Um apocalipse com data marcada

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Faltam oito distantes anos para o Mundial 2022 no Qatar, leia-se o apocalipse do futebol europeu como o conhecemos. Adjectivação exagerada? Talvez, sobretudo se o torneio for cancelado, como mandaria o bom-senso, por um lado, e a decência, por outro.

Pelo caminho do bom senso seria recomendável corrigir o erro da atribuição do Mundial ao Qatar. As contra-indicações meteorológicas, desportivas e médicas estão há muito esclarecidas. Já no capítulo da decência, as graves violações dos direitos humanos denunciadas nos projectos de construcção que decorrem no emirado, bem como as mais do que debatidas alegações de corrupção na atribuição do torneio são também já sobejamente conhecidas e motivos suficientes para repensar a decisão, em tempo útil.

Mas a estas junta-se a razão do uso que faço do termo “apocalipse”: a alteração do calendário desportivo de 2022 (e provavelmente 2021), de modo a acomodar um Mundial de Inverno pode ter consequências devastadoras no futebol europeu, sobretudo para a esmagadora maioria dos clubes e Ligas que consideramos (financeiramente) “médios” ou “pequenos”. O impacto da alteração de calendário, que dificilmente se poderá cingir apenas ao ano em que decorre a prova, promete criar problemas sérios a clubes que, como os portugueses, se debatem com o constante desafio de valorização da sua actividade tendo em vista a conquista (ou mera manutenção) de patrocínios e receitas que vão escasseando para sustentar uma actividade tendencialmente deficitária. A demolição do calendário de provas actual para satisfazer os compromissos infundados e pouco transparentes da FIFA são um convite para o descalabro financeiro e desportivo da maioria dos clubes mais frágeis, incluindo todos os portugueses, uma preocupação que, talvez pela distância temporal, foi pouco ou nada discutida em Portugal.

No entanto, vão surgindo motivos de esperança. Tal como há uns meses escrevi, apenas pela via dos patrocínios poderá alguma vez a FIFA ver-se forçada à transparência e modernização do futebol mundial. O virar de costas da Emirates e Sony ao organismo máximo do futebol, complementado com as manifestações públicas de preocupação de Adidas e Coca-Cola para com a imagem da instituição presidida por Sep Blatter, dão alguma esperança quanto ao futuro do futebol.

No que ao futebol diz respeito também existem sinais positivos, com o Presidente da Bundesliga (Christian Seifert) a sugerir a abertura germânica para o boicote ao Mundial do Qatar. Do lado de lá do Canal da Mancha não há notícias de um boicote inglês ao evento mas há, também nos últimos dias, uma exigência de publicação do relatório de Michael Garcia sobre eventuais irregularidades no seio da FIFA. Por fim o candidato “outsider” à Presidência da FIFA nas eleições de 2015, Jerome Champagne, exige igualmente o escrutínio dos processos de atribuição dos Mundiais de 2018 (Rússia) e 2022 (Qatar).

Por cá reina o silêncio sobre o tema. Se do lado de uma FPF que sozinha pouco risca no plano internacional e de uma LFP recém-eleita e com problemas urgentes em mãos, será compreensível o silêncio face a um eventual terramoto ainda distante, já do lado da imprensa especializada surge estranho não surgirem perguntas sobre o posicionamento do futebol português (instituições, organismos e clubes) face a todo este imbróglio.

Temo que, como é tradicional em Portugal, apenas nos lembremos todos do apocalipse agendado quando estivemos irremediavelmente perto do dito, entretendo-nos até lá com a discussão estéril das grandes penalidades e foras-de-jogo mal assinalados, as eleições de Ligas sem poder e sem fundos e restantes tricas de novela interna que caracterizam um futebol pouco orientado para pensar o seu futuro de forma estruturada. Caso se cumpra a minha previsão, oxalá até lá alguém faça pelo nosso futebol aquilo que o próprio não faz por si, colocando um fim no dossier Qatar 2022 e motivando a modernização do futebol mundial onde ela realmente se pode decidir, apesar de andarmos (quase) todos convencidos que é por cá, na “aldeia”, que o reformularemos.