É preciso recuar até ao início da época 2010/11 para encontrar uma série de três derrotas consecutivas no Benfica. Na altura, FC Porto, Académica e Nacional, fizeram às “águias” de Jorge Jesus o mesmo que Ajax, Belenenses e Moreirense conseguiram nas últimas semanas, instalando uma “crise” talvez sem paralelo na era de Rui Vitória.

Em cada um destes jogos, o Benfica e o seu treinador foram confrontados com desafios atípicos e complicados, fosse pela valia do adversário ou pela necessidade de recuperar de desvantagens largas. Em comum nesses três jogos também o facto de Rui Vitória ter respondido aos desafios retirando Pizzi do campo, como primeira ou segunda opção a partir do banco.

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Melhor jogador da Liga NOS em Agosto com um GoalPoint Rating (8.41) média que bateu todos os recordes, Pizzi tem apresentado esta época números absolutamente fantásticos, que validam a opinião de que está na sua melhor forma de sempre. Com quatro golos, o médio é o melhor marcador da equipa na Liga NOS, mas é ao nível da criação de oportunidades que o brigantino “esmaga” completamente a concorrência, interna e externa.

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Ao todo soma 31 passes para finalização no campeonato, cerca de quatro a cada 90 minutos, sendo que 19 deles nasceram em situações de bola corrida, onde também lidera o ranking da nossa Liga. Mas há mais. A sua eficácia de passe longo (em 84 tentativas) cifra-se nos 71%, número que nenhum jogador com mais de 50 tentativas é capaz de superar, e se considerarmos apenas os passes longos que entram no último terço, a eficácia desce apenas para 62%, um número bastante acima da média num centro-campista.

Por estes factores espanta que, nas alturas em que a equipa mais precisa de jogadores criativos, Rui Vitória decida-se por tirar Pizzi do campo. Nos últimos cinco jogos, a média de expected goals (xG) do Benfica por 90 minutos caiu sempre que Pizzi foi substituído, e isso foi particularmente evidente no jogo do Jamor, quando o Benfica – que até aí só não marcou por grande ineficácia – quase deixou de criar ocasiões relevantes após a saída do “camisola 21”.

GoalPoint-xG-Chart-Belenenses-BenficaNo entanto, o jogo contra o Belenenses não foi caso único. Frente ao AEK, em Atenas, o Benfica fez apenas um remate sem Pizzi em campo (o golo de Alfa Semedo, nascido de uma jogada individual do guineense). Contra o Ajax, foram zero os remates dos “encarnados” desde que Pizzi saiu no minuto 79 (acabando depois por sofrer o golo), e também no jogo da passada sexta-feira, contra o Moreirense, os expected goals do Benfica caíram de 1,3 na primeira parte para 0,8 na segunda, quando seria de esperar precisamente o contrário dada a natureza do jogo.

É difícil julgar o que procurará Rui Vitória quando decide por retirar da sua equação o melhor criativo da equipa (e do campeonato), mas a acompanhar a estranheza da decisão está a falta de resultados, o que deverá fazer reflectir o técnico “encarnado”. Não está provado que colocar mais avançados em campo resulte em melhor futebol e em mais golos, sobretudo quando para isso se retira da equipa, não só o maior criador, mas até o melhor marcador.

Como até o próprio técnico admite, o que tem faltado à equipa não é entrega nem “coração”. Falta eficácia, sim, mas também organização e razão, e os sinais que vêm do banco são de alguém que está a decidir mais com o coração do que com um raciocínio organizado. De certa forma há um paralelo com a situação política brasileira. A decisão de mudar é tomada sem pensar muito nas consequências. Mas no Benfica como no Brasil, se é para mudar por mudar, ele não.