BATE 0 – Porto 3: Herrera faz guacamole bielorrusso

Após uma primeira parte entediante de passes e mais passes para os lados e para trás, o FC Porto corrigiu na segunda parte quando Herrera “abriu o livro” e a defesa contrária.

Hector Herrera foi figura central na vitória dos "dragões" (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)
Hector Herrera foi figura central na vitória dos “dragões” (foto: J. Trindade infografia: GoalPoint)

O jogo não encerrava o cariz decisivo de outros, pois o FC Porto já tinha garantida a passagem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Ainda assim, o embate em Borisov merecia uma prestação de melhor nível das duas equipas, muito em especial dos “dragões”, muito superiores ao BATE, mas que demoraram 56 minutos a criar uma verdadeira situação de golo – que até resultou. É que em jogo estava o primeiro lugar no grupo.

Ao contrário do que poderia ser expectável, e tendo em conta a paixão de Julen Lopetegui pela rotatividade entre os jogadores, o FC Porto aproveitou-se na Bielorrússia com aquela que é, talvez, a sua equipa mais forte, sendo que o único dado relevante no “onze” portista foi mesmo a presença de Ricardo Quaresma de início. Mesmo com a “lenha toda no assador”, como se costuma dizer, a verdade é que colectivamente a equipa mostrou-se monocórdica, previsível, lenta e demasiado focada no controlo do jogo e no passe. A primeira parte foi fria como a temperatura em Borisov, sem chama, movimentos de rotura, apoio ofensivo e ideias. A segunda valeu por Herrera e pela eficácia ofensiva.

Loucos pelo passe

Uma vertigem de passes tomou conta da equipa portuguesa, que perante um adversário expectante levou ao extremo essa sua identidade. Os “azuis-e-brancos” conseguiram, até ao intervalo, efectuar 334 entregas, número que algumas equipas não alcançam em 90 minutos (como o BATE…). Os 84,4% de passes certos são mostra de qualidade neste capítulo, porém, embora já tenhamos visto mais eficácia por parte dos pupilos de Lopetegui. O resultado poderia ter sido um domínio avassalador, oportunidades umas atrás das outras, mas não. Certamente os adeptos neutros terão feito zapping ou mesmo adormecido, porque nada de empolgante acontecia. Aliás, o BATE teve até mais lances de perigo, consequência de quatro passes para ocasião até ao intervalo, contra dois do Porto apenas. No descanso, os da casa somavam seis remates contra dois dos portistas, embora a pontaria tenha andado arredia.

Explicações? Variadas, mas certamente mérito para o posicionamento defensivo do BATE e demérito para a ausência de soluções do Porto para um problema aparentemente simples. Simples porque a qualidade do adversário era pouca, como demonstram os 19 golos sofridos nas primeiras quatro jornadas da fase de grupos.

A grande quantidade de passes do Porto deveu-se sobretudo, ao recuo do adversário que, por seu turno, não deu espaços no seu meio-terreno. Assim, os “dragões” abusaram dos passes em zonas muito recuadas, pelo que, no primeiro tempo, não espantam os 50 passes de Marcano (90% certos), os 42 de Martins Indi (90,5%), e os mesmos 42 de Casemiro (88,1%). Ou os 51 toques de Marcano e Danilo e os 50 de Alex Sandro. O Porto tinha muita bola, mas os seus jogadores não se aproximavam do seu portador para criar linhas de passe, nem procuravam os espaços; os laterais não faziam movimentos de ruptura nas alas; apenas Óliver Torres transportava a bola e raramente tinha a quem passar, perante os seus estáticos companheiros; os lances individuais eram a solução óbvia, e destinada ao insucesso; os sectores da equipa estavam sempre muito longe uns dos outros no momento ofensivo.

Perante este cenário, o BATE limitou-se a preencher os espaços entre as linhas portistas, partindo a equipa em vários pedaços, e a cortar linhas de passe, pelo que foram raras as vezes que o porto chegou sequer perto da baliza adversária.

Clique na infografia para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)
Clique na infografia para ler em detalhe (infografia: GoalPoint)

Herrera contra o tédio

Tudo mudou no segundo tempo. E porquê? Porque no primeiro, Herrera não conseguiu ser mais do que uma sombra de Casemiro, garantindo coesão defensiva, e apenas Óliver manobrava as acções de ataque. Na etapa complementar o mexicano começou a aproximar-se bastante da linha atacante, criando desequilíbrios ao BATE em zona frontal à grande área e dando mais soluções de passe a toda a movimentação ofensiva. Os bielorrussos viram-se obrigados a recuar e Herrera aproveitou para abrir a defesa à “lei da bomba”, através de um estupendo remate de fora da área. Estava feito o mais difícil, aos 56 minutos. O BATE via-se obrigado a atacar mais e o Porto agradeceu os espaços.

Em mais um lance em que Herrera subiu no terreno, o colectivo funcionou e o mexicano serviu Jackson Martínez para o 2-0, aos 65 minutos. O mesmo Herrera fez a assistência, a sua segunda na partida, para o 3-0, apontado por Cristian Tello, ao cair do pano. Foi o culminar da melhor exibição individual dos portistas. Um golo e duas assistências, dois passes para ocasião, 71 passes, com 81,7% de eficácia, 47 deles (74,5%) no meio-campo contrário – nota negativa para as 21 perdas de bola.

Realce, igualmente, para Casemiro. O brasileiro foi o pilar de toda a equipa em termos defensivos, com cinco entradas, três alívios, três intercepções, nove recuperações de bola e apenas nove perdas (só Óliver roubou mais bolas, 12). Somou 102 toques (o segundo valor mais alto) e acertou 89% dos 82 passes que fez, um deles uma assistência. Precisamente neste capítulo, Óliver também esteve em grande nível, com 80 entregas e 91,3% de eficácia final, sendo apenas ultrapassado aqui por Yacine Brahimi, com 45 passes e 93,3% de acerto – algo habitual no argelino.

Os números finais são esclarecedores em relação à diferença entre as equipas. O FC Porto terminou com nove remates contra sete do BATE (uma total inversão do que acontecera no primeiro tempo), quatro deles enquadrados contra um, três deles de dentro da área. Os portistas ganharam 63,8% dos duelos, para 36,2% dos bielorrussos, tiveram 70,6% de posse de bola (29,4% do BATE), e registaram impressionantes 705 passes (293 do BATE), com 84,4% de eficácia final. Os da casa não passaram dos 62,5% e igualaram um recorde pouco agradável: o de equipa com mais golos sofridos numa fase de grupos da Liga dos Campeões, 22… e ainda falta uma jornada para o fim.