Benfica 2 – Paços 0: Os dois extremos e o pêndulo

Do lado esquerdo o criativo Nicolás Gaitán, do direito o lateral Maxi Pereira, ambos foram as grandes figuras de um Benfica envolvente e criativo, mas foi Rúben Amorim quem deu equilíbrio à equipa.

Nicolás Gaitán foi peça central na vitória do Benfica (foto: J. Trindade)
Nicolás Gaitán foi peça central na vitória do Benfica (foto: J. Trindade)

O Benfica “matou um borrego” que durava há nove temporadas e entrava na décima. Desde 2004/05, ano no título de Trapattoni, que o Benfica não ganhava na ronda inaugural do campeonato (na altura 3-2 em casa do Beira-Mar). Fê-lo agora com Jorge Jesus, no 2-0 ao Paços de Ferreira. Num jogo onde brilharam Maxi Pereira e Nico Gaitán (e Rúben Amorim), mas no qual o ataque benfiquista continuou a demonstrar ter apenas “pólvora seca”.

No último terço do futebol do Benfica falta uma referência ofensiva, na grande área adversária. Lima tenta sê-lo, mas não o tem conseguido, por manifesta má forma ou características desajustadas à missão. Tal fez-se notar durante grande parte do jogo, valendo aos “encarnados” o acerto de algumas das suas pedras nucleares. Para termos uma ideia deste problema do campeão português, basta olhar para alguns números: o Benfica rematou apenas mais uma vez que a equipa de Paulo Fonseca (13 contra 12) e teve até menos remates com a direcção certa, quatro contra cinco dos “castores”. A ausência da tal capacidade ofensiva (de que já aqui falámos) explica-se em parte pela exibição de Lima. O brasileiro foi, juntamente com Jara (que entrou perto do intervalo) o mais rematador da equipa, com três disparos, mas nunca acertou na baliza. Anderson Talisca, que jogou praticamente como segundo avançado em toda a primeira parte, pouco ou nada fez neste capítulo.

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Atirar pela certa

O Paços de Ferreira apresentou-se bem organizado, procurou o golo, em especial através de um futebol mais directo e das trocas de posição de Hurtado e Cícero, que tentaram surgir nos espaços vazios da defesa “encarnada”, mas ambos foram ineficazes. Mais atrás, Sérgio Oliveira esteve em destaque na recuperação de bola (dez) e Jean Seri no passe (83,7% correctos). Mas não foi o suficiente. Alguns dados explicam então o triunfo (justo) do Benfica. Em primeiro lugar no local dos remates. O Paços chutou muito, mas o Benfica fê-lo 11 vezes dentro da grande área, enquanto os visitantes apenas seis (e seis de fora), um facto que fez toda a diferença. No capítulo do passe o Benfica fez 561, com 83,4% de eficácia, contra 297 (73,1% certos). E depois vieram as individualidades.

Os homens da Luz atacaram 48,8% das vezes pela direita, onde Salvio e Maxi Pereira estiveram endiabrados, tendo ambos efectuado 40 passes entre si. Do lado esquerdo o entendimento não é ainda, naturalmente, o melhor, e Eliseu e Gaitán trocaram apenas 21 vezes a bola, o que explica os 32,8% de ataques pelo lado canhoto. Ainda assim, Gaitán foi, juntamente com Maxi, a grande figura do encontro. O argentino fez cinco passes para ocasião de golo (mais do que qualquer outro jogador), fez as duas assistências para os tentos benfiquistas e nove cruzamentos, embora apenas três com correspondência positiva na área (um deu golo). Pecou somente nas perdas de bola (21, contra 15 de Lima).

Impressionante Maxi

Maxi Pereira teve números de relevo. Marcou no único remate que fez à baliza, efectuou três passes para ocasião e teve 102 toques ao longo do jogo, mais 19 que o segundo, que foi Eliseu. Foi quem efectuou mais passes, 78, com 88% de eficácia, sendo que Rúben Amorim era o que tinha mais ao intervalo (35 – 87%). O médio luso rivalizou com Maxi neste capítulo, terminando com 70 passes, e acabou também atrás do uruguaio nos passes no meio-campo adversário – Maxi com 53 (84,9% certos) e Rúben com 40 (83,7%). O internacional português foi um autêntico pêndulo, pois para além de construir jogo também esteve impecável a defender, com quatro desarmes e oito recuperações de bola, o melhor em campo nestes dois vectores.

O Benfica continua órfão no ataque, a rematar pouco e mal, mas voltou a evidenciar uma saúde invejável nas combinações pelos flancos, na certeza do passe e nas jogadas de envolvimento, que levam a bola “redonda” até à entrada da área adversário, ou mesmo lá dentro. Foi aqui que residiu a força benfiquista.