Análise: O “leão” irreverente, a “águia” à italiana

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O derby lisboeta de domingo (20h00) entre Sporting CP e SL Benfica, no Estádio José Alvalade, encerra contornos de potencialmente decisivo para o desenrolar da Liga Portugal. Se há quem diga que os campeonatos decidem-se nos jogos com os “pequenos”, é certo também que, nos últimos anos, muitos têm sido os exemplos de encontros entre “grandes” que definiram o desfecho da prova, no imediato ou nos efeitos a longo prazo.

Sporting e Benfica chegam à 20ª jornada separados por sete pontos – com os homens da Luz na liderança da prova e os de Alvalade em terceiro lugar – e um triunfo dos visitantes praticamente coloca os anfitriões fora da corrida pelo título. Um empate aproxima o segundo classificado FC Porto da liderança (fica a quatro pontos) e um triunfo dos comandados de Marco Silva baralha totalmente as contas do título. Importa, por isso, olhar mais aprofundadamente para as duas equipas, para os números do seu desempenho nas primeiras 19 jornadas, os seus “tiques”, particularidades, filosofia e pontos fortes e fracos.

Clique na infografia para ampliar (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)
Clique na infografia para ampliar (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)

Num ponto as duas equipas não mudaram muito desde o primeiro comparativo que o GoalPoint realizou no fim do mês de Agosto de 2014: o Sporting continua a ser a equipa mais rematadora, o Benfica a mais eficiente nesse capítulo. Durante o desenrolar da prova, os “encarnados” conseguiram, no entanto, melhorar num aspecto em que os “leões” ainda sentem dificuldades, a solidez defensiva – a equipa de Jorge jesus é a menos batida da prova. É talvez redutor tirar um retrato global das equipas, mas cinco meses volvidos podemos afirmar que estamos perante um Sporting irreverente, impulsivo, ofensivo, e um Benfica “à italiana”, mais cauteloso, pela certa, experiente e que usa o colectivo para potenciar a qualidade individual dos seus jogadores. Um pouco o inverso do que acontecia no ano passado, em que o Sporting mostrava a consistência defensiva característica das equipas de Leonardo Jardim, ante um Benfica com muitas soluções e virado para o ataque.

A ideia pode ser suportada pela simples observação dos dois conjuntos, mas tal como gostamos de fazer no GoalPoint, olhámos para os números, que revelam esta mesma tendência.

Quantidade e qualidade no ataque

O facto de o Benfica ter mais seis golos marcados (44-38) que o Sporting pode fazer crer que os “encarnados” são uma equipa muito mais ofensiva, ou muito mais rematadora que os “leões”. Totalmente o inverso. A equipa de Alvalade faz 16,8 remates por jogo, contra 14,4 dos homens da Luz; a diferença está na eficácia e aproveitamento, onde o Benfica é rei e senhor: 43,2% de remates enquadrados (vs 38,1%) e 16,1% de aproveitamento em golo (11,9% do Sporting).

IndicadorSportingBenfica
Golos3844
Golos sofridos158
Golos p/ jg2,02,3
Golos sofridos p/ jg1,30,5
Minutos p/ golo4539
% Golos de cabeça21,1%20,5%
% Golos fora da área15,8%13,6%
% Golos na área84,2%86,4%
% Golos de penalty5,3%6,8%
% Golos livre2,6%2,3%
Remates p/ jg16,814,4
% Eficácia38,1%43,2%
% Aproveitamento11,9%16,1%

Este é um pormenor que mostra muito da identidade das duas equipas, mas há mais. Por exemplo, o Benfica tem mais posse de bola (63,5% vs 60,4), maior qualidade de passe (79,9% vs 78,3%), mas tem o condão de trocar a bola no seu meio-campo em 43,5% das vezes, para 37,7% do Sporting, sendo que a turma leonina faz 62,3% dos seus passes no meio-terreno contrário e os “encarnados” 56,5%. O futebol mais cauteloso e pela certa do Benfica explica estes números, a filosofia mais pragmática que Jorge Jesus para esta época, em contraponto com a irreverência dos comandados de Marco Silva. Estes últimos não só rematam mais, como são melhores no drible (37,8% para modestos 29,3%), embora sejam os benfiquistas que mais tentem os lances individuais. Na altura do cruzamento, os papéis invertem-se: mais Sporting (22,8 centros por jogo contra 13,5), mas mais qualidade “encarnada” (21,8% certos, para 20,8%).

O “cinismo” do Benfica não se nota apenas na forma mais paciente como ataca, mas também no modo como aproveita os lances de bola parada. No derby deste domingo, este tipo de lances pode vir a ser importante, e o Sporting terá de acautelar-se neste capítulo, pois o Benfica cria 16,7% das suas oportunidades desta forma (11,9% do Sporting) e 11,8% das assistências para golo das “águias” surgiram destas jogadas. O irreverente Sporting é mais competente a criar perigo em futebol corrido (87,7% das vezes, para 83,3% do adversário).

ValorSportingBenfica
Passe p/ jg451472
% Eficácia de passe78,3%79,9%
% Passes meio-campo defensivo37,7%43,5%
% Passes meio-campo ofensivo62,3%56,5%
Méd. Posse de bola60,4%63,5%
Assistências p/ jg1,51,8
% Assist. bola parada7,1%11,8%
Passes p/ocasião p/ jg12,8%10,7%
Cruzamentos p/ jg22,813,5
% Cruzamentos certos20,8%21,8%
% Oportunidades bola corrida87,7%83,3%
% Oportunidades bola parada11,9%16,7%
Tentativas drible p/ jg23,827,3
% Eficácia de drible37,8%29,3%

Na próxima página: Apuros na defesa? – o desempenho defensivo dos rivais até ao momento

Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.
GoalPoint

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