A 23ª jornada da Liga NOS traz-nos um sempre apetecível “clássico” entre FC Porto e Sporting CP, no Estádio do Dragão, este domingo (19H15). Em jogo está não apenas a honra, mas a luta pelo segundo lugar, bem como pelo primeiro – embora o Benfica assista ao jogo “de cadeirão”, como se costuma dizer.

Cinco pontos separam o segundo classificado Porto do terceiro Sporting, mas nas suas identidades há muito mais a distanciar os dois conjuntos. Nada melhor do que olhar para o que as equipas em contenda fizeram nas primeiras 22 jornadas, os números, detalhes, nuances, que ajudem a perceber para onde poderá tender a partida, e de que forma. Um olhar naturalmente subjectivo, mas para números objectivos, que reflectem a realidade dos conjuntos comandados por Julen Lopetegui e Marco Silva.

Os “dragões” chegam a este jogo com mais vitórias, mais golos marcados e a defesa menos batida – a par do Benfica. Os “leões” surgem com melhores valores noutros aspectos que, no final das contas, não lhes têm trazido tanta recompensa. Mas como já vimos esta época, nomeadamente no triunfo leonino por 3-1 na Taça de Portugal, no Porto, por vezes é a natureza de certos detalhes, em comparação, com outros que faz a diferença. Em jogo no domingo estará um tira-teimas para se saber se “a paciência é uma virtude”, se “depressa e bem não há quem”, ou se simplesmente o futebol está noutra dimensão de realidade.

PORTO DOMINADOR

Ponto assente… o FC Porto gosta de ter bola, dominar, trocar o esférico, esperar pelo momento certo para romper as defesas adversárias. Olhando para os números fica evidente a opção em relação ao seu adversário. Mais posse de bola que o Sporting (68,6% vs 61,4%), muitos mais passes por jogo (568 vs 460) e com uma eficácia superior (83,8% vs 78,7%). Mas é também no passe que se notam diferenças que explicam muito da filosofia das equipas. Os “dragões” são pacientes, levam o seu tempo a progredir no terreno, pelo que 46,6% do total dos seus passes são efectuados ainda no seu meio-campo defensivo (37,7% do Sporting). Ao invés, os de Alvalade efectuam 62,3% dos seus passes no meio-campo contrário (53,4% do Porto), sendo 32,4% no último terço do terreno (27,8%).

Onde é que estes dados encaixam na superioridade portista em termos de golos marcados? Temos de olhar para as estatísticas da eficácia na frente de ataque. O Sporting chega mais depressa à baliza contrária, com menos passes, pelo que quando o consegue tem mais espaços para explorar, não espantando por isso que remate mais à baliza e com mais enquadramento (38,6% para 37,1%). O problema leonino prende-se com o aproveitamento em golo. Os 11,4% do Sporting não chegam para rivalizar com os 14,3% do FC Porto (parece uma pequena diferença, mas não é na prática). Em suma, o Porto demora mais a criar perigo, remata menos e pior, mas quando o faz consegue-o com resultados bem melhores – não será, certamente, alheio a este facto o excelente aproveitamento de Jackson Martínez em frente à baliza, de cerca e 20,2%.

PortoSporting
Toques p/jg785,3684,5
% Passes m/c defensivo46,6%37,7%
% Passes m/c ofensivo53,4%62,3%
% Passes último 1/327,8%32,4%
% Ocasiões bola corrida85,2%87,7%
% Ocasiões bola parada13,7%11,9%
% Sucesso drible41,5%36,5%

SPORTING COM CABEÇA

O Sporting, por seu turno, tem outras armas, algumas delas bem utilizadas no jogo da Taça de Portugal, no Dragão, e que poderão voltar a ser exploradas, como pode conferir na nossa análise táctica ao “clássico”. Uma delas será, precisamente, e como falámos acima, a velocidade com que chega junto da área contrária, pelas alas, zona que o FC Porto por vezes descuida. Olhando para a forma como as equipas criam perigo, é notória a apetência leonina por construir jogo em bola corrida. Não só faz mais passes para ocasião que o Porto (12,6 vs 12 por partida), como 87,7% das suas oportunidades são construídas em futebol corrido (85,2% do FCP), enquanto os portistas criam 13,7% das suas de bola parada (11,9% do SCP).

Contraditoriamente, e tendo em conta que as bolas paradas levam muitas vezes a lances pelo ar, o Sporting soma já oito golos de cabeça na Liga NOS (19% do total), para apenas três dos “dragões” (5,8%) – muito provavelmente a capacidade portista pelo ar verifica-se mais a defender que a atacar, pois ainda assim o Porto é melhor nos lances aéreos, ganhando 55,5% para 49,3% do seu adversário; o Sporting superioriza-se mais à frente, tendo em conta que 10% das assistências leoninas foram de bola parada, para 3,1% do seu opositor.

Os “azuis-e-brancos” ganham, por seu turno, nos dribles. Tentam mais por jogo e têm mais sucesso, 41,5% para apenas 36,5% do Sporting, o que explica em grande parte o facto de os “leões” perderem mais bolas que os “dragões” (165,3 para 152,4 por jogo) – o drible está directamente relacionado com as perdas de bola, pois são realizadas em grande parte nas alas e são os extremos e laterais os principais responsáveis pelos valores de perda.

PORTO MAIS SÓLIDO

PortoSporting
Perdas de bola p/jg152,4165,3
% Desarmes conseguidos79,3%78,8%
Alívios p/jgo13,3
16,1
Intercepções p/jg18,5
17,7
Erros dão golo32
Faltas sofridas p/jg14,312,6
Faltas cometidas p/jg14,515,3
Cartões vermelhos26

A defender o Porto tem números bem melhores que o Sporting. Os jogadores leoninos são mais afoitos no alívio (16,1 por jogo, o que constitui 31,5% do global das suas acções defensivas), enquanto os comandados de Lopetegui são mais criteriosos, fazendo mais intercepções (18,5) e desarmes (17,6), o que denota mais qualidade a defender. Talvez por isso permitam menos remates à sua baliza que os lisboetas (8,1 para 9,1 por encontro) e Rui Patrício seja obrigado a mais intervenções que o seu adversário na baliza portista (47 defesas contra 41).

E também explica o registo disciplinar mais negro por parte dos sportinguistas, que levam já seis cartões vermelhos contra dois dos portistas, e também mais cartões amarelos (53-43).

O QUE ESPERAR DO CLÁSSICO

O “Leão da Estrela” julgava saber o resultado do Porto-Sporting do filme, com António Silva. Nós não fazemos ideia. Um empate 1-1 na primeira volta do campeonato (tal como na primeira parte do filme), uma vitória por 3-1 para o Sporting no Dragão para a Taça. Estes são os resultados que, olhando para os números aqui apresentados das duas equipas na Liga, talvez não fossem os mais lógicos. Mas lógica é algo a que o futebol não obedece.

A força do Porto no domínio de jogo pode ser, também, a causa para uma fraqueza – espaços nas laterais – que os pontos fortes do Sporting podem aproveitar, nomeadamente a velocidade nas transições. Ou simplesmente os “dragões” poderão potenciar a sua posse de bola e o seu aproveitamento de remates em golo para decidir a contenda, marcando cedo e obrigando os “leões” a atacar. Certo é que os minutos iniciais poderão ser definidores do desfecho deste “clássico”.

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