Analytics dão razão a Amorim na escolha de Manuel Ugarte

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A nossa análise e percepção – ainda que limitada – do papel futuro de Manuel Ugarte no plantel do Sporting sofreu avanços e recuos. A nossa intuição, pelo que conhecemos do jogador e das ideias de Rúben Amorim, sempre nos fez olhar para o uruguaio de apenas 20 anos como uma aposta leonina para “trinco”, ou médio-defensivo (conforme as missões), naturalmente na sombra de João Palhinha. Depois, ao olharmos mais a fundo para os dados do ex-Famalicão ao longo de 2020/21, assaltou-nos a dúvida… estará Ugarte destinado a render João Mário? Até que Rúben Amorim veio dar-nos uma ajuda na recente conferência de imprensa de antevisão da Supertaça com o Sp. Braga.

“O Sporting não carece de outro tipo de jogador para aquele posição [a que era de João Mário], está muito bem entregue a eles dois [Daniel Bragança e Matheus Nunes], mais o Tabata (…) O que olhamos muito é para a variedade de características”

Rúben Amorim sobre a posição “8”

Agradecemos desde já ao treinador leonino por nos ter aliviado esta dor de cabeça – embora possa sempre haver mudanças de ideias ao longo da época. A nossa análise passou a incidir concretamente sobre posição de médio mais recuado, pelo que baseamos este artigo no comparativo de características de Ugarte e Palhinha, focando precisamente na variedade das mesmas, algo que Amorim irá usar, certamente, ao longo da época, conforme as necessidades dos “leões” nos vários momentos e perante os diversos adversários.

Manuel Ugarte é um médio ainda jovem. Os seus 20 anos espantam pela maturidade que já apresenta em campo, tendo sido decisivo para a recta final de época muito positiva do Famalicão, apesar de ter chegado apenas no mercado de Inverno. Formado no Fénix, do Uruguai, o médio chegou a Portugal por €3M, após marcar um golo em 20 jogos em 2020, repetindo estes mesmos números ao serviço dos famalicenses. Um impacto enorme que levou o Sporting a avançar para a sua contratação. Pode-se dizer que o Famalicão ficou a ganhar desportivamente, na época passada, e agora financeiramente, com uma transferência que mais do que cobriu o investimento inicial.

Parecidos… ou nem por isso

Um olhar rápido pelos números de Ugarte e Palhinha e notamos que as semelhanças terminam na observação “a olho”, e ambos distanciam-se bastante numa análise mais profunda. Tudo bem, Rúben Amorim gosta assim, jogadores com características diferentes para a mesma posição.

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O statscard comparado de ambos dá as primeiras pistas. Ugarte com maior peso ofensivo que Palhinha – 21% dos golos do Fama enquanto esteve em campo na época passada tiveram golo ou assistência do médio, contra 2% de João Palhinha – e com características que apontam para uma maior qualidade no passe, tal como acontecia com… João Mário (daí as nossas dores de cabeça). O internacional português, por seu turno, não dá hipóteses nos momentos defensivos puros, neste caso na eficácia no desarme e, principalmente, na superioridade que mostrou, ao longo da época passada, nos duelos aéreos defensivos. Algo que volta a diferenciar Ugarte, neste caso pela negativa. Mas nada como olhar, em primeiro lugar, para as zonas de acção dos dois atletas.

Um imenso raio de acção

O caro leitor olha para os “heatmaps” e o mapa de acções com bola dos dois atletas e pensa: “Palhinha ganha de goleada a Ugarte”. Não é assim tão óbvio, pois o uruguaio fez cerca de menos 1000 minutos na Liga que o português, e essa diferença ajuda a “pintar” o desempenho do internacional luso de forma mais carregada. Mas sim, há diferenças.

[ Os “heatmaps” de Ugarte e Palhinha (os dois à esquerda) e os mapas de acções com bola de ambos (os dois à direita) ]

É verdade. Palhinha está em todo o lado. Nas duas áreas, no meio-campo defensivo, no ofensivo, nas alas. Ugarte também, embora menos. O uruguaio terminou a época passada com uma média de 51,9 acções com bola por 90 minutos, o português com 65,3. A vantagem continua a ser do internacional luso nas acções em posse (53,9 contra 43,4), mas sem bola tudo se reequilibra, com 7,2 para o ex-Famalicão e 8,1 para Palhinha.

Esta diferença entre ter ou não ter o esférico explica-se facilmente pelo facto de os “leões” serem uma equipa naturalmente com mais bola que o Famalicão, o que acaba por acentuar e, para efeitos de análise individual,… diluir um pouco o fosso entre ambos. Certamente que, no Sporting, Ugarte também terá mais bola. Mas onde se nota mesmo uma discrepância nas características de ambos é no jogo pelo ar – algo que também se vê no “heatmap” de Palhinha e nas manchas em ambas as áreas.

