Vamos por partes: escrever sobre erros que levam a golos na Liga NOS será, nos dias que correm, brincar com o fogo perto de uma sensibilidade que ultrapassou todos os limites do bom senso. Numa época em que, da boca para fora, uma grande parte das pessoas parece ter deixado de acreditar que o futebol é um jogo, insistir em falar de futebol e dos erros que nascem, naturalmente, da forma como cada equipa actua será coisa de lunático. Ora, aqui estou eu.

Uma das frases mais repetidas, das que terão saído da boca de Johan Cruyff, é a de que o “futebol é um jogo de erros”. É uma parte essencial da definição do próprio jogo, assumindo todos que, quando duas equipas, em campo, não cometem erros, o jogo acabará com um empate a zero.

Na busca de uma clarificação das estatísticas defensivas que melhor poderão classificar as equipas e os jogadores, vários autores têm estudado o fenómeno dos erros defensivos, chegando a conclusões de que não existe uma tendência para a repetição do mesmo erro, ainda que a sua ocorrência seja importante para a definição de sucesso defensivo.

Um dos problemas que a Opta tem encontrado é na definição do que é um erro e na conjugação desse erro com o golo. A tentativa de definição coloca o conceito no erro enquanto “evento em que um jogador perde a bola, na sucessão da qual o adversário acaba por marcar o golo.” É, ainda assim, uma zona relativamente cinzenta que acaba por fazer depender no analista que recolhe os dados do jogo a decisão sobre o erro.

Vejamos alguns exemplos:

– No último fim-de-semana, no lance do primeiro golo do Benfica foi identificado um erro do guarda-redes Jhonatan na abordagem que faz ao remate de Pizzi.

– Outra situação aconteceu na visita do Sporting ao Bessa, com erro de Coates, que perdeu a posse de bola e deu golo do Boavista.

– Na primeira jornada do campeonato, um passe incompleto de Mano acabou por permitir o golo do FC Porto.

Como se poderá notar, os erros podem ser provocados pela forma como a equipa adversária defende, com uma pressão no jogador com bola no meio-campo adversário a poder ocasionar o erro, tal como podem depender de um erro não provocado ou de uma falha de abordagem em determinado lance.

Uma primeira volta de poucos benefícios

Os dados da primeira volta da temporada 2017/18 não dão espaço para grandes benefícios, com o Belenenses a ser a equipa com o melhor aproveitamento dos erros dos adversários, não tendo dado espaço para nenhum, na recolha de dados da Opta. Os golos do Belenenses identificados como nascidos de erros foram conseguidos frente ao Estoril Praia, Moreirense e Boavista. Este último serve, até, como exemplo de uma outra situação, uma falha de comunicação entre dois jogadores, no caso Vagner e Carraça, que dá origem ao golo da vantagem dos “azuis” do Restelo.

A equipa que mais erros cometeu na presente temporada foi o Moreirense, com cinco golos sofridos a partir de situações de erro, mas também são os homens de Moreira de Cónegos quem beneficiam mais das falhas do adversário, chegando ao fim da primeira volta com um balanço nulo. O Moreirense é a equipa que, em termos percentuais, tem mais golos alcançados a partir de erros (38%), enquanto no sentido contrário é o Sporting a formação a apresentar uma percentagem superior de golos sofridos após cometer erros (20%), o que pesará na análise feita à organização defensiva dos “leões”.

Sofridos c/ erroSofridos% Sofridos c/ erroMarcados c/ erroMarcados% Marcados c/ erro
Aves2268%31619%
Belenenses0230%31520%
Benfica21118%44010%
Boavista1225%21811%
Braga21513%1343%
Chaves2229%1205%
Estoril Praia43511%31421%
Feirense1215%0150%
Marítimo0200%1176%
Moreirense52719%51338%
Paços de Ferreira1343%1195%
Portimonense1274%1234%
Porto090%1452%
Rio Ave21613%1225%
Sporting21020%0380%
Tondela2277%1205%
Vitória Guimarães32910%32114%
Vitória Setúbal2326%1166%

Golos sofridos e marcados na Liga NOS 2017/18 até à 17ª jornada (Fonte: GoalPoint / Opta)

Olhando para os dados desta primeira volta, percebe-se que as equipas não constroem os seus modelos em busca de provocar o erro, aproveitando-os quando eles surgem.

Uma perspectiva histórica

No entanto, se olharmos para os dados de temporadas passadas, podemos encontrar tendências que se aproximam das ideias de jogo que as equipas adoptam. Na soma das últimas quatro temporadas, Benfica, Sporting, SC Braga, FC Porto e Vitória de Guimarães aparecem como os conjuntos que mais aproveitam os erros dos adversários. O Sporting (com dez golos marcados a partir de erros, em 2016/17, e oito em 2015/16) e o Benfica (com 16 golos marcados a partir de erros em 2014/15) foram os líderes de cada temporada, que tiveram Jorge Jesus ao leme como ponto em comum. Se o factor imprevisibilidade pesará aqui, também o facto de serem conjuntos com forte capacidade de pressão no meio-campo adversário terá ajudado.

Marcados c/ errosSofridos c/ errosDiferença
Benfica25619
Sporting26917
Braga1468
Porto1486
Vitória Guimarães18162
Marítimo761
Aves321
Belenenses13130
Portimonense110
Moreirense1112-1
Boavista1011-1
Rio Ave89-1
Tondela56-1
Gil Vicente12-1
Arouca46-2
Feirense24-2
União Madeira25-3
Paços de Ferreira812-4
Nacional610-4
Chaves37-4
Académica38-5
Penafiel16-5
Estoril Praia916-7
Vitória Setúbal518-13

Golos sofridos e marcados na Liga NOS entre 2014/15 e 2017/18 (Fonte: GoalPoint / Opta)

O Vitória de Guimarães acaba por apresentar uma diferença neutra, na soma destas temporadas, por também estar no topo das equipas que mais erros cometem, a par de Estoril Praia e Vitória de Setúbal. O pior registo numa temporada é de sete erros cometidos que deram a golo do adversário, somados pelos sadinos em 2014/15 e pelos vimaranenses em 2015/16. O Moreirense, esta temporada, caminhará para bater este recorde, tendo, do seu lado, o facto de nunca uma equipa que mais erros cometeu desceu de divisão (mas há sempre uma primeira vez).

A clarificação da definição de erro defensivo na recolha feita durante os jogos é uma necessidade, tal como a elaboração de um pensamento mais complexo sobre as qualidades estatísticas de um defensor. A introdução de dados de posicionamento neste tipo de estudos também poderá ajudar a tipificar os tipos de erros e as zonas de ocorrência, uma situação que nos poderá ajudar a ter análises mais claras. Mas até lá, resta-nos perceber que errar é, mesmo, humano, e, por ser humano, também é parte do jogo de futebol.