Análise: Vulcão islandês em erupção

Lars Lagerbäck é o homem por detrás do sucesso da Islândia, assentando o seu futebol num clássico 4x4x2 pleno de entrega e capacidade colectiva.

Os adeptos islandeses têm razões para sorrir (foto: Iceland Review)
Os adeptos islandeses têm razões para sorrir (foto: Iceland Review)

Falar do país das auroras boreais em termos futebolísticas é destacar a família Gudjohnsen. Arnor e Eidur são os dois jogadores mais famosos do país. O pai, Arnor, ficou conhecido por ter representado o Anderlecht, já o seu filho, Eidur, alinhou no Chelsea e Barcelona e, aos 36 anos, ainda joga no Club Brugge. O avançado islandês é o melhor marcador da selecção com 24 golos em 78 internacionalizações.

Em 1996, a família Gudjohnsen entrou para a história por pai e filho terem disputado o mesmo jogo. Na realidade não conseguiram cumprir o sonho de jogarem juntos, já que o mais novo entrou para o lugar do pai com 34 anos.


O momento em que o pai é substituído pelo filho Gudjohnsen

Até ao momento a selecção nórdica bateu a Turquia por 3-0, a Letónia pelo mesmo resultado e a Holanda por 2-0. Com três vitórias em três jogos, a Islândia ganhou o direito a sonhar com um lugar no Europeu, podendo garantir pela primeira vez na sua história uma presença em fases finais de competições internacionais, depois de ter ficado à porta de embarque do Mundial no Brasil, perdendo o play-off frente à Croácia.

Sistema dinâmico

Muito se tem discutido sobre o fim do ciclo de vida para alguns sistemas tácticos. O 4x4x2 é um exemplo claro desta afirmação. Hoje, mais importante do que discutir as diferenças entre o sistema e as dinâmicas de uma equipa, é descobrir um sistema dinâmico dentro da própria equipa. É isso que tem feito Lars Lagerbäck, seleccionador da Islândia. O experiente sueco de 66 anos tem adoptado um 4x4x2 clássico. Um quarteto seguro que não arrisca na primeira fase de construção, um médio-defensivo de cariz defensivo, um organizador de jogo, dois extremos que ajudam no processo ofensivo e dois avançados que conseguem facilmente adaptar-se às exigências do jogo e desdobrarem-se nas suas acções.4

O onze base de Lagerback
O onze base de Lagerback

Sigurdsson assume o papel de número “10”, com Gunnarsson, capitão da selecção, a proteger-lhe o espaço nas costas, concedendo liberdade para conseguir, através da sua qualidade individual, desequilibrar no momento ofensivo.

Hallfredsson e Bjarnason alinham como médios-alas, na esquerda e direita respectivamente. Os dois islandeses apresentam um elevado nível de solidariedade defensiva, apoiando os laterais nas suas missões. O equilíbrio que conseguem transmitir para a equipa é fundamental para que a Islândia, até ao momento, não tenha sofrido qualquer golo.

Na frente de ataque, Sigthórsson e Bodvarsson formam uma dupla versátil e com características complementares. Normalmente cabe a Bodvarsson o papel de avançado mais fixo, com Sigthórsson a aproveitar os espaços e a descair no terreno para ter a bola. Por vezes alteram as suas funções, com qualidade, pela versatilidade que ambos apresentam. Finnbogason e Vidar, avançado já analisado pelo GoalPoint, são outros avançados de qualidade que espreitam por uma oportunidade.

A equipa consegue construir a partir de trás, nomeadamente através dos laterais e dos dois médios, e chegar as zonas de decisão. Quando não tem espaço para criar aposta no futebol directo com os dois laterais a procurarem cruzamentos largos para as referências ofensivas. Outra solução que é muito recorrente são os remates de longe, onde Sigurdsson assume um papel crucial.

Uma característica que importa frisar é a facilidade de adaptação ao estilo de jogo. A Islândia apresenta um futebol apoiado, com Sigurdsson e Gunnarsson a assumirem a partir do “miolo”. Noutros momentos de jogo transfigura-se numa equipa que recorre a um estilo mais expectante, explorando os espaços que os adversários lhe concedem. Um futebol aliciante por parte dos nórdicos.

Destaques

Longe vão os tempos em que Gudjohnsen era a principal figura da selecção nórdica. Actualmente as atenções viraram-se para jogadores como Elmar, Gunnarsson, Sigurdsson, Bjarnason, Sigthórsson, Finnbogason e Vidar. Todos eles apresentam uma característica em comum. Possuem um nome de difícil pronúncia para os comentadores de futebol.

Sigurdsson é figura central na equipa islandesa (foto: Iceland Review)
Sigurdsson é figura central na equipa islandesa (foto: Iceland Review)

Sigurdsson é o jogador mais criativo desta selecção. O médio do Swansea tem marcado a diferença ao apontar quatro golos em três jogos. Os laterais e os médios-ala representam um dos pontos fortes desta selecção. Elmar e Skúlason são dois médios-centro adaptados com sucesso a laterais, imprimindo uma dinâmica ofensiva muito interessante.

Lars Lagerbäck tem realizado um trabalho respeitável, ao apresentar uma selecção muito competente nos diversos processos de jogo, com ideias bem assimiladas e com uma identidade própria. Os resultados partem de uma base de recrutamento escassa e com falta de qualidade individual face à concorrência. A selecção orientada por Lars assenta o seu futebol no jogo colectivo, entrega e vontade de vencer. O objectivo passa por colocar a Islândia na rota do futebol europeu e, com três vitórias em três jogos, os nórdicos podem começar a aspirar por um lugar no Europeu de 2016.