Análise: Que destino tiveram os 102 remates do Sporting?

A eficácia de remate e concretização do Sporting CP neste arranque de Liga é um tema na ordem do dia. Analisámos os números para compreender a verdadeira dimensão do problema.

Ninguém rematou mais do que os "leões" mas o aproveitamento é preocupante (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)
Ninguém rematou mais do que os “leões” mas o aproveitamento é preocupante (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)

Após quatro empates e apenas uma vitória nos cinco jogos oficiais realizados, o Sporting CP não só protagoniza um arranque de época titubeante como também pouco concretizador: apenas cinco golos em outras tantas partidas. Mas tem o Sporting rematado pouco, com pouca pontaria, ou apenas com uma taxa de concretização infeliz para o acerto que demonstra com os ferros?

Muitos remates, fraca pontaria

Olhando em primeiro lugar para os números globais do Sporting, torna-se evidente que não é por falta de tentativas que não tem encontrado com maior frequência o fundo das redes. Os “leões” dispararam por 102 vezes nos cinco jogos em análise (quatro jornadas da Liga e um jogo na Liga dos Campeões), o que representa uma média de cerca de 20 remates por partida, um número elevado tendo em conta que três das cinco foram inclusivamente disputadas fora de Alvalade e uma delas contra o campeão nacional.

O primeiro sinal de alarme surge na taxa de acerto com os postes, com os “leões” a realizarem apenas 33 remates enquadrados com a baliza (33,4% do total). Os restantes 69 remates, com um peso de 67,6%, são o indicador claro da falta de pontaria leonina, ainda que 25 deles (24,5% do total) tenham sido bloqueados pelo adversário.

Clique na infografia para ler em detalhe (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)
Clique na infografia para ler em detalhe (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)

O verdadeiro problema

Se os indicadores de enquadramento de remates dão de imediato prova da falta de acerto dos “verde-e-brancos” na hora de disparar, a taxa de aproveitamento (concretização) coloca uma pedra sobre o diagnóstico: os “leões” concretizaram apenas 4,9% do total de remates efectuados, um número manifestamente baixo e denunciador do desacerto leonino na concretização.

Colocar os números de Sporting, Benfica e Porto lado a lado, olhando apenas o desempenho na Liga, permite perceber que o problema de pontaria do Sporting não é tão grave quanto poderá parecer. Com efeito o FC Porto apresenta uma percentagem de remates enquadrados até inferior à dos “leões” (apenas 30,6% dos remates “azuis-e-brancos” chegam à baliza). Mas a taxa de concretização isola a equipa de Marco Silva no seu real problema: os 5,3% de aproveitamento fica muito longe dos cerca de 11% e 16% registados pelo Porto e Benfica, quando ambos rematam inclusive menos vezes por jogo que a formação de Alvalade.

Os rostos dos números

Existirão “leões” que centralizam o desacerto concretizador da equipa? A análise do desempenho dos dez jogadores com mais remates efectuados nos cinco jogos analisados revela o desacerto generalizado, embora mais influente nos casos de jogadores que, como Nani, chamam a si boa parte da responsabilidade de acertar na baliza: o extremo leonino disparou por 20 vezes mas apenas 30% dos seus remates encontraram a baliza, com apenas um convertido em golo, um aproveitamento de 5%. O avançado Islam Slimani, referido como um dos protagonistas da falta de eficácia leonina é, no entanto, um bom exemplo de que maior pontaria não significa mais concretização: o argelino é, a par de Montero e Jefferson, a excepção neste capítulo, atingindo inclusive uma marca muito positiva de 69% de remates enquadrados, batida apenas por Montero (80%) embora este com apenas cinco efectuados.

Os números de eficácia não encontram no entanto tradução na hora de avaliar os “leões” com maior aproveitamento. É aliás curioso encontrar o nome de André Carrillo como o jogador leonino com melhor aproveitamento, ele que tantas vezes é catalogado como pouco objectivo e irregular. O peruano apresenta a melhor taxa de concretização do Sporting (13,3%), apesar do baixo acerto que apresenta (apenas 20% de remates enquadrados), seguido pelo jovem Carlos Mané com 12,5%.

Ausências e eclipses que dão que pensar

Não deixa de ser surpreendente e motivo de reflexão não só identificar o médio Adrien como um dos três maiores rematadores leoninos (com um dos mais baixos registos de acerto), como também perceber a ausência da lista de André Martins, que apesar da posição ocupada no terreno (e pré-temporada goleadora) não apresenta os mínimos para sequer constar da lista dos dez com mais remates efectuados até agora. Resta saber se tal se deve a uma aparente súbita quebra de forma ou a uma consequência das opções tácticas de Marco Silva para um Sporting que, como se percebe, acerta pouco para a elevada quantidade de disparos que realiza. Destaque também para o facto de os cinco golos leoninos terem sido apontados por extremos e avançados, o que, aliado ao “desaparecimento” da restante equipa das lides concretizadoras, fará recordar os adeptos das épocas recentes em que a concretização ficou quase em exclusivo entregue aos homens mais avançados no terreno (Ricky van Wolfswinkel), uma limitação que pode cercear as ambições de qualquer equipa candidata aos títulos.

Aguardemos pelos próximos jogos de modo a perceber se os “leões” atravessam apenas uma fase infeliz no capítulo da concretização ou se os números escondem uma tendência cujas razões mereçam uma análise mais aprofundada.