Análise: Quanto nos vai custar “ir à bola” em 2014/15?

Mesmo com a crise instalada em Portugal, os clubes lusos são dos que, na Europa, mais dinheiro exigem por ingressos tendo em conta o peso na média salarial.

Os bilhetes de época dos "três grandes" parecem, à primeira vista, mais baratos (foto: J. Trindade)
Os bilhetes de época dos “três grandes” parecem, à primeira vista, mais baratos (foto: J. Trindade)

É precisamente nesta altura da época que muitos adeptos se debatem, uns por uns segundos, outros por mais tempo que isso, com a decisão de investir num “bilhete de época” do seu clube, decisão que deve suscitar maior hesitação nos dias que correm, não só em Portugal, fruto da crise.

Decidimos analisar o preço dos bilhetes de época 2014/15 dos “três grandes” com os praticados pelos três primeiros classificados das Ligas espanhola, inglesa e alemã. Tendo em conta as diferenças de oferta e o leque de opções decidimos, a bem de uma comparação exequível, abordar apenas preços de tabela de bilhete de época para um adulto (homem, quando a diferença de género é utilizada) e a modalidade que incluísse, pelo menos, jogos da Liga nacional e fase de grupos de competições europeias, para um lugar de estádio normal (excluindo tribunas, lugares VIP e camarotes). Retiramos assim todos os descontos e segmentações de preço complementares (por género, por idade, pela existência de uma deficiência, por competição, etc.). As conclusões são interessantes.

Pagamos mais barato… se não olharmos ao mundo

Atentando apenas nos valores mais baixos e mais elevados por cada clube e consequente preço médio, os “três grandes” praticam os valores mais baixos entre os 12 clubes analisados. O FC Porto, certamente no decurso dos resultados da última época, indefinição relativa no que respeita ao apuramento para a Liga dos Campeões e assistências em queda, reduziu o valor mais elevado do seu bilhete de época (agora de 320 euros), apresentando por isso o preço médio mais baixo dos três clubes portugueses, apesar de ser o Sporting CP o que apresenta o preço de partida mais baixo (105 euros). O sócio dos três grandes paga, assim, os valores médios mais baixos por jogo (entre 5 e 9 euros por jogo) mas tal não traduz o real peso deste custo no seu “bolso”. Para lá da realidade portuguesa sobressai, no entanto, o caso do bicampeão germânico, Bayern de Munique, cujo preço é mais reduzido.

(clique na tabela para ler em detalhe)

O salário médio do adepto muda a perspectiva

Aprofundando a análise teríamos, necessariamente, de comparar o preço pago pelo adepto de cada um dos clubes com uma variável que traduzisse, de alguma forma, o verdadeiro custo de vida/poder de compra de cada um dos clubes e países comparados. E ao fazê-lo a realidade torna-se muito menos competitiva para os clubes portugueses. O SL Benfica surge no topo da lista, entre os portugueses, com o valor médio do seu bilhete de época a representar cerca de 39% do salário mensal médio português. O clube “encarnado” consegue assim suplantar o campeão inglês em título e ficar aliás muito próximo do peso de um bilhete de época no bolso do adepto do FC Barcelona (42%). Em seguida surge o Sporting CP, com um impacto de 31% no bolso do sócio leonino, a par de Borussia Dortmund e Schalke 04, ambos da Liga germânica. O FC Porto surge como o mais competitivo entre os portugueses, com um custo que representa 28% do salário médio português mas ainda assim longe do surpreendente Bayern de Munique, cujos preços pedidos para ver semanalmente Robben, Ribéry e cia representam apenas 21% do soldo mensal de um dos seus adeptos.

Crise sem ajustamento

Em jeito de conclusão não deixa de ser curioso perceber que entre os cinco primeiros clubes desta lista, ordenada pelo critério de impacto no salário médio do seu adepto, três jogam em Espanha, país que atravessa, tal como Portugal, um contexto de crise económica, e logo a seguir surgem como já referido “águias” e “leões”, com o campeão inglês pelo meio. A seu tempo analisaremos as assistências médias (com toda a margem de erro que a sua recolha envolve). Contudo, numa eventual procura das muitas razões para os estádios portugueses não surgirem tão preenchidos como o desejável (e necessário, para as finanças dos clubes) estará certamente também este desequilíbrio entre o que os clubes esperam do nosso bolso e o que ele realmente transporta, nos dias que correm.

 

Nota metodológica

Alguns clubes incluem na sua oferta produtos que possuem um número variável de competições e jogos (ex. SL Benfica, Atlético de Madrid). De modo a conseguirmos um critério uniforme recorremos, como já referido, apenas à comparação de pacotes que incluíssem o direito a assistir a jogos da Liga e competições europeias, projectando para efeitos de cálculo de preço médio por jogo o somatório entre jogos da Liga, jogos da primeira fase de UCL/UEL e jogo de apresentação. No entanto, alguns clubes, como os acima citados, incluem também jogos de outras competições domésticas como também todos os desafios europeus em casa exceptuando finais, pelo que o preço médio final por encontro poderá ser mais reduzido no final da época e deve ser entendido à luz destas condicionantes.

Fontes utilizadas: informação oficial clubes, Eurostat, Guardian, Telegraph, Sporting Intelligence.