Com o lançamento de uma nova edição do FIFA chega a hora de, apesar da provecta idade, partilhar a minha opinião sobre a versão “20” da histórica série da Electronic Arts. Refiro a idade pois a mesma constitui, ao mesmo tempo, uma fraqueza e um ponto forte. Os mais jovens tenderão a olhá-la como algo que me distancia do “core player” actual do jogo, até pelos meus hábitos específicos relativamente ao mesmo, que irei clarificar. Já os jogadores mais “experientes” poderão encarar a minha senioridade como garantia de um ponto de vista diferente. Mas antes de dizer coisas boas (e menos boas) sobre o novo FIFA, destaco algumas notas introdutórias que me parecem importantes na hora de entender de onde vem e para onde vai o FIFA.

Em primeiro lugar convém ter noção de que uma “review” de um videojogo não tem nem deve ter, actualmente, a importância que tinha há cinco, dez… 20 anos. Antigamente uma análise de lançamento de um jogo não corria o risco que corre hoje de se tornar obsoleta de um dia para o outro. Com o advento do online e dos patches rapidamente disponibilizados pelas editoras, um título pode sofrer uma actualização (para melhor ou pior) muito rapidamente. Esse é, aliás, o caso cada vez mais comum na série FIFA, sendo que neste ano ainda nem 24 horas tinham passado desde o lançamento e já a EA prometia enfrentar rapidamente algumas das razões de queixa da comunidade.

Em segundo lugar importa encarar a realidade que caracteriza o FIFA de hoje e o define como um jogo de dois mundos: o offline clássico, que reúne amigos num serão ou entretém adeptos do modo carreira, e o online, em especial o FUT, que reúne cada vez mais, não só a maioria dos “viciados” na série, como também, aparentemente, a própria Electronic Arts. Mas já lá iremos.

As coisas boas…

Apesar da mesma estética de sempre, que suspeito não sofrerá alterações até ao lançamento da próxima geração de consolas, o FIFA 20 está diferente no que mais importa ou devia importar: a jogabilidade. As mudanças são tão mais ténues quanto menor for o hábito de jogar a série, mas, para quem dedica um número razoável de horas (e no meu caso centro-me na experiência offline como ambiente de avaliação), as diferenças são perceptíveis. Da ligeira redução de velocidade da acção ao maior equilíbrio entre o espaço/pressão existente no terço intermédio versus as dificuldades sentidas no último terço, as mudanças mais notórias prometem concorrer para um jogo mais interessante e ligeiramente menos “arcadey”.

Mas nem tudo o que muda agradará a todos, sendo que a aparentemente demasiado vincada redução da eficácia dos cabeceamentos, ofensivos e defensivos, promete frustrar alguns jogadores, numa área em que a EA terá ido longe demais mas na qual já afirmou não ter intenções de mexer.

As melhorias não se ficam pela jogabilidade. O novo modo VOLTA apresenta-se como uma agradável inovação, sobretudo tendo em conta a estagnação do modo “The Journey”, restando confirmar se tem capacidade para se afirmar como um modo duradoiro ou apenas uma novidade passageira. O próprio modo Ultima Team traz muitas novidades, a maioria positivas, sendo estas as mais expectáveis, sendo este não só o modo que mantém os “FIFeiros” no jogo por mais tempo, como também aquele que se tornou um negócio dentro do negócio para a Electronic Arts.

…e o que podia ser bem melhor

A História do FIFA divide-se incontornavelmente em “antes do UT” e “depois do UT”. O modo de jogo lançado pela EA em 2009 mudou não só o curso do jogo mas também o rumo da “economia” dos videojogos, um tema que anima e divide indústria e gamers actualmente. Para uns a criação da Electronic Arts será vista como uma bênção, e a razão principal pela qual correm a iniciar o seu ano FIFA. Para outros o Ultimate Team é sinónimo de consequências negativas e estagnação em tudo o resto, com a EA a dar atenção quase exclusiva à sua “mina de ouro”.

Esta divisão acaba por separar também quem considera o FIFA 20 uma melhoria face à edição 2019 ou mesmo “o melhor FIFA de todos tempos” e quem vê na última edição a confirmação de que a EA vai deixando quase tudo para trás, com excepção do seu modo mais popular e rentável.

Tendo em conta os meus hábitos FIFA actuais, tendo a sentir-me mais próximo do segundo grupo. Sendo o FUT um “vício” incompatível com outras prioridades da minha vida, e detentor nas últimas versões de uma jogabilidade simplificada (por comparação com os modos offline) que não me agrada, acabo por concluir que as ténues melhorias de jogabilidade, aliadas a uma tentativa até agora totalmente falhada de inovar o modo carreira (massacrado por “bugs” na versão de lançamento), não são suficientes para considerar o FIFA 20 um passo em frente.

Para lá deste desequilíbrio central, entre inovação FUT e tudo o resto, identifico outros pontos que pedem melhorias, desde a forma demasiado errática como os guarda-redes abordam algumas bolas, oferecendo “dropped balls” com demasiada facilidade, aos remates fulminantes que arrastam adversários, pormenores que certamente serão afinados em futuras actualizações.

Custa-me, por fim compreender que, chegados à terceira edição de FIFA com icons  históricos licenciados, ainda não seja possível ao jogador offline usufruir dos mesmos, fora do universo FUT, seja em partidas offline ou no modo carreira.

A época ainda agora começou

O lado positivo do risco desta análise se tornar rapidamente obsoleta é a já referida oportunidade que a EA terá de corrigir rapidamente muitos dos pontos negativos que aqui identifico, ainda na versão recém-lançada.

Por outro lado não me parece fazer sentido perder muito tempo censurando a importância que o modo FUT ganhou na estratégia da EA. O mercado assim o dita, certamente os números de jogadores que consomem quase exclusivamente esse modo de jogo são avassaladores. Se a somar a isto tivermos em conta a era eSports em que vivemos, em crescendo, a importância de FUT é inevitável e não me parece vir a decrescer em próximas edições.

Resta às “minorias FIFA”, nas quais me inscrevo, esperar que a EA mostre não só a capacidade de corrigir algumas falhas gritantes, na jogabilidade e noutros modos de jogo, como também encontrar espaço para reais melhorias e inovações, noutras vertentes que o jogo oferece para lá do incontornável FUT, em próximas edições.

REVISÃO GERAL
Jogabilidade
7.5
Apresentação
7.5
Modos offline
4.0
Modos online
8.5
Novidades
6.5
Pedro Cunha Ferreira
Co-fundador da GoalPoint Partners, em 2014. Desempenhou entre 2011 e 2013 os cargos de Secretário-Geral da SAD do Sporting Clube de Portugal, Director da Equipa B e da Academia Sporting.