou um número elevado de acções defensivas, nada menos que 16, entre outros momentos, como as recuperações de posse (7). Normalmente o lateral destaca-se bem mais nos lances ofensivos, mas desta feita esteve muito certo na retaguarda, arrancando mesmo quatro desarmes e cinco intercepções. Será que a evolução de Cancelo tem-no tornado um jogador diferente e mais completo? Estará a sua carreira italiana a conferir-lhe outras capacidades? Nada como olhar para as suas últimas temporadas, do Valência, entre 2014 e 2017, até à sua aventura em Itália, na época passada, no Inter, antes de a Juventus pagar €40M pelo passe do português.

Valência 2014/15Valência 2015/16Valência 2016/17Inter 2017/18
Minutos jogados524202624331861
Ocas. flagrantes criadas p/90m0,00,180,150,15
Passes p/ finalização p/90m1,00,70,81,7
Cruzamentos p/90m5,53,33,55,6
Passes p/90m37,636,036,661,9
% eficácia de passe78%79%73%84%
Passes próprio 1/2 campo p/90m17,315,214,326,2
Passes 1/2 campo contrário p/90m20,320,822,335,7
Passes último 1/3 p/90m13,211,913,120,0
Desarmes p/90m2,92,73,12,0
% desarmes falhados22,7%23,8%25,2%37,3%
Intercepções p/90m2,23,02,11,7
Recuperações de posse p/90m4,15,46,66,3

Fonte: GoalPoint/Opta

Se há diferenças visíveis no futebol de Cancelo, estas não aparentam ser em termos de produção defensiva. Se ante Itália o lateral esteve muito bem neste capítulo, já no amigável anterior, frente à Croácia, mostrou-se um jogador à imagem do que o era nas outras temporadas, com apenas seis acções defensivas, duas delas bloqueios de cruzamento. Assim sendo, em que é que João Cancelo mudou?

A olhar para os números da tabela em cima, é legítimo afirmar que o antigo jogador do Benfica, Valência e Inter está mais maduro e tal nota-se na forma como “tempera” o seu futebol. Se antes comportava-se como um autêntico extremo, ao ponto de marcar três golos nas primeiras três internacionalizações pelo nosso país, nota-se na evolução do lateral uma maior consciência da necessidade de jogar colectivamente nos momentos ofensivos, com vista a servir os companheiros de equipa. Cancelo está menos intenso na procura da baliza, o que se nota no aumento das ocasiões flagrantes criadas e passes para finalização.

Mas a principal alteração que se vê no jogo do português reflecte-se nos números de passe. Na última temporada, em Itália, aumentou sobremaneira o número de passes que realiza a cada 90 minutos, quase o dobro, e em todos os sectores do terreno, inclusive no seu próprio meio-campo – demonstração de mais cautelas a subir no relvado. E esse facto não foi acompanhado por um decréscimo na eficácia de passe. Aliás, a qualidade das entregas até melhorou.

Por outro lado, Cancelo praticamente duplicou o número de passes para os lados na última época (41,4 a cada 90 minutos), o que vem reforçar a ideia de que a sua vertigem ofensiva diminuiu, aumentando a preocupação com a manutenção de posse de bola e a melhoria das próprias decisões. Este facto nota-se também num valor defensivo. Se é verdade que em termos de acções defensivas não se verifica nenhuma melhoria na quantidade e qualidade – até aumentou a percentagem de desarmes falhados, para 37,3% -, os bons números de recuperações de posse e de bloqueios de cruzamento indicam uma preocupação crescente com o posicionamento em campo, com benefícios claros.

À luz destes números, é clara a melhoria no futebol de João Cancelo, algo a que não deverá ser alheio o facto de jogar em Itália, um campeonato onde as questões tácticas e estratégicas são de uma importância bem acima de outras Ligas europeias. Será o suficiente para que Cancelo se torne no lateral-direito titular da Selecção?