Benfica 🆚 Sporting | Um dérbi para definir tendências

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Ainda o campeonato mal começou e já temos em vista o primeiro dérbi da temporada em Portugal. À terceira jornada, o Benfica recebe o Sporting, este sábado, sendo os rivais de Lisboa duas das quatro equipas só com vitórias na Liga (tal como FC Porto e Feirense).

Os homens de Rui Vitória chegam a esta partida como a equipa mais rematadora do campeonato, com uma média de 18,5 disparos nas suas duas primeiras jornadas. Por trás da larga quantidade de remates está uma base sustentada de criação e domínio nos seus dois jogos, já que são também a equipa que mais passes executa (515) e com maior eficácia (83,1%).

Já a equipa de Alvalade, agora treinada por José Peseiro, vai deixando indicadores que entram em conflito com o estilo de jogo demonstrado durante a sua pré-época. O jogo apoiado que se fazia mostrar durante o Verão tem sido, pelo menos para já, trocado por um estilo mais directo. Numa amostra tão pequena, cada partida tem um peso mais elevado e, neste caso, a primeira jornada – na qual o Sporting acabou por ser a equipa do campeonato com pior percentagem de acerto de passe, tanto no geral (65%), como no meio-campo contrário (54%) e em passes para a frente (45%) e maior percentagem de passes longos (22,4% do total) – influenciou bastante.

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Os números do Sporting na primeira jornada (clique para ampliar)

Uma tendência previsível

Mesmo após a vitória em casa frente ao Vitória FC, os “leões” encontram-se bem abaixo dos outros “grandes” no que toca aos indicadores de passe de curto. Algo que não tem de ser necessariamente negativo na preparação para este jogo. As ideias até agora demonstradas pelo Benfica, somadas ao factor-casa, levam-nos a prever um jogo de domínio “encarnado” – colocando ambos os lados em posições em que se sentem confortáveis, uns em ataque continuado e outros a apostar em transições ofensivas rápidas.

Tendo perdido Jonas e Castillo por lesão, será Ferreyra a liderar o ataque benfiquista. Para mais comparações entre os pontas-de-lança, recomendamos a leitura de todo um artigo dedicado ao tema, mas o Argentino destaca-se mais pela forma como liga o jogo no último terço e menos pelo perigo que traz individualmente. Com apenas 1,6 remates por 90 minutos (excluindo bolas paradas), a presença de Ferreyra poderá não ser perigo directo para a baliza leonina, mas facilitará a entrada de jogadores como Pizzi e Salvio em zonas de finalização.

Estes dois últimos serão mesmo os homens nos quais o Benfica deposita as suas esperanças ofensivas, tendo ambos começado a época em alta rotação. Salvio registou  GoalPoint Ratings de 7.3 e 6.4 nas duas primeiras rondas, após 6.02 na última temporada; Pizzi com um salto de 9.5 e 8.1, contra os 6.30 de 2017/18. Salvio vai fazendo valer a sua imprevisibilidade: é o jogador com mais tentativas de drible do Benfica (7,5) e tanto o faz para zonas de cruzamento como para interiores, onde muito perigo cria ao ser também o mais rematador das “águias” – 5,0 a cada 90 minutos. O internacional argentino poderá ainda ter muito a ganhar no embate com Jefferson: o lateral brasileiro tem sido um dos jogadores que mais dribles consente e o jogador do Sporting que mais faltas comete no primeiro terço do terreno.

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Os números de MVP de Pizzi na primeira jornada (clique para ampliar)

Os golos têm ampliado os ratings de Pizzi, mas o português anda a fazer por isso, com um grande aumento na sua produção de remates e maior eficácia nas suas chegadas mortíferas à área contrária: de 0,7 para 1,86 remates na área, passando ainda a enquadrar 78% destes. Destaca-se ainda pela capacidade de criação para os seus colegas, liderando em passes para finalização, pela capacidade de passe – curto e longo (76% eficácia bolas longas). Não sendo Battaglia um médio-defensivo de sentido posicional forte, Peseiro poderá até optar por mais um serviço de marcação individual para desestabilizar o jogo adversário, como Jorge Jesus tinha optado frente a outros craques na última temporada.

Perigo vindo de trás, pelas alas

Grimaldo e André Almeida continuam a ser o que já eram na temporada passada: facilitadores do ataque do Benfica, mantendo a consistência na produção de cruzamentos (tanto em quantidade como eficácia) e com o cspanhol ainda a adicionar capacidade de drible em situações um-contra-um ofensivas. Mas este ponto, aparentemente positivo, poderá também ser uma vulnerabilidade a explorar pelo Sporting.

Após duas jornadas, os homens de Peseiro são a equipa do campeonato com uma maior percentagem dos seus ataques pelo corredor central (31%): influenciados pelas tentativas de encontrar Dost de forma mais directa e pela utilização de extremos, por vezes até invertidos, com pouca tendência de um-para-um no espaço lateral – tanto Acuña como Nani têm pouco mais de um drible eficaz por 90 minutos. Para esta partida poderia ser benéfica a utilização de um extremo com maior capacidade de atacar o espaço nas costas de Grimaldo. Matheus Pereira mostrou ter essas características na última temporada, mas aparenta estar fora das opções, por isso a escolha poderá mesmo ser Raphinha ou o Jovane Cabral.

Jovane Cabral assistiu Nani para o 2-1 ante o Vitória de Setúbal

No miolo, Bruno Fernandes é o centro das atenções, mas poderá ser chave por razões diferentes do habitual. Neste primeiro dérbi sem William Carvalho, será Petrovic ou Misic a acompanhar Battaglia na espinha do “onze” leonino – todos jogadores sem a capacidade de estancar pressão que caracterizava o agora jogador do Bétis. Jogando frente a um meio-campo do Benfica que quer recuperar a posse bastante à frente (equipa com mais acções defensivas no último terço e segunda com mais no terço intermédio em 2017/18), poderemos ter um Bruno Fernandes mais recuado a ajudar a sua equipa a sair da pressão através da sua progressão e de ganhar faltas.

A outra dúvida no ataque leonino estará ao centro: com a ausência de Bas Dost, poderá entrar em campo Fredy Montero ou mesmo o novo reforço, Diaby. O maliano poderá até não ter o instinto finalizador nem o jogo aéreo do goleador holandês, mas olhando aos seus números na Liga belga, estes revelam um volume de remate incomparável na equipa do Sporting que, combinado com a sua velocidade e capacidade de resolução de lances por si mesmo, poderá ser muito importante nesta partida – mesmo que seja a partir do banco.

Um dérbi tão cedo na época nada decide, mas irá, por certo, dar-nos uma ideia mais detalhada do que vão procurar mostrar os dois grandes de Lisboa em 2018/19. Jovens talentos, velhos conhecidos, reforços e (esperemos) um grande espectáculo de início de temporada.

Tiago Estêvão
Tiago Estêvão
Performance Analyst na GoalPoint, já colaborou com a Statsbomb e WhoScored, entre outros.