Infantaria vs força aérea

Definitivamente, pela amostra na segunda metade da última época, Ugarte não será solução primeira para algum problema do Sporting no que toca ao futebol pelas alturas. Quando essa for a questão, avança Palhinha.

[ À esquerda os 13 duelos aéreos defensivos de Ugarte, à direita os 80 de Palhinha ]

Sim, é verdade que são cerca de 1000 minutos de diferença, mas os números corroboram o que um olhar rápido para os mapas acima nos diz sobre a influência dos dois jogadores nos duelos aéreos defensivos. Ugarte somou 13 (ganhou 46%), Palhinha 80 (venceu 70% deles), sendo que o português não dá hipótese também na média dos que participou (0,8 contra 2,9). E como se nota nos “bonecos”, João domina no meio-campo defensivo, à frente da sua defensa, mas também na área. No total foram 16 desses lances, tendo ganho 75%. Ugarte ganhou um de três.

Também no ataque as diferenças são notórias. O uruguaio registou os mesmos 0,8 por 90 minutos (total de 13), ganhou 39%, o português chegou a 1,9 (53), com sucesso em 76%, e na área contrária o reforço não fez mais de 0,1, contra 0,8, sendo que Palhinha ganhou 71% e Ugarte… nenhum. Estão apresentados os dois jogadores no que toca a estas variáveis.

Equilíbrio nas acções defensivas

Descansem os sportinguistas que o novo reforço leonino volta a dar garantias quando olhamos para os dados de acções defensivas, algo que volta a dar razão a Rúben Amorim na previsível aposta do jogador para médio mais recuado.

[ À esquerda os mapas de acções defensivas de Ugarte e Palhinha, à direita os das recuperações de posse ]

Palhinha ainda ganha a Ugarte, mas a vantagem é ténue e cabe na “margem de erro” que pode ter como influência os respectivos contextos competitivos e colectivos de 2020/21. O português lidera em acções defensivas no meio-campo contrário (2,7), no primeiro terço (3,1), no terço intermédio (3,9) e no último terço (1,0), mas o uruguaio está perto (2,3 – 3,0 – 3,3 – 0,9). João brilha nos desarmes completos (que garantem posse), com 2,4 por 90 minutos, nas intercepções (1,4 – 1,7), Manuel apresenta melhores números de bloqueios de passe (1,6 – 1,1). E as zonas destas acções são em tudo semelhantes entre os dois.

Relativamente a recuperações de posse também ligeira superioridade para o internacional luso, que atingiu as 6,3 por 90 minutos, contra as 5,5 do ex-famalicense. A diferença continua a não ser relevante.

Ugarte com mais condução e drible

[ Nos mapas da esq. as conduções verticais (tracejados), dribles eficazes (estrelas) e faltas sofridas (triângulos); à dta. os dos dribles ]

Estas são as variáveis que nos fizeram hesitar, como já referimos, sobre a missão que Ugarte vai desempenhar no Sporting. Amorim já “esclareceu”, mas vale a pena olhar para os mapas acima para compreender onde, uma vez mais, o uruguaio diverge do português. Os momentos de construção e ruptura, com bola.

Mesmo tendo somado menos 1000 minutos, Ugarte mostrou que sabe pegar na bola, levá-la para o ataque e criar desequilíbrio, com a “redondinha” colada ao pé (mapas da esquerda). Os tracejados mostram as conduções aproximativas do uruguaio, nada menos que 16, que terminaram no meio-campo contrário. O dobro das registadas pelo português. Também no drible (estrelas nos mapas da esquerda e mapas da direita), Ugarte é mais forte, tendo atingido 2,4 por 90 minutos, contra 1,1 apenas de Palhinha (74% e 77% de eficácia, respectivamente).

Opções para problemas diferentes

Após esta análise mais profunda, e colando às palavras de Amorim, Ugarte tem as características ideais para dar ao Sporting o que o seu treinador quer, soluções diferentes conforme as necessidades. Palhinha será sempre um “polvo” imenso que foi um dos esteios leoninos na época passada, com uma cobertura defensiva imensa e uma qualidade acima da média quando o tema é futebol pelo ar.

Por outro lado, Ugarte dará ao emblema de Alvalade coisas diferentes, mantendo a qualidade nas acções defensivas, mas sendo aposta quando a equipa não precisar de grande acção pelo ar e for necessário ter alguém com capacidade de transportar o jogo de trás para a frente, queimando linhas e atraindo adversários para o seu encalço, libertando outros. Tem a palavra Rúben Amorim.

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Pedro Tudela
Pedro Tudela
Profissional freelancer com 19 anos de carreira no jornalismo desportivo, colaborou, entre outros media nacionais, com A Bola e o UEFA.com.