Depois dos 40, assinar uma análise do FIFA 19 já exige uma razoável dose de “não nos levarmos demasiado a sério”. A verdade é que, entre os guilty pleasures ligados ao futebol digital, o Football Manager é bem mais aceite como “normal” na minha faixa etária do que propriamente o popular videojogo da EA Sports.

Com muito por fazer e filhos para criar, os videojogos reduzem-se normalmente a dois títulos por ano para mim e um deles é invariavelmente o FIFA (o outro, a título de curiosidade, será Red Dead Redemption 2). E está feito. Mesmo que pareça estranho ainda “perder tempo” com um videojogo ou outro, com tanta estatística por fazer, considero esse tempo de lazer bem mais empregue (e relacionado) do que aturar uma “Anatomia de Grey” ou até um qualquer programa de comentário futebolístico nacional, no que ao “tempo de sofá” diz respeito. Bom, mas vamos ao jogo.

Que trazes de novo, FIFA?

Quem nunca teve uma “mais-que-tudo” que, perante uma nova versão de FIFA, disse que “é sempre igual”? Pois é, esta tendência, que já havia abordado noutros anos, extendeu-se agora a muitos jogadores, mas arrisco dizer que aqueles que o dizem em relação ao FIFA 19 serão jogadores ocasionais ou alheios às mecânicas mais elaboradas do videojogo

A jogabilidade (que ao fim do dia é o que mais importa) da nova versão está diferente e para melhor. Nota-se maior exigência ao nível do passe e do controlo de bola e menor vantagem para a velocidade, com a força individual dos jogadores a continuar a dar cartas, agora talvez ainda mais, dadas as frequentes “batalhas” (50/50) que sucedem numa partida. Ainda é possível “carregar no pedal” e promover um jogo “pingue-pongue” mas para que tal funcione o nível de dificuldade (ou mestria do adversário) terá de ser baixa; senão, não irá compensar.

Vão provavelmente encontrar muitas reviews que focam a atenção noutras novidades listadas pela EA, como o timed shot, as alterações ao driven shot e ao first touch, mas tudo isso é secundário face ao que referi anteriormente: um jogo mais lento, com maior exigência no passe logo, mais realista sem sair do domínio do que deve ser um jogo.

Se a isso aliarmos a nova flexibilidade táctica e estratégica apresentada pela EA (que no entanto não entra em excessos que ostracizem quem pretende apenas ligar o comando e jogar), há muito caminho a percorrer de modo a descobrir novas formas de vencer, ainda que o jogo pareça, às nossas mais-que-tudo (e a alguns jogadores)… o mesmo.

Mais coisas boas…

O grande enfoque da comunicação do FIFA 19 assenta num mérito cujo “estardalhaço” é compreensível: a EA conseguiu (finalmente) arrecadar as licenças das provas europeias de clubes e centraliza nesse facto muita da sua promoção. Mas existem outras novidades igualmente dignas de registo (e elogio), desde a criação de diversos cenários para a disputa de partidas com amigos à possibilidade de poder passar a arquivar o nosso desempenho estatístico (e o deles), passando por novas licenças, como a Liga chinesa.

Também no FUT (Ultimate Team), claramente a maior prioridade comercial da EA para o FIFA 19, surgem novidades, com o aparecimento do modelo Division Rivals que vem agitar a filosofia da mais rentável fonte de receita do universo FIFA. Uma das minhas principais críticas relativamente ao FUT em edições anteriores prendia-se com as claras diferenças de jogabilidade (mais simplificada e consequentemente mais veloz) do FUT face aos modos offline.

No momento em que escrevo esta análise, e apesar de me parecer que continua a existir diferenças com prejuízo para o modo online, ainda não concluí se serão tão profundas como no passado, sobretudo recordando-me do evitável FUT dedicado ao Mundial 2018. Darei uma oportunidade, desta feita, mesmo que não seja esse o modo da minha preferência. Afinal não há FUT que me dê mais gozo do que um meeting com amigos ou até um modo carreira co-op durante o qual vamos inventando, de viva voz, as desgraças da vida pessoal dos jogadores que lançamos no estrelato, com muita gargalhada e uma cerveja à mão de semear.

…Mas nem tudo são rosas

Com o foco da aposta da EA nas novas licenças UEFA e no contínuo “engordar” do FUT, outros modos de jogo ficaram para trás, nomeadamente o modo Carreira e o Pro Clubs, por exemplo. O curioso é que estes são modos extremamente populares, um pelo conteúdo que sustenta no youtube, o outro por alicerçar muitas das competições digitais oficiais que vão proliferando como cogumelos.

Incluo também o modo The Journey, no qual desenvolvemos as aventuras de Alex Hunter, famíliares e amigos, no contexto mais “cinzento” desta versão. Aquele que foi um modo inovador aquando do seu lançamento, já não surpreende, tornando-se até “chato” pela sequência prevísível (treino, jogo, cutscene, treino, jogo…). Está a pedir reformulação.

Também do ponto de vista gráfico o jogo revela pouca evolução, algo que poderá ter explicação técnica, visto que normalmente esses “saltos” só sucedem com mudanças de motor gráfico de jogo e/ou de plataforma. Mais vale não estragar o que está bom do que inventar algo mau, reconhecendo que a apresentação de FIFA já era líder.

Conclusão?

Apesar de tudo… jogão. E quem o diz tem anos (décadas) dos jogos que foram dominando o género ao longo dos tempos, desde o Match Day e Kick-off, aos ISS Pro, percursores do PES, passando por este enquanto foi o melhor, e terminando no FIFA de há uns (longos) anos para cá. As inovações não são tão evidentes como antigamente, mas a continua melhoria é bem-vinda, por oposição a tempos idos (e outros géneros), nos quais os jogos se despistavam na curva da edição seguinte.

A edição 2019 de FIFA acrescenta qualidade, uma jogabilidade mais interessante e novas formas de nos divertirmos online e offline, com amigos ao lado ou à distância, seja qual for o nosso grau de envolvimento com o jogo. Os pontos de melhoria referidos acabam por não ser determinantes, ao não assentarem em questões centrais do jogo mas sim em temas que fariam da nova versão um lançamento ainda mais memorável. Tal com dizemos muitas vezes no futebol… “talvez para ano”. Até lá vai valer a pena jogar FIFA 19. Vai um meeting?

REVISÃO GERAL
Jogabilidade
9.5
Apresentação
9.5
Novidades
9.5
Online
9.0
Pedro Ferreira
Co-fundador da GoalPoint Partners, em 2014. Desempenhou entre 2011 e 2013 os cargos de Secretário-Geral da SAD do Sporting Clube de Portugal, Director da Equipa B e da Academia Sporting.