Um mês após completar vinte anos estreou-se na Liga NOS e cumpre, esta temporada, a sua nona época no escalão máximo do futebol português. No entanto, aos trinta anos olhamos para Rúben Ribeiro como se só agora tivesse aparecido. Não é verdade. Tem estado entre nós. E, na realidade, este jogador é a prova de que temos todo o tempo do mundo para ser felizes a ver um bom jogador actuar.

À minha maneira

Rúben Ribeiro tem o seu núcleo de amigos de infância em Ramalde, é filho de um antigo jogador profissional e confessa que sempre gostou das coisas à sua maneira. Na formação, passou pelo Penafiel, Boavista e Leixões, onde assinou o seu primeiro contrato. Trabalhou como lateral-esquerdo na equipa do Mar e estreou-se na Primeira Liga com vinte anos. Mas, como santos da casa não fazem milagres, foi longe do Leixões que se fez jogador, regressando ao radar da Liga em 2012/13, com a camisola de um Beira-Mar que acabaria por descer de divisão. Passou ainda por Paços de Ferreira, Rio Ave e Gil Vicente antes de, depois de metade da época sem jogar, chega ao Boavista no início de 2016. No Bessa, foi um dos destaques da segunda volta, e foi até considerado por nós como o segundo melhor reforço de Inverno essa épocaA “vida” de Rúben Ribeiro começou aos 28.

Tempo para amar

Olhando às características de Rúben Ribeiro, podemos aceitar que é daqueles jogadores que tem tudo para ser gostado e tudo para ser odiado. Um jogador aparentemente impossível de enquadrar no contexto de uma equipa, vivendo como se fosse o dono da bola que, no bairro, decide por si só o rumo dos jogos. Um dos dados mais sublinhados no seu jogo é o número de remates desperdiçados. Rúben remata muito, dentro e fora da área, mas com uma baixíssima percentagem de remates enquadrados. Não é por acaso que esteve quase dois anos e meio sem marcar na Liga NOS, mesmo actuando com bastante frequência. Hoje temos na retina os belos golos que marcou a Tondela e Benfica, mas os números mostram que 32% dos disparos realizados esta época foram muito desenquadrados. É um amor difícil e demorado de entender.

Rio Ave (17/18)Rio Ave (16/17)Boavista (15/16)
GoalPoint Rating6.175.815.73
Remates (área)0,90,60,5
        % Enquadrados33%25%43%
Remates (fora da área)0,91,01,7
        % Enquadrados0%24%32%
% Remates muito desenquadrados32%8%9%
Passes para finalização (bola corrida)1,51,21,1
% Passes certos (último terço)77%75%63%
Tentativas de drible3,23,24,4
% Dribles eficazes67%52%40%
Faltas sofridas4,64,24,7
Desarmes2,61,51,8
% Desarmes falhados23%38%14%
Faltas cometidas1,71,73,8

Mas explica-se, aprofundando nos dados que o jogador apresenta ao longo das temporadas. Sendo um dos atletas que mais faltas provoca nos principais campeonatos europeus, Rúben Ribeiro apresenta valores interessantes nos dribles tentados e conseguidos, e uma boa evolução nesse aspecto desde que chegou ao Rio Ave. Esta temporada tem ainda melhorado nos dados defensivos, cometendo menos faltas e tornando-se num atleta com capacidade e eficácia de desarme, contributo que nem sempre é valorizado.

A forma como Rúben Ribeiro brota na presente edição da Liga NOS tem em Miguel Cardoso uma das suas melhores explicações. Pela primeira vez ao longo da sua carreira, Rúben Ribeiro não é demasiado exposto na sua faceta de jogador criativo, porque o funcionamento colectivo retira-lhe essa pressão. Para além do mais, tende a estar acompanhado por jogadores como Francisco Geraldes, o que acaba por duplicar os efeitos do seu jogo, como que apaziguando as suas fragilidades e expondo as suas qualidades. Boas companhias.

GoalPoint-Rubén_Ribeiro_2017_vs_Rubén_Ribeiro_2015-infog
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O futuro a Jesus pertence?

Com a máquina dos rumores a apontar Rúben Ribeiro como eventual reforço do Sporting, é hora de olhar para o espaço que o jogador poderia ocupar no plantel dos “leões”. Com Acuña a poder ser adaptado a uma posição mais recuada no “onze” leonino, abrir-se-ia espaço para a chegada de um novo extremo-esquerdo. Aí, Rúben teria possibilidade de evoluir como elemento que provoca desequilíbrios a partir da ala, necessitando de apurar a sua tomada de decisão no momento do remate, ainda que fosse provável que viesse a ter bastantes menos oportunidades para o fazer numa equipa de maior dimensão.

Ainda assim, olhando para o protótipo de Rúben Ribeiro e apontando para anteriores experiências de Jorge Jesus com jogadores do seu calibre, a sua eventual chegada a Alvalade tenderia para um cenário onde o técnico dos “leões” procuraria adaptar as qualidades técnicas de controlo de bola de Rúben Ribeiro para espaços de maior circulação e menor decisão. O regresso de Bryan Ruiz à actividade com o plantel profissional do Sporting talvez tenha arrefecido o interesse na aquisição de um jogador que poderia exercer o mesmo tipo de papel.

Algo que não deverá preocupar o jogador ou os seus admiradores. Afinal, todo o tempo é pouco para continuarmos a ter o prazer de ver Rúben Ribeiro a ter sucesso no seu habitat natural. Uma equipa que quer jogar futebol.