Até ao anúncio da saída de Lima, o SL Benfica tinha, aos olhos de muitos analistas, um ponto forte a seu favor: a (muito) relativa manutenção da mesma estrutura que havia estado na base do bicampeonato alcançado há pouco mais de dois meses. Em boa verdade o Benfica, entre saídas e lesões de peso equivalente (Salvio), já havia perdido jogadores envolvidos em cerca de 42% dos golos marcados na Liga NOS 2014/15. Com a saída do avançado brasileiro o número dispara para os 72%. E caso se confirme a muito antecipada saída de Gaitán… é caso para dizer que o Benfica bicampeão sofre revolução tão profunda como o FC Porto v2.0 que Julen Lopetegui procura (com dificuldade) construir, mesmo que, até agora, tal não fosse referido. Mas vamos aos números, como é hábito GoalPoint, que no que toca a “achómetro” já existe oferta suficiente.

Tal como fizemos recentemente no caso dos “dragões“, analisámos a produção global da “águia” na época 2014/15 no que toca a golos, assistências e passes para ocasião de golo, com base nos números OPTA, que trabalhamos desde sempre. A partir dessa contabilidade apurámos o grau de envolvimento de cada jogador “encarnado” nos 86 golos obtidos pelo Benfica na Liga NOS, seja por autoria, seja por assistência, obtendo assim a percentagem de influência individual de cada atleta para, assim, contabilizar com exactidão o que o Benfica já perdeu, entre saídas e lesões.

Desta análise resulta desde logo a recordação do quanto a força do Benfica bicampeão assentava no colectivo: 66 dos 86 golos marcados pelos “encarnados” na Liga NOS na época passada foram precedidos de assistência, o que resulta num grau de envolvimento elevado por parte de um número muito alargado de jogadores “encarnados” nos golos obtidos, por oposição a um FC Porto onde Jackson Martínez esteve envolvido em nada menos do que…34% dos tentos obtidos pelos “dragões” no campeonato.

SAIDA DE GAITÁN EXTINGUE CRIAÇÃO

O caso de “revolução” do Benfica não é (ainda?) tão significativo como o que caracteriza os “dragões”. Os “encarnados” mantêm ainda um conjunto de jogadores envolvidos em 59% do total de acções de golo da época passada. Acontece que entre as saídas e a lesão de Sálvio, o Benfica perde o contributo de um conjunto de atletas que estiveram envolvidos em 41% dessas mesmas acções. Se o influente Gaitán seguir o destino previsto deixa, aliás, de fazer sentido continuar a falar no mesmo Benfica, tal o peso do argentino na produção do bicampeão e que faria com que o grupo de jogadores fora do Benfica tivesse maior peso nas assistências e ocasiões de golo “encarnadas” do que os que ainda permanecem de águia ao peito, mais precisamente 52%.

OS RESISTENTES

O Benfica mantém, ainda assim, em Jonas, Talisca e Pizzi três pilares da produtividade atingida o ano passado, com o médio português a resolver, com extrema eficácia, a perda a meio da época de outro sustentáculo do futebol benfiquista: Enzo Pérez. O regresso de Salvio atenuará o efeito e restabelecerá algum equilíbrio aos números, mas resta saber quando e em que condições regressará o extremo argentino, que no ano passado contribuiu com nove golos, outras tantas assistências e nada menos que 40 passes para ocasião de golo.

Mais do que a quantidade de saídas/ausências, o “desvanecimento” do Benfica da época passada mede-se na importância quantificável do conjunto de elementos indisponíveis, num grupo que se destacou pelo jogo colectivo. Maxi Pereira é um bom exemplo. Ao mesmo tempo o Benfica perdeu apenas um bom lateral-direito em final de carreira. No entanto, em termos quantitativos, as “águias” perderam não só um elemento envolvido em 13% dos golos da época passada como também o elemento mais utilizado por Jorge Jesus ao longo dos seis anos passados na Luz.

Provavelmente, no final desta análise, achará menos estranho que o Benfica vá sentido algumas dificuldades em retomar a cumplicidade futebolística da época anterior. É natural, ela está a desaparecer, até nos números